O Saci digital

Postado em Atualizado em

Como estudioso da linguagem, andei pensando em um fenômeno que se evidencia na timeline do Twitter: o carapucentismo. E aqui estou para tentar explicar como é que ele ocorre, a partir da perspectiva da linguagem, que é a praia em que ouso surfar com certa segurança.

Carapucentismo é quando alguém tuíta algo genérico na timeline e um dos seguidores desse alguém toma a frase para si. É interessante saber com a linguagem explica o fenômeno.

Por que um mesmo texto é bom para a Tatiane e odioso para Sandra? Por que um filme é show de bola para o Gustavo e muito fanta para o Felipe? Por que Clarice Lispector extasia a Ellen e é indiferente para a Bia? Por que que eu gosto da Patricia Poeta e o Norton da Christiane Pelajo? Porque, ao contrário do que nos ensinam na escola, leitura está longe de ser extração de significados de um texto. Leitura é, antes, atribuição de significados, significados que  já trazemos conosco e que construímos na nossa existência como falantes de uma língua.

Repetindo, para ser didático: o sentido não está no texto, entendido aqui na sua forma mais ampla. O sentido está no que é atribuído pelo leitor sob o estímulo do texto. Se assim não fosse, um texto seria sempre  interpretado da mesma forma por todos os seus leitores. Mas o estético é ideológico, pois depende da matriz semântica pela qual vemos o mundo, mundo em que nos incluímos.

Ok, mas o que isso tem a ver com o carapucentismo? Tudo.

Não que um texto que fale de pessoas chatas tenha sua carapuça preenchida pelo destinatário porque ele se ache chato. Nem um texto que critique trolls, como o belo texto da Jussara Pordeus – http://twitpic.com/1vttdk – seja incômodo porque a pessoa se acha um troll, ainda que não saiba. Não. O carapucentismo acontece porque a pessoa se acha. Assim mesmo, intrasitivamente. Ponto. Sofre de Complexo de Sol – o sistema todo gira ao seu redor –  e acredita piamente que dos 95 milhões de usuários do Twitter, aquele tweet solto foi – e só pode ter sido – para ela. Os links são para ela. As frases são para ela. As poesias são para elas. Os xingamentos são para ela. As fotos do Twitpic, claro, para ela. O diapasão do mundo é ela.

Aí, as consequências lógicas: ou o saci digital toma para si e ignora – uns fazem isso mesmo porque não crêem valer a pena a troca de tweets e DMs espinhosas –,  ou toma para si e dá um unfollow simples e clean no tuiteiro – recurso que acho de uma elegância ímpar no Twitter –, ou, o pior, acusa o golpe, abrindo para o mundo a sua interpretação egocêntrica, respondendo ao autor do tweet e começando uma flame war aberta ou tácita, mas que qualquer um pouquinho mais safo saca de longe.

Para a linguagem, quando as pessoas fazem os sentidos do mundo, elas só acham o que já deixaram lá. Os olhos vêem de onde os pés pisam. É preciso que já haja sentido antes para haver sentido. Ninguém lê um texto. Na verdade, ele é que nos lê. E o pior é que quando nos encarapuçamos nele, acabamos retuitando isso de diversas formas para o mundo. O carapucentismo desnuda.

E antes que alguém se encarapuce, eu afirmo categoricamente: este texto não é para ninguém. Eu juro. Por Deus. Podem tirar as suas cabeçorras daí! Gente carapucenta…

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18 comentários em “O Saci digital

    Lu Freitas disse:
    12/06/2010 às 22:28

    GENIAL!! simples assim 😉

    Daniel Santana disse:
    12/06/2010 às 22:44

    Deus é mais! Amém senhor!
    Enfim, certa vez discutindo ‘arte’ havia dito que um filme nada tem de arte pois, essa está no olhar de quem o vê. Ou seja, quase apanhei por tirar todos os adereços e confetes de uma obra.
    Povo achante a pensar que o sentido está na fala e não na [re]significação. Salve Sérgio!

    Francine Ramos disse:
    12/06/2010 às 22:58

    Disse tudo! Infelizmente muitos ainda não compreenderam que twitter não é conversa de tiazinhas na janela. Twitter é pra agregar, compartilhar, divertir, mas as cabeças de saci continuam paradas enquanto o mundo gira.

    Northon disse:
    12/06/2010 às 23:12

    Excelente texto professor!
    Às vezes eu fico bolado com algumas indiretas, mas nada que tire meu sono!
    E à propósito: eu realmente GOSTO da Christiane Pelajo [e sinto falta da Renata Maranhão tb, ehehehhehe]
    Abs.

    Carol Marinho (@carolmc_ disse:
    13/06/2010 às 15:47

    Muito bom o texto!! Também acho que é se dar muita importância mesmo. Pessoal com mania de perseguição é um saco!
    Uma vez eu vesti umas carapuças que vc escreveu no Twitter. Até pedi desculpas pelas minhas reclamações do dia. Mas depois pensei: ele segue mais de 2 mil pessoas, mal me conhece e eu nem sou tão chata assim (modestamente falando hehehe). Não é pra mim. Viu? Pelo menos serviu pra eu me policiar hehehe Melhor do que começar uma briga.
    Beijos

    Anderson Briglia disse:
    13/06/2010 às 19:18

    Boa explicação! Seria ótimo que as pessoas carapucentas lessem isso (já devem ter lido) e se tocassem que nem tudo são para elas. Mas, na minha humilde opinião, isso também não bastaria. Ainda na minha opinião, e por experiências, as pessoas carapucentas já possuem outros problemas psicológicos (quiçá pisquiátricos, hehe), e o ato de vestir carapuças é só um reflexo de problemas maiores.
    Eu ainda não tinha lido o texto da Jussara, acredita?! Mas li e achei muito bom também.
    Abraços

    Ellen Amazonas disse:
    14/06/2010 às 08:45

    fala logo q esse texto foi pra mim! tem até meu nome aí! hehehe
    vou comentar nada não. alguém pode vir aqui e vestir meu comentário.

    Danielle Maruzzia disse:
    14/06/2010 às 08:56

    Excelente texto, e carapucentismos à parte, eu sempre me vejo em alguma situação… Certeza que o texto não foi pra mim?!

    luadosolzinho disse:
    15/06/2010 às 10:38

    Gosto deste termo: Carapucentismo. rsrs É bonito. =D E o texto está ótimo. Legal explicar como isso funciona. Tem gente que não entende. Já me senti assim, mas não por achar que foi pra mim. Foi numa situação em que ficou explícito pra quem era e isso me incomodou um pouco por ter uma ligação direta com a pessoa e a situação TROLLADA, sabe como é. Mas eu costumo ignorar. Deixo o TROLL (aquele que, segundo a queridíssima @jussarapordeus, fica induzindo os outros a perderem a compostura) se enforcar com a própria corda. E eu já vi isso acontecer. Sabe quando o próprio TROLL começa a confusão e depois fica sem argumentos, se contradizendo e tentando dizer que não foi bem isso que ele disse?! rsrs Pois é. E vai ter gente carapucenta que vai achar que eu estou falando delas. rsrs #morroderir

    Paulo Medeiros disse:
    15/06/2010 às 13:02

    Mais um de seus belos textos!!!!
    Parabéns professor!

    Jackieline Veras disse:
    15/06/2010 às 15:00

    muito bomm 🙂 é incrível observar que isso acontece e em proporções gigantescas.. mass, considero o twitter algo pessoal, quem quer lê, quem não quer não lê.. e de certa forma o twitter tá virando um blog, as pessoas o utilizam (como eu, as vezes) para expressar sensações, sentimentos, compartilhar angústias e afins, o carapucentismo é algo inevitável. Entretanto, os de espírito inquieto sempre encontrarão pêlos em pele de rã.

    Adorei o texto, de verdade.

    Abraços

    danibranquinho disse:
    17/06/2010 às 23:46

    ainda bem q nao tenho twitter, senao diria q o texto foi pra mim… rs…
    ah! professor, o senhor esqueceu de mencionar a coca zero no seu “about me” à esquerda acima, como algo a que não resiste. x)

    Daniel Santana disse:
    19/06/2010 às 19:30

    pô, a coisa rendeu aqui heim. O Holanda que se cuide, vai perder o posto de blog mais comentado de Manaus rsrs.
    [Que heresia Daniel, que heresia…]

    Magda Loiana disse:
    14/05/2011 às 13:50

    Olha só que incrível, esse texto REALMENTE foi feito pra mim!
    É sério, falo isso sem ironia!
    rsrs.

    Lourdes disse:
    16/05/2011 às 08:28

    Dia desses tava conversando com Aline, antes dela virar manezinha, sobre as tais tuitadas carapucentas. Mas que tem gente que manda mensagens nojentas tendo como alvo algum “amigo” seguidor, ah, isso tem. Ai, meu Deus!! Sou carapucenta!!!!

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