Amor, ódio e ftebol

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A linha tênue entre amor e ódio já foi cantada por poetas, músicos, artistas e escritores. Caetano diz que um amor violento quando se torna mágoa vira o avesso de um sentimento, um oceano sem água. Acho que é isso, sim. Quer dizer: mais ou menos. Não é que vire, já é. Só troca de roupa. Acredito que o ódio (e o amor) é um sentimento ardiloso e que não se entrega facilmente, não arregaça suas entranhas para qualquer um como a Geni de Chico. Tanto um quanto o outro se manifesta à sua forma, do seu jeito, sempre enganando sua presa, o infeliz que ama ou o que odeia.

Um exemplo do que estou falando: a Copa do Mundo e o mundo de brasileiros que torce contra a seleção brasileira. Esses torcedores elegem outras pátrias, tornam-se simbolicamente mulçumanos ou argentinos. São capazes de orar para Alá e cair no tango com a indefectível rosa na boca porque estão exatamente equilibrando-se na borda amor-ódio, na tal linha tênue da sanidade. É tanto amor pela coisa que se torna simplesmente insuportável viver um fato contrário. Torcem tanto pelo Brasil que o odeiam, nesse movimento paradoxal de equilíbrio de monociclista sobre a corda-bamba. Adoram o Robinho e vibram com seus gols com a mesma intensidade de um primeiro amor. Só que o fazem para dentro. É interno.

Torcer contra é torcer que o jogo aconteça. É não ficar indiferente a ele. Como torcer a favor também o é. É preciso saber que não dá para racionalizar tudo, mas que a gente bem que tenta quando a dor é grande. Os bêbados vão dizer que falta pinga para dar uma força à seleção. Os que têm sua mente orientada sexualmente acusarão a abstinência dos jogadores como problema maior. Por isso os hermanos saem em vantagem. Os religiosos dirão que o Lúcio não dá conta, pois na zaga mesmo só Jesus salva. Os intelectuais vão torcer contra porque é ano de eleição presidencial e se o Brasil ganhar aí vai alienar o povo.

Com seu vibrar, com a pressão do seu amor, os que torcem purgam o ódio e o cospem como um vulcão em forma de raiva e xingamento contra o Brasil, o juiz, a moça da limpeza, o próprio Robinho e todos aqueles que se aventuram a assistir ao jogo com eles. Essas reações são reações de amor, de um amor infinito. Chamaria essas pessoas de negativas. Não pelo pessimismo, mas pela forma especular de mostrar o que sentem: é preciso pôr na frente do espelho para entender a real dimensão do sentimento. Como o negativo da fotografia precisa ser revelado para que a retina possa reconhecer as cores conhecidas, os torcedores negativos precisam ser compreendidos pelo avesso para que entendamos a dimensão de seu amor. Ou ódio.

Há, dialeticamente, as pessoas positivas. Essas compram bandeirinhas, fazem festa, vestem blusas, põem faixas na cabeça, pintam a rua e o cachorro. Beijam a boca da sogra na hora do gol. Se batêssemos uma foto, no entanto, essas pessoas positivas apareceriam lado a lado às negativas, até abraçadas pelo amor comum ao Brasil e seu time de futebol. Porque também estão na linha tênue. Mas experimente vê-las após a derrota do Brasil. Há uma reversão total: um ódio contra “o timeco de pernas-de-paus de um técnico burro e teimoso que, ainda por cima, fez a burrada de não levar o Ronaldinho Gaúcho. E o Josué? E o Josué? Quem teve a brilhante idéia de convocar o Josué, hein?”

Estou com Freud. O que o consciente não dá conta é jogado para o porão do inconsciente. Ele é a gaveta com fotos velhas e novas, naftalina e perfumes, cartas e cartões, bilhetes em guardanapos, pessoas vivas e mortas literal e metaforicamente. Há anos sabemos que temos que arrumá-la, mas não sabemos a razão de não conseguir fazê-lo. Por isso nunca ousamos nem tentar. E aí, o bolo volta, mais cedo ou mais tarde, de alguma forma e fermentado, via algum gasparzinho a nos atormentar vida afora, nos fazendo ficar sem rumo, sem prumo e, algumas vezes, sem amor. E não adianta tentar entender a razão. A resposta está na gaveta. Na bendita gaveta do inconsciente. Bora, Brasil.

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5 comentários em “Amor, ódio e ftebol

    Adrienne disse:
    10/06/2010 às 22:04

    O futebol foi só uma desculpa conveniente, né?

    danibranquinho disse:
    10/06/2010 às 22:24

    bom saber que as pessoas devem ter uma razão para torcer contra! vou gastar menos saliva quando encontrar um desses ahuhauhau

    Bianca disse:
    11/06/2010 às 14:58

    Eu não torço contra o Brasil, até torço a favor, acredite. Só não compactuo com o clima natalino da época. Sem contas as vuvuzelas, ah, as vuvuzelas… rs

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