Amor e Educação: dimensões compartilhadas

Postado em Atualizado em

[Publicado originalmente no Portal Amazônia]

Durante um curso chamado “Educação, Comunicação e Tecnologia”, a turma e eu levantamos alguns tópicos que são sempre recorrentes quando se discute educação. Foram seis temas que iam e vinham. O

interessante da coisa toda: esses temas ou dimensões funcionam também no âmbito do amor.

Cheio de momentos apaixonantes, o processo educacional pode nos ensinar a pensar no amor e nas paixões, responsáveis pela educação de nosso coração para a vida. Ou talvez o contrário: as paixões e o amor nos ajudam a entender as dimensões envolvidas no processo pedagógico. Observe como há uma sobreposição do processo educacional e do processamento afetivo.

A primeira dimensão é o planejamento. O planejamento é essencial em qualquer situação. Além de essencial, a turma e eu concordamos que o planejamento deve ser flexível para que se possa adequar às demandas contingentes, ao não previsto. É arriscado desconsiderar o dinamismo da vida. Há situações em que nós até não planejamos e as coisas fluem muito bem, mas esses casos são exceção à regra. São casos. São casos.  Assim, manter um planejamento rígido e fixo, sem abertura para as contingências, pode levar à atrofia pedagógica. Ou ao engasgo amoroso.

No entanto, para poder planejar é necessário definir alguns parâmetros sobre o que se quer enquanto professor, o que se pretende dos nossos alunos, o que se entende por educação. E também sobre o amor, a relação e as expectativas em comum. Nada rígido. Bem, quase nada… São somente princípios. Princípios que nortearão nossas atitudes político-pedagógicas e, claro, nosso comportamento afetivo.

Definir parâmetros e postular princípios são ações que ajudam a nos colocar no rumo. Faz-se necessário decidir sempre. A decisão é tão constitutiva de nossas vidas que esquecemos que decidimos 24 horas por dia. A que horas acordar? O que tomar no café? Que roupa vestir? O quero fazer com minha sala de aula? Corto ou não corto o cabelo? O que meu aluno deseja? Qual perfume eu uso? Qual meu conceito de educação? Falo ou não falo para ela? Decisões. Na escola, as políticas e as pedagógicas na escola. No amor, as afetivas e sentimentais. Decidir envolve não aceitar decisões prontas e postas por outros. Nada de decisões mcdonaldizadas. É necessário ter certa incredulidade em relação ao que vem pronto. E isso, de pronto, nos leva ao terceiro ponto: duvidar das receitas.

O problema de qualquer receita é que ela esquece a singularidade. A receita é uma grande abstração totalizante. É uma metanarrativa que se vê como sendo capaz de explicar e dar conta de todas as situações. Se funcionou ali, que garantias teremos que vá funcionar aqui? Se há similaridades que podem ser utilizadas como parâmetros e generalizações que podem ser úteis na hora em que é preciso definir, há também a necessidade de ser antropofágico – no sentido modernista – com as idéias externas. É preciso comê-las, degluti-las e reinventá-las, expurgando o que pode ser nocivo. Não é porque todo mundo faz assim que eu tenho de fazer também. A relação não é direta, simplista e simplória. Podemos até fazer o que os outros estão fazendo. Mas nos permitamos conhecer primeiro para podermos avaliar e decidir se dá, se rola, para o nosso mundo. Por isso falo de incredulidade e não de ceticismo. Enquanto a incredulidade permite a dúvida, o ceticismo abdica de perguntar.

Que relação pedagógica se sustenta sem o exercício da dúvida permanente? Que relação afetiva se sustenta na crença de uma certeza absoluta? Ambas são meros jogos de faz-de-conta que mais cedo ou mais tarde arrebentam e nos arrebentam, enquanto educadores e enquanto amantes. O jogo é duvidar permanentemente e antropofagizar as receitas alheias. Para isso, temos de ter instrumental, ter as ferramentas que nos permitam melhor trabalhar o real. É a quarta dimensão.

Sem instrumentos e conhecimento nem o melhor dos médicos salva vidas. A não ser que seja o McGyver (Google, moçada!). Como um professor poderá planejar e tomar decisões, ser incrédulo quanto à dadidade de um dado, sem que ele conheça minimamente os fatos com os quais lida, sem que tenha qualificação profissional? Como pode alguém que ama decidir o que quer, baseado em expectativas e planos,  e não aceitar modelos de amores, como as cartas dos livros da Ediouro, sem que tenha amado e vivido intensamente amores, novos, diferentes de variadas cores e sabores?

A qualificação continuada do profissional da educação é uma dimensão imprescindível para a educação. É necessário começar do zero, sem experiência, de certo, como em todo começo. Mas é igualmente imperativo buscar mais e não parar nunca, como as águas do Rio Negro que correm incansáveis. Amar é imprescindível para o amor. Não dá para parar. Mais do que perder o bonde da história, quando paramos somos esmigalhados por ele. É por meio da qualificação e do amor contínuo e continuado que se acessa a informação sobre o fenômeno imediato e se pode decidir que informação é ou não significativa para nosso aluno. Ou para nossa vida afetiva.

Assim, qualificar a informação se apresenta como o quinto ponto. A escola não se sustenta mais no modelo da transmissão de informação. Informação há aos montes, flanando sobre nossas cabeças. Basta esticar a mão e pegar. A questão agora é aprender a processar essas informações soltas, interligá-las, achar o movimento de relação e produzir informações novas. Dessa forma, da reprodução se passa à produção. Esse agir sobre a informação é complementar ao qualificar. E é, sem dúvida, um agir sempre provisório, que deve ser sempre renovado, tendo em vista a já citada dinâmica dos fatos sociais e afetivos. Se pararmos uma informação no tempo e no espaço, ela fatalmente caducará, ficará chata e obsoleta. Tornar-se-á anacrônica, dispensável e não-significativa. Se se perder o tempo certo, o timing desse ajuste permanentemente necessário, se perderá irreversivelmente o fato enquanto objeto de prazer, enquanto elemento constitutivo de qualquer relação pedagógica ou afetiva. Aí é preciso renascer, pois se se perde o prazer é preciso reconhecer que haverá um luto a ser gasto para que haja nova gênese.

O prazer é a última de nossas dimensões. Nossa escola está carente de prazer, de paixão. Nosso aluno vai arrastado para a sala de aula, pois não vê absolutamente nenhuma significação no ato de estar em um lugar que não lhe proporciona desejo. O mero desejo de estar ali e fazer parte. O prazer de problematizar suas questões fica quase sempre de fora. Sem prazer não há gozo e sem gozo não há a realização do sujeito, já dizia o velho Freud.

Nós, professores, muitas vezes funcionamos como castradores do prazer daqueles que deveríamos seduzir e fazer delirar. Temos que fazer nosso alunos cair extasiados, suspirando em falsete, sem fôlego e com arfadas, clamando por algo que lhes minimize a hipoglicemia da prática do gozo gozado. Que relação sobrevive sem se querer estar por perto, física ou mentalmente? Mais: que relação se sustenta sem que haja a vontade de querer se sentir incluído, pertencendo à relação, vivendo-a intensamente? Que relação pode ser produtiva e significativa quando a indiferença impera, quando a razão de estar fenece? O aluno evadido é um sintoma de falha na missão do prazer contínuo. O amor evadido também.

Resumindo: devemos planejar de forma plástica e flexível. No entanto, essa flexibilidade deverá levar em conta os limites estabelecidos nos princípios e parâmetros valorativos, filosóficos ou afetivos que regem a situação. É preciso ter cuidado para não tensioná-los a ponto de uma ruptura irreversível, que force um recomeço, num desperdício de investimento seja lá de que natureza for. Para isso se faz necessário ter acesso às informações. Só de posse delas, no momento certo, os agentes do jogo pedagógico ou amoroso podem redimensionar a situação, agindo sobre a informação. Se houver a possibilidade da ação, certamente haverá a produção de informações novas, haverá a feitura de situações não pensadas antes, que podem até surpreender seus próprios agentes. Mas tudo isso não vale de nada se se perder o timing ou se não houver mais o prazer compartilhado. O prazer é duplo. Tem de ser duplo. Em sendo individual, o outro se vai, se esvai. Revolta-se e não volta.

É essa a complexidade da educação. É essa a singularidade do amor. Elas não são atividades para improvisadores, mas para profissionais, para aqueles que têm no sangue a paixão que move, que desloca, que movimenta.

Caso você tenha um problema em sua sala de aula ou em um relacionamento afetivo, procure os sintomas. Provavelmente uma dessas dimensões está capenga e pode num piscar de olhos por tudo a perder. O diagnóstico tem de ser rápido e preciso, como os dedos ao piano em uma peça de Bach. Cazuzamente, o tempo não pára. Ele é inquieto, as coisas correm e nos deixam para trás. Não se pode perder a noção de que tudo está interligado. Que o menor movimento em um dos nós afeta seu todo. São nós solidários entre si.

Finalizo trazendo o princípio de solidariedade proposto por Che Guevara, que endureceu sem jamais perder a ternura. Diz Che: “Toda lágrima que se derramar no mundo também é minha lágrima; toda ferida que esteja num corpo qualquer, no mais longínquo continente, está na minha pele e toda opressão que uma pessoa humana, na última caverna do mundo, possa sofrer é minha opressão”. Assim é a teia que une as dimensões pedagógicas. Assim é a tessitura das dimensões afetivas. Não dá para segmentar sem ensanguentar. Simplesmente não dá

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