Faces secretas sob a face neutra

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[Em 2007, publiquei em minha coluna de jornal o texto “A Arca de Noé“. O texto rendeu porque muita a gente achou legal, mas muita gente achou ofensivo aos professores. Na semana seguinte, publiquei o texto abaixo para tentar explicar, do ponto de vista da linguagem, com é que a interpretação de um texto ocorre. É um texto sempre oportuno. Hoje, por exemplo, ajuda a tentar entender o fenômeno Carapucentismo, que se espalha no Twitter].

Interessante a reação dos leitores ao texto da semana passada, em que Noé tinha que salvar os vários tipos de professores na Arca. Enquanto uns gostaram do texto, reconhecendo a fauna de personalidades existentes na escola, outras odiaram a analogia.

Como meu doutorado é em lingüística, mais especificamente em Análise de Discurso, resolvi apresentar a você, leitor, como se dá o processo de construção de sentidos e por que o mesmo texto causa reações tão diferentes.

Primeiramente, nenhum texto contém o sentido em si. O sentido é uma construção que se dá no processo de leitura a partir dos olhos do leitor. Cada um de nós tem uma história de vida e durante essa trajetória aprende a ter conceitos em relação a tudo. Aprendemos o que é ser democrata, feliz, preconceituoso. Aprendemos o que é ser professor, o que é ser aluno. Aprendemos a conceituar o que é uma boa escola. Mas exatamente por termos trilhados caminhos diferentes, grande é a probabilidade de que nossos conceitos não batam com os de outras pessoas. Exemplo: a frase “eu quero terra” pode ter vários significados, dependendo do lugar do qual se fala. Na boca de um índio tem um sentido, na de um sem-terra tem outro. Assim, o texto não traz o sentido, mas dispara um processo de significação que toma forma a partir da posição ocupada pelo leitor. Por isso, falamos a mesma língua e às vezes não nos entendemos: discursos diferentes.

Se não é o texto que traz o sentido, por que uns reagiram bem e outros mal ao texto da semana passada? Os que reagiram bem leram e construíram os sentidos a partir de uma posição de reflexão e não de crítica pessoal, que foi exatamente a leitura dos que não gostaram.  No popular: a carapuça serviu. Nos estudos de discurso, há uma frase ótima para explicar isso: o velho do rio só acha o que ele já deixou lá.

O segundo aspecto é que o objetivo de um texto é causar deslocamento. Traduzindo o jargão discursivo: um texto, para valer a pena, tem de provocar certo desconforto e, quiçá, uma mudança de posição no leitor, fazendo com que ele o leia de outro lugar. Os olhos vêem de onde os pés pisam. Não há nada mais alienado do que acreditar que os sentidos que damos ao mundo são os únicos possíveis. “Alienare” significa “abrir mão de”. Abre-se mão de outras leituras e fica-se sempre significando as coisas do mesmo jeito. Há alienados de esquerda, de direita, religiosos, profissionais. Um sujeito normal circula: sabe a hora de ser pai, a de ser professor, a de ser aluno, a de ser cliente, a de ser religioso. Parar num lugar só é problemático num mundo dinâmico em que as identidades estão sendo substituídas por processos de identificação.

Deixo a pergunta aos leitores que leram o texto e não gostaram: que bichinho foi o espelho na sua leitura? Se houve identificação (e deve ter havido, para ser tomado como crítica pessoal), não é hora de fazer autocrítica e superar esse lugar que incomoda a si próprio. Porque Freud dizia – e eu estou com ele: quando não se enfrenta o problema de frente ele recalca e volta, assombrando de outras formas. Não há neutralidade na linguagem, amigo leitor. Dizia Drummond, “tem mil faces secretas sobre a face neutra”.

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