Ônus e bônus

Postado em

“O ciúme da guarda florestal Terry Barton resultou no maior incêndio da história do Colorado. Ela queimou uma carta do ex-marido na qual ele confessava a sua traição e jogou a carta em chamas na vegetação. O vento se encarregou de espalhar o fogo de sua paixão ofendida. Terry foi presa”.  Assunto de hoje: a dimensão que os fatos tomam e até que ponto podemos controlar seus efeitos.

Um texto que se escreve é como a carta do ex-marido traidor. Ele provoca efeitos em quem lê, que decide se ignora, responde ou queima. Isso acontece com meus textos. Como o marido de Terry, sentindo-me descontente, falo a quem acho de direito. É uma opção, pois vivemos em um estado democrático de direito que garante certas liberdades responsáveis. Como Terry Barton, o incomodado com o que escrevo decide o que fazer. Tem opções. A vida é feita delas. Primeiro os nossos pais optam por nós. Com o tempo, crescemos e passamos a tomar nossas decisões: gosto ou não de verdura? Garantido ou Caprichoso? Chocolate ou pizza? Restaurante ou McDonald’s?

Toda opção traz ônus e bônus. Escolher não comer verdura tem me levado a ser patrulhado sobre os benefícios que perco há quarenta e um anos, querenta e dois no dia seis de setembro. Obrigado. Mesmo assim, só como alface. Opção. Ônus e bônus. Fazer uma escolha política é como escolher comer ou não a alface: ônus e bônus. Uma escolha afetiva? ônus e bônus. Qualquer escolha tem ônus e bônus.

O filósofo Derrida nos apresenta o phármakon. O phármakon não é bom, nem mau. Torna-se remédio ou veneno dependendo da dosagem e do paciente. Assim são nossas opções. Nem boas, nem más em essência, mas circunstancialmente boas ou más, dependendo da plateia e do momento. Vaias de uns e aplausos de outros.

Devemos curtir os ganhos, mas não podemos nos irritar nem queimar a carta com o ônus de nossa decisão. O marido traidor é responsável pela traição. Essa foi a opção dele. Mas ele não pode ser responsabilizado pelo incêndio, que foi consequência da opção dela. Ela podia ter jogado o infiel no poço da indiferença, pois doeria mais. Os normais tendem a medir a consequência de suas opções. Haverá mais ônus ou mais bônus na escolha? Só os masoquistas optam pelo ônus.

A vida é cheia de bifurcações. Feita a escolha, a trilha não escolhida deve ser esquecida senão você não curte o bônus e passa toda a caminhada ruminando sobre o que perdeu. Se conseguirmos ser maduros e consequentes numa hora dessas, aprenderemos algo de útil com as porradas da vida, fazendo delas porradas pedagógicas.

Assim, se optar é preciso, avaliar quanto às perdas e ganhos é optar responsavelmente. Feita a opção, tenhamos a maturidade para enfrentar as consequências da escolha, sem beicinhos. A moeda tem dois lados: se a cortar ao meio ela perde seu valor. Não dá para separar ônus e bônus. E se a escolha for mal feita? Há sempre um tempo para quem se perdeu ter nova chance de se encontrar.

Por fim, quem opta não pode perder a dimensão que sua opção ganha a partir do lugar que ocupa. É irônico uma guarda florestal provocar um incêndio. Por aí vão as analogias. Continuo sinceramente achando que a indiferença teria sido mais jogo.

Anúncios

5 comentários em “Ônus e bônus

    Bianca disse:
    22/07/2010 às 11:10

    Indiferença nunca vai ser mais jogo, por pior que tenha sido a consequência. 😉

      Sérgio Freire respondido:
      22/07/2010 às 11:20

      Vamos comprar um frango e conversar sobre isso tomando Baré. Que tal?

    luadosolzinho disse:
    22/07/2010 às 11:21

    Eu concordo com a Bianca sobre a indiferença. Parece sempre ser o caminho mais fácil, mas acho que não é mais jogo. É adiar sofrimentos. Eu acho.
    Quanto ao phármakon, isso me lembra algo que meu pai sempre diz: Que o que diferencia o remédio do veneno é só a quantidade que se ingere (Torna-se remédio ou veneno dependendo da dosagem e do paciente). E você tem razão quando fala qua não dá pra ficar ruminando a escolha que foi deixada de lado. É um atraso de vida fcar pensando como seria…

    Bianca disse:
    26/07/2010 às 17:21

    Baré não, coca zero… rs

    Adorei o que você disse, Vanessa! 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s