Ao que vai chegar

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[Escrevi este texto no dia em que soube que iria ser pai. Havia publicado no site antigo. Republico agora aqui.]

Voa, coração
a minha força te conduz
que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia
colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer
e não se esqueça de trazer força e magia,
o sonho e a fantasia, e a alegria de viver
Voa, coração
que ele não deve demorar
e tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
e traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
e de onde se planta a paz,
da paz quero a raiz
E uma casinha lá onde mora o sol poente
pra finalmente a gente simplesmente ser feliz

Toquinho

Hoje, com a lua cheia belíssima, cantei a música do Toquinho de uma forma diferente. Busquei dentre os cds da estante o que contém a música e o pus para tocar. Ouvi com calma, prestando atenção em sua letra, em cada uma de suas frases, em cada uma de suas palavras. É impressionante. Como linguista, tenho como verdade científica o fato de que as palavras adquirem seu peso no contexto de uso. Mas nunca essa verdade esteve tão clara para mim como hoje. Vejamos, pois, como a letra da música do grande Toquinho se estende na minha compreensão redesenhada.

“Voa, coração. A minha força te conduz. Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar”. Meu coração está leve. Como um passarinho que salta do ninho na certeza de que pela primeira vez suas asas vão levá-lo ao longe, a lugares nunca idos, às experiências nunca vividas. Um primeiro vôo. Minha alegria e meu sorriso insistentes e indisfarçáveis são a minha força. A força que conduz meus pensamentos, meus movimentos, meus dedos quando escrevo este texto. De repente, à tarde, um beija-flor anuncia a chegada da luz do sol de um novo amor. Amor que não conheço, mas que já me treme as carnes; luz que ainda não vi brilhar, mas que já me incandesce os olhos. Em breve, esse sol vai iluminar as vidas de onde surgiu, numa supernova de amor explodindo e expandindo suas partes pelo universo da vida. Aguardo o dia desse raiar como nunca esperei por nada nessa vida. Nada.

“Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz. Clareia seu caminho e acende seu olhar”. A tua luz vai rasgando a escuridão como as naus portuguesas rasgaram os mares desconhecidos no século XVI. Ela abrirá caminhos nos breus do dia-a-dia e nos mostrará onde se escondem as alegrias que te esperavam para que pudessem vir à tona, ter sentido, vir ao mundo. Tua incandescência faz da noite luz, com teu brilho próprio. Somente o aviso de tua vinda fez os ares mais leves, limpando as brumas das pequenezas das vidas humanas, mostrando que há céu azul em dias nublados. Vem e clareia com teus mil sóis o caminho que hás de percorrer, primeiro segurando minha mão pelos passos cambaleantes teus, depois com as mãos livres para percorrer tua estrada individual e, por fim, segurando minha mão pelos passos cambaleantes meus, com o corpo velho e cansado, que rejuvenesce ao ver o brilho dos teus olhos, a minha fonte de juventude, refletindo para mim o mesmo brilho ofuscantes dos meus olhos quando soube de ti.

“Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia. Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer”. Vai onde as rosas são feitas, os perfumes pensados, as estrelas recortadas antes de serem cuidadosamente penduradas no céu infinito, como infinita também é a felicidade que me inunda. Acorda um lindo dia, desenha a mais bela paisagem com o mais belo sorriso, que é  o teu. Colhe a mais bela flor. Colhe-te. Decreta como tua e finca bandeira na nascente do meu rio para tu te banhares na água de afeto da fonte mais pura e cristalina que há em mim e que eu, antes de ti, nem pensara que existisse. Traz, junto com a mais bela flor, o mais belo olhar, a mais macia mão, os mais pequenos pés, me fazendo transgredir a gramática para tentar dizer o que quero na certeza de que ainda não inventaram em nenhuma língua palavras para te descrever.

“E não se esqueça de trazer força e magia, o sonho e a fantasia, e a alegria de viver”. Venha com força para viver nesse mundo que me assusta porque sei que não vou estar 24 horas ao teu lado, ainda que até para depois de minha morte eu te sempre leve na alma, sem trégua, numa certeza de amor que Deus me dá de presente, de Pai para filho. De pai para filho. Traga magia. A mágica de nos fazer mudar rumos, planos e prioridades sem dor, com prazer, com orgulho. A magia de roubar minha mulher e fazer com que eu ainda te ame mais por isso. A magia de sorrir para mim como quem diz: “Estou aqui. Para onde vamos?”, com a mais absoluta e cega confiança na entrega contida nessa pergunta. Vamos aos mais belos pastos, à mais bucólica paisagem, à cumplicidade sem fim. Nós vamos ao sol, ao rio, à piscina. Vamos ao parque, comer pipoca, tomar sorvete de taberebá. Vamos comer algodão doce e pão com tucumã, ainda que deles eu não goste. Comerei só para ficar mais pertinho de ti. Vamos dar banho no cachorro. Vem e traga, meu sonho, o sonho de uma vida, minha vida. O sonho de ver tuas duas mãos pequenas – que nem mesmo a chuva tem, como diz Zeca Baleiro. O desejo de ver teus olhos graúdos como os da mulher que eu amo e que não por acaso te ama mais do que a mim, como eu amo a ti mais do que a ela e tu a nós como nós a ti mais do que tudo. Jogo de pronomes que confunde, mas que carrega a certeza do amor entre nós três. Traga com a tua chegada a fantasia porque teu anúncio já nos trouxe a alegria de viver. Alegria que me faz agora chorar um choro que nunca chorei, em mais uma das tuas novidades que vais me mostrar. Pauso. Choro mesmo. Soluço. Porque não te conheço, mas já te amo mais que tudo. Mais que tudo, como me disseram os que já choraram como eu e me confirmaram que isso é melhor do que tudo.

“Voa, coração, que ele não deve demorar e tanta coisa a mais quero lhe oferecer”. Ai, meu coração leve das dores do mundo! Voa! Logo, logo tu vais chegar e a ansiedade de tua chegada já adoça minha boca, acalma minha alma, apaga minhas dores, apequena problemas,ressignifica meus sentidos. Eu quero te oferecer o meu amor, a minha vida, o meu tempo, o meu sorriso, a minha comida, o meu carinho. Quero ser a madeira a crepitar no fogo para te aquecer no tiritar do frio e ser a infinita água da cachoeira a te refrescar do calor dessa terra, dessa Terra. Quero te oferecer o que tenho de bom em mim e quero humildemente reconhecer o que de mau me habita para te mostrar o que deves evitar ser. Seja bom de verdade, como teu avô. Ame de verdade e brigue pelos teus, como a tua vó. Viva leve, musical e poeticamente, como o teu primeiro tio. Viva focado sem perder a ternura jamais, como teu segundo tio. Seja determinado, como sua primeira tia. Seja doce, como tua segunda tia. E seja, na mistura do que quero pra ti, tu próprio. Quero ouvir teus porquês sem fim. Respondê-los a todos sem cansar e, nas tuas perguntas, aprenderei mais o mundo.

“O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar. E traga junto a fé num novo amanhecer”. Faça as coisas com paixão, sem ela as coisas não passarão de coisas. Com ela, as coisas saem do seu casulo coisificante e viram vida, borboletas de asas azuis que pousam nos acontecimentos dando a eles significados únicos e eternos, singularizando fatos, trazendo o brilho que, na vida, não deve ser uma meta, mas uma doce conseqüência do viver com dignidade. Tenha fé. Em Deus e nos homens. Se há homens maus, pequenos, famintos de alma, há também homens bons, grandes e que compartilham o banquete da vida. Seja um desses. Ande com fé que a fé, já dizia um ministro da música, não costuma faiá. Aposte na humanidade do homem, na solidariedade, na honestidade, na justiça, no olhar sincero, no sorriso franco, no tratar bem. Busque não ferir, não magoar, não machucar. Mas defenda-se com grandeza, sem tripudiar dos adversários vencidos nas batalhas da vida. E nas prováveis derrotas em outras batalhas, erga-se, olhe para o Sol e siga em frente, tirando lições.

“Convida as luas cheia, minguante e crescente. E de onde se planta a paz, da paz quero a raiz”. Na lua nova te soube. Quero-te nas demais até que as luas se cessem para mim. Quero-te ao meu lado, segurando a minha mão quando meu corpo já não mais quiser respirar; quando meu coração, de tanto te amar, pedir para repousar e a vida me quiser levar pelo tanto que me deu; quero-te ao meu lado, junto dela, quando teus dedos fecharem os meus olhos dos teus… Quero para ti a paz. Mas não quero te dá-la (porque não posso). Quero te ensinar a conhecê-la e reconhecê-la. A tê-la como principio e meta. A tê-la como aliada. A fazê-la. Seja alguém que traz a paz na alma, branquinha como a doce tez daquela que te dará à luz.

Quero a paz. E com ela “uma casinha lá onde mora o sol poente pra finalmente a gente simplesmente ser feliz”. Eu, você, a doce ela. Nossa casa. Nosso canto. Nossa cama. Nossa vida. Nossa história. História que começou com um telefonema ousado e um convite para uma fisioterapia de emergência em minha alma. Mãos mágicas curaram-na. E te me deram. Para viver. Para materializar um amor. Para simplesmente a gente ser feliz, meu filho.

Eu vou ser pai, meus amigos.

17 de outubro de 2005

Um comentário em “Ao que vai chegar

    Vambora: uma história de amor « disse:
    05/01/2011 às 21:16

    […] Quando soube que ia ser pai, escrevi este texto. […]

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