Estreitos

Postado em Atualizado em

Texto escrito  para o Portal Amazônia.

O sujeito se constitui na linguagem. É desse pressuposto que sempre parto para pensar o assunto sobre o que escrevo. É desse pressuposto, leitor querido, que parto neste texto para explicar, pela linguagem, o que é a angústia.

Sempre que usamos a língua, falamos de algum lugar. Embora sejamos uma só pessoa de carne e osso, somos constituídos por vários sujeitos de linguagem, lugares simbólicos de onde somos ouvidos. Às vezes eu falo do lugar de professor, às vezes do de pai. Por vezes significo do lugar de filho, por vezes do de marido. Quando converso com a Lidi, que trabalha aqui em casa, minhas palavras são entendidas por ela como vindas do patrão. Nas inúmeras vezes em que reclamo da Net, sou um cliente falando. Acontece que vez por outra esses lugares se sobrepõem.

A angústia é um sentimento incômodo que vem dessa sobreposição. Por causa da coincidência de lugares, a angústia envolve a sensação de ficar estagnado sem saber o que vai acontecer, se vai acontecer, quando vai acontecer. Tudo isso temperado com a incerteza sobre o que devemos fazer. Há uma ansiedade seca para que algo se resolva e um medo assustador de que a resolução que ocorra tenha impacto ferrado na vida da gente. Estar angustiado é ter a consciência doída de que se quer duas coisas incombináveis. Ambas são verdadeiras e desejadas e, por isso mesmo, impensadas como descartáveis. Ficamos sem alternativas. Etimologicamente, angustiar é “tornar estreito”, reduzir possibilidades, escolhas, caminhos.

Discursivamente, angustiar-se é estar ocupando dois lugares de fala incompatíveis. É querer ser dois sujeitos onde só cabe um. É aspirar admirar a beleza da perfeição da encarnada maçã e, ao mesmo tempo, desejá-la como ingrediente de uma deliciosa torta. É querer estar em junho em Fortaleza, curtindo de mãos dadas a brisa do mar a lamber-lhes os rostos cúmplices e, ubiquamente, agasalhar-se, no mesmo junho, num abraço de carinho quente sob o edredom no friozinho de Campinas. É desejar ter a flor eternamente enfeitando o jardim da existência e querer desesperadamente arrancá-la de suas raízes para entregá-la sem remorso ao amor de sua vida.

Pela metáfora, outra das propriedades da linguagem pela qual pensamos o mundo, tento pedagogicamente mostrar como, angustiados, estamos em posições inconciliáveis. A angústia é o entremeio dessas posições. A angústia é a interseção impossível. É a certeza da perda de uma escolha a ser feita, perda que não se resume à decisão deixada para trás, mas perda que inevitavelmente arranca e arrasta para longe parte de nós mesmos que vai à reboque da decisão. A angústia é a certeza da mudança inevitável. Como diz Clarice Lispector, mudar não é fácil e às vezes escorre sangue.

A vida é feita de decisões, pequenas e grandes. Mudar envolve decidir.  As decisões vez por outra nos paralisam na incapacidade de escolher, estreitando nossa mobilidade subjetiva. É assim. Quem não se angustia é porque não se permite viver a vida na sua plenitude, na beleza dos caminhos e nas descobertas dos descaminhos que ela apresenta. Quem não tem dilemas não compreende que o labirinto é um jeito de ir tanto quanto a linha reta o é. Há até quem prefira a sinuosidade do labirinto a se confortar com a previsibilidade da linha reta. Ter escolhas, ainda que dolorosas, é ter vida. Viver é escolher. Vivemos nas escolhas. E morremos em parte nas escolhas que matamos para que a vida siga no seu contínuo devir. A semente tem de morrer para germinar. Mas a semente fica, queira-se ou não, na planta que rasga o solo. É morrendo que se nasce, não foi isso que disse um cara aí?

Assim, angustiar-se é desejar duas coisas e ser incapaz de decidir por uma. Por tudo que envolve. No passado, no presente, no futuro. Em nós. Na estação da vida não dá para ficar no saguão da angústia e perder o bonde da história que passa lá fora. Fincar-se na angústia é masoquismo. Deixar alguém na angústia é sadismo.  Não é simples, não é fácil, mas o sujeito só sai da angústia quando arranja forças sabe-se lá de onde e puxa o pé que está no lugar declinado, cravando-o com força no lugar escolhido, ao lado do outro que lá já estava.

No bonde da história, que corre veloz, pode-se colocar a cabeça na janela e sentir o vento soprando no rosto. Ou se pode deitar no leito do corredor e descansar da vida. Uma coisa ou outra. Nunca as duas simultaneamente. E lá se vem outra angústia. Porque disso ninguém foge. Ignorar isso não é uma boa escolha. Para a serenidade do sujeito, quanto mais plenamente falar de um só lugar, menos angustiado e mais feliz tende a ser, em tese.

O sujeito se constitui na linguagem. É desse pressuposto que sempre parto para escolher o assunto sobre o que escrevo. Por isso, tenho uma forte desconfiança da razão deste texto, meu caro leitor. Desconfiamos, eu e o meu eu-lírico. Angustiados, mas buscando nos esgueirar nos e dos estreitos das escolhas dessa coisa doida de viver.

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8 comentários em “Estreitos

    Adrienne disse:
    10/07/2010 às 21:10

    Ah! Nao tô nem aí. Que eu seja suspeita pra falar! O texto é perfeito! Parabéns.

    =)

    Ana C. disse:
    11/07/2010 às 00:15

    Piaget já dizia, que a partir do surgimento da linguagem nos desenvolvemos mais…e esse desenvolvimento n pára, nunca…
    a linguagem explica até algo abstratp feito a angústia…parabéns!

    Nayana T. disse:
    19/07/2010 às 00:39

    Esse texto estava exposto em uma prova que eu fiz, eu li e fiquei simplesmente encantada com seu modo de escrever… Logo, procurei tanto pelo autor como pelo texto. Muito bom, muito mesmo. (:

    Christiane Angelotti disse:
    20/08/2010 às 08:39

    Simplesmente perfeito!

    […] do Ser Coletivo @SergioFreire Ir aos comentários Estreitos Publicado em 10/07/2010 por Sérgio […]

    Zayra disse:
    09/06/2012 às 05:27

    Escrito em 2010, mas parece que acabou de ser feito… atemporal, assim como toda boa escrita que fala dos sentimentos.

    Selma Maia disse:
    10/06/2012 às 06:50

    Perfeito, nâo há outra palavra para defini-lo.

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