A mulher de trinta anos

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[Escrevi este texto em abril de 2004. Publico hoje em homenagem às mulheres que vão fazer ou estão nos seus 30 anos]

Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis.
A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui,
a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (…)
Entre elas duas há a distância incomensurável
que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza.
A mulher de trinta anos satisfaz tudo,
e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer.

Honoré de Balzac em A mulher de trinta anos

Uma das belezas dos clássicos da literatura é sua atualidade atemporal. Não importa quando se lê um clássico nem por qual conjunto de imagens e valores sua leitura está sendo guiada. O texto dos grandes autores sempre suscita reflexões e questionamentos acerca da vida e das questões postas em jogo nas letras que falam deitadas caprichosamente nas páginas brancas. Clássico que clássico faz da leitura uma inquisição de nós mesmos.

Minha mulher acabou de fazer trinta anos. Claro que ela passou por momentos da famosa crise. Para tentar entender e até contrapor alguns de seus argumentos nos momentos de crise, emprestei o livro do Balzac da minha cunhada Zuleica, ela própria uma amável balzaca de trinta e cinco. Vi pela data escrita no livro que ela comprou o exemplar há cinco anos. Coincidência. Teria ela comprado o livro pela mesma razão que me motivou a lê-lo, ou seja, ouvir o que a genialidade habitante na literatura teria a dizer sobre esse momento crucial na vida de uma mulher? Não sei, mas fato é que peguei o livro e li. E clássico é clássico. Para quem não leu, basta dar uma lida na epígrafe aí de cima para ter uma idéia.

A leitura de Balzac me fez refletir sobre a idade e as fases da vida. Para começo de conversa, vamos deixar de lado as exceções. Sabemos que a idade é algo relativo quando se trata de sua relação com a maturidade. Tem muita gente de 40 anos que mede seus atos e suas respectivas consequências através de valores da molecada de 20. Assim como tem muita gente de 22 anos que tem uma cabeça que destoa das outras de sua geração, fazendo um parzinho muito mais perfeito com o povo da geração que veio antes. Para esse texto, vamos partir da premissa de que há uma certa homogeneidade de pensamento, valores e, portanto, comportamento para cada faixa etária.

A infância tem inegavelmente começado e terminado mais cedo. Os meninos e meninas de nove anos já não brincam mais de bolinha de gude, cangapé, Barbie ou barra-bandeira. Isso é mico supremo, um verdadeiro King Kong. Querem ser adolescentes o mais rapidamente possível, sua sexualidade sendo acelerada pelos apelos dos meios de comunicação, principalmente da televisão. Dizer que a infância está morrendo pode até ser forte demais, mas ela pelo menos está se redimensionando. A adolescência também.

Os adolescentes de hoje são bem diferentes dos da minha época. Aliás, dizer “da minha época” é um grande sinal de PVC (a porcaria da velhice chegando!). Mas voltando aos adolescentes: os carinhas de hoje são mais antenados do que meus contemporâneos. Mais safos. É uma juventude mais visual, uma geração mais imediata, instantânea, videoclip. É menos passiva e com valores de bordas flexíveis, prontas para se reconfigurar à primeira mudança de querer. Eles sabem o que querem e o que não querem. Não jogam mais futebol de botão com o avô, como o Eduardo de Eduardo e Mônica. São jovens que não pertencem a grupos estabelecidos definidos, mas a tribos nômades polimorfas. São meninos que não se encontram mais no campinho da rua seis para uma boa tarde de futebol de várzea. Hoje eles preferem se aglutinar nas lan-houses escuras dos shoppings, seu habitat confortável. Seu jogo não é mais Ludo nem Banco Imobiliário, mas The Sims, Quake e GTA. Não só brincam de médico mais cedo como atendem a vários pacientes. Se as crianças querem ser jovens, os jovens têm pressa de ser adultos.

Na minha divisão para fins didáticos, o jovem adulto surge aos vinte anos. É um jovem que nessa idade está ao mesmo tempo aprendendo o básico do mundo e quase terminando a faculdade. Por isso, esse jovem é obrigado a amadurecer mais cedo. Esse fenômeno se dá, acredito, pela puxada do fim da infância e a consequente antecipação do fim da adolescência. É por isso que nós, da geração Barbapapa (mais de 40), nos assustamos com a maturidade que hoje apresentam aqueles que têm 20 e poucos anos. Atendendo a anseios do Fábio Jr., a maioria já sabe bem mais que os seus vinte e poucos anos. Quando dizemos que sabem mais, lembremo-nos, falamos a partir da avaliação feita por nós, Barbapapas, com os parâmetros da nossa época (PVC, de novo!). É isso. Aqui está o xis da questão: quando olhamos e analisamos as fases que ficaram para trás ou que vêm pela frente sempre o fazemos inevitavelmente com os pés na fase que estamos. Por isso é que os mais jovens do que nós recebem nossas críticas porque nos decepcionam nas expectativas que criamos para eles (a partir do que nós faríamos no lugar deles, pelo menos teoricamente) e os mais velhos são conservadores e antiquados (porque ainda não chegamos lá para sermos nós os conservadores dos jovens adultos a ser).

Aos trinta, então, vivemos os trinta anos. O que parece óbvio merece reflexão. Vivemos os trinta, mas os trinta desse momento e não os trinta pretéritos dos nossos pais ou os trinta futuros de nossos filhos. O raciocínio vale para qualquer idade.  Martirizar-se por causa da idade é querer viver num tempo que não é seu. Se nós não esquentarmos com a necessidade de preencher expectativas que não são nossas, mas de outros e de outros tempos, viveremos bem e plenamente nossos quinze, vinte, vinte e dois, trinta, trinta e cinco, cinqüenta ou sessenta anos.

Se a mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis, no que concordo com Balzac, a criança de dez também os tem, a jovem de 22 idem, a coroa de 60 idem ibidem. Cada um por suas razões. Se a mulher jovem tem muitas ilusões e inexperiência, também tem o arroubo juvenil que ajuda a moldar, descobrir e transgredir limites, arroubo esse deixado meio de lado lá nos trinta porque nessa idade os limites tendem a estar bem definidos. Se a balzaquiana nos instrui e a outra quer tudo aprender, aprendamos com as trintonas e ensinemos as ávidas jovens. E, fazendo uso da dialética da vida, devemos inverter isso de vez em quando e aprender com as jovens os valores de seu mundo e ensinar as trintonas coisas que acabamos de aprender com a juventude, fazendo das relações um delicioso circulo virtuoso. Quanto a despir o vestido, bem…

Resumindo o que falei até aqui, cada um deve viver sua idade na contemporaneidade, sem querer ou forçar os outros a voltar ao passado ou viajar no tempo para o futuro para viver. Cada momento deve ser curtido sem culpa, considerando a nossa vida passada e as lições que ela nos deixou e também nossos planos para o futuro a médio e longo prazo. Mas não esquecer, em hipótese alguma, do presente. Ele é nosso presente.

Falar em presente, minha Fabiana faz aniversário e eu que ganho um presente. Aos trinta, vejo na minha companheira de vida, cama e mesa uma doce mistura nos seus trinta anos: carinhosa, linda, amável, doce, divertida, sexy, amorosa, atenciosa, irresistível. Ela é minha cúmplice nessa coisa doida de viver. Como diz a música de Juca Chaves: ela de dia é uma menina e de noite uma mulher. Aos quarenta, tenho certeza, ela será a quarentona mais perfeita de seu momento e eu um quase cinquentão curtindo meu tempo também. Posso afirmar com toda certeza: esse são seus melhores trinta anos, meu amor. E fico feliz por ser parte deles. A partir de todas essas argumentações, nesse momento falo do lugar de quem é casado com uma mulher de trinta anos. Nessas condições, faço minha as palavras de Balzac.

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3 comentários em “A mulher de trinta anos

    luadosolzinho disse:
    26/07/2010 às 17:31

    Foi bom ter lido o texto antes dos trinta. =) Daqui a alguns anos ele dará as caras pra mim também. Se Deus quiser.

    Tati Amaral Pires disse:
    26/07/2010 às 19:58

    Em fim, esta sou eu!:D Com orgulho!
    \o/\o/\o/\o/\o/\o/
    beeeijos

      Bíola Garcia disse:
      17/12/2010 às 11:25

      É, quase trinta…como diria o Doug Funny da minha época (rs): Sou eu! Adorei. E fica a nota mental : ler Balzac. =)

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