ABC no Céu

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Unidade Educacional Solon de Lucena/Subunidade Educacional Leonilla Marinho/Manaus, 26 de abril de 1975/Diretora: Dalva Pereira Vieira/ Professora: Helena Ferreira de Carvalho/Série: 1ª/Turma: A”. Nunca esqueci esse cabeçalho. Com breves variações, ele me acompanhou durante os quatro anos do meu primário.

Manaus não era tão grande e o Grupo Escolar Leonilla Marinho, uma escola pública modelo, era subordinado ao Solon de Lucena. Lembro com saudade do Grupo, como chamávamos carinhosamente o Leonilla. Jambo & Ruivão, Manda-Chuva, Leão da Montanha e outros personagens feitos de cartolina e pregados no isopor enfeitavam o saguão principal. A escola impecável era imagem da gestão da dona Dalva, a diretora. Não é surpresa para quem trabalha com educação: a escola é a cara de seu gestor. Dona Dalva controlava o Grupo com autoridade. Quando se ouvia sua voz, a palavra que vinha à mente era disciplina.

Era subsecretário ainda quando um dia recebi um recado. Minha secretária disse que a Samara havia ligado dizendo que a missa da professora Helena seria na segunda seguinte, na Igreja de Lourdes e que a dona Dalva estaria lá. Samara é uma das cinco filhas da professora Helena e a professora Helena é a professora do meu cabeçalho da 1ª série.

A última vez que falei com a professora Helena foi quando ela foi à Semed, justamente com a Samara, fazer uma visita de cortesia. Éramos dois orgulhosos. Eu, por apresentar aos que trabalham comigo a pessoa que me ensinou a ler, e ela, por ver um de seus “meninos” em uma função de extrema responsabilidade social. Há anos não a via, mas há presenças que mesmo na ausência se fazem fortes.

Em nossa memória afetiva há sempre um lugar para o que nos constitui, a despeito de distância geográfica ou temporal. O Grupo foi ampliado, perdeu o pátio, não tem mais a disciplina da dona Dalva, a merenda da Chiquinha e nem a Penélope Charmosa na parede. O antigo quadro-verde está órfão de sua maestrina. Sua régua de madeira de 50 cm era a batuta com a qual regia a entrada dos meninos no universo do ABC. A Balainha, que dançava com a Beth Diger nas festas juninas, já não cruza mais seus arcos coloridos no ar.

Fui à missa da professora Helena. A dona Dalva estava lá. O recado da Samara sobre sua presença foi uma forma de mobilizar a disciplina para que eu comparecesse. Nem precisava. Lá estavam várias ex-professoras do Grupo, entre elas a minha mãe, Helena Freire, e a professora Machadinho, além de ex-alunos. Ao dar o abraço silencioso nas filhas, eu chorei. Chorei porque percebi o quanto a professora Helena fez diferença em minha vida. Dei-me conta de que o maior desafio dos professores de hoje é se fazer presentes na memória afetiva de seus alunos para sempre, como a professora Helena Carvalho se faz na minha.

Do meu cabeçalho agora um nome se faz ausente. Bateu a campa do tempo da vida terrestre da minha professora. Mas o Grupo do céu está mais feliz, pois a mesma campa bateu para a entrada lá. Com suas fardinhas brancas e congas azuis impecáveis, os anjos fizeram fila e já foram para a sala. Certamente se levantaram e em voz uníssona, típica das crianças, reverenciaram: “Bom dia, professora Helena!” Ela deu bom-dia sorrindo, batuta à mão, e foi para o quadro ensiná-los a ler. Minha professora sabia fazer isso como ninguém.

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9 comentários em “ABC no Céu

    Lissia Amanda disse:
    25/08/2009 às 20:59

    Olá vc estudou em que ano no leonila marinho? E a dona dalva, onde ela mora? Tem noticias?

    Lissia Amanda disse:
    25/08/2009 às 21:00

    Olá em que ano estudou la no leonila? Tem noticias da dona dalva onde ela mora

      Sérgio Freire respondido:
      25/08/2009 às 21:07

      Lissia, estudei no Leonilla de 1974 a 1977. DOna Dalva está bem e mora na Ica Paraíba.

        blogdokokay disse:
        15/10/2009 às 10:30

        Corrigindo: Ica Maceió.

        Sérgio Freire respondido:
        15/10/2009 às 11:10

        Isso! Ica Maceió!

    Elder Martins disse:
    27/06/2010 às 09:42

    – Lembrei da minha professora Ruth, ela cantava bastate pra nossa turma, se eu não me engano era até uma música chamada Cativar. Hoje em dia ela está dando aulas no Ida Nelson, sempre eu encontro ela no DB, rs, e ela me olha sempre e diz: como vc tá grandão meu filho. Rs.
    Tem outra que não sai da minha memória, a Prof Daniella, uma branca dos cabelos logos e negros, me lecionava Lingua Portuguesa no Casimiro. Ouvi dizer que ela virou Diretora de uma escola Publica, ela era linda, e querida por todos na escola.

    =)

    Paulo Nunes de Mello disse:
    05/05/2011 às 17:07

    Ola,eu tambem estudei nesta escola,nos anos 1974-75.Lembro-me da diretora Dalva,era de pulso firme e determinado.Moro desde entao em Rondonia,P.Velho,mas tenho saudades e muitas lembranças destes anos e fico muito feliz e poder sitar as minhas saudades.Sou Rondoniano,mas sou Manauara,sim senhor.

    Janete disse:
    22/08/2011 às 14:07

    Eu estudei no Leonilla em 1973 a 1976, eu morava na
    Rua 31 do conjunto, você tem fotos da fachada do
    grupo?

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