Lá na praia eu deixei o meu barco…

Postado em Atualizado em

Texto escrito para o Portal Amazônia

Domingo passado eu iria começar a dar aulas em um curso de pós-graduação. É, domingo. Acordei com minha aula preparada, como sempre faço, e fui dar uma olhada na Internet, com sempre faço também. Tuitei que estava precisando ir à igreja. E fui ganhar o pão.

Chegando à Instituição, havia outro professor esperando para dar aulas para a mesma turma. Houve algum ruído na comunicação e dois professores foram convidados a iniciar naquele dia. Como o outro professor tinha sido meu aluno, ficamos conversando antes da chegada do coordenador, decidimos que ele iniciaria e eu só começaria depois da sua disciplina. O relógio marcava 8:10 da manhã de um domingo. Bateu um estalo: por que não ir à missa?

Estava perto da igreja de Nossa Senhora Aparecida. Foi nessa igreja que meu sujeito religioso fez-se gente. Ali eu fiz catequese, a primeira-comunhão. Ali eu ia às missas das crianças do domingo de manhã. Ali eu aprendi a amar o próximo e me dei conta de que esse universo é muito perfeito para ser obra do acaso. Naquela igreja, embora morasse em outro bairro, está registrada minha vida religiosa de épocas mais intensas. Pausa. Meu perfume de rosas chegou forte. Sua benção, vó. Falar nisso, foi naquela a igreja em que minha vó viveu sua vida inteira.

Entrei, peguei o boletim e os cânticos na caixinha lateral, como fizera milhares de vezes há tempos idos. Sentei. Logo, uma mão macia e conhecida tocou-me o ombro e os cabelos. Era minha mãe, que estava na missa. Como sempre esteve em todas aquelas de que participei. Assistimos à missa juntos. Memórias vieram num fluxo transbordante.

Tive a nítida impressão de que as pilastras da Igreja conversavam entre si. E eu era o assunto. Pilastras que viram um menino descobrir um mundo. Pilastras que testemunharam a construção de meu templo individual. Nossa Senhora e Jesus, nos quadros que ficam de cada lado do altar, os mesmos de minha infância, acenaram e sorriam para mim como se acena e se sorri para um velho amigo. Eu juro. Naquela missa das crianças, com o harmônio ecoando e o coral de crianças cantando, eu me reencontrei comigo criança, sem as angústias e dores da adulteza. Eu comunguei, no sentido etimológico da palavra: comunicar-se, compartilhar. E no religioso também. Limpeza.

E já que estamos falando de religião e fé, confesso de público que tenho sido hoje bem mais cristão do que católico, ainda que assim me identifique ao ser indagado. E confesso que percebo, aos 41, a importância de tantos anos na igreja. Foi ela que me deu alguns dos parâmetros e valores fundamentais para o mundo, que hoje são pilastras da minha subjetividade. Foi a igreja que me ensinou a querer o bem às pessoas e ao mundo. Com a roda-viva, pode-se até perder assiduidade física, mas jamais se perde o valor incrustado na alma. Pode-se até entrar no forte jogo do dia-a-dia, mas quem tem formação religiosa não se esquece nunca da finitude. A leitura da missa falava sobre isso. De que vale tanta correria e acúmulo se no fim dos trabalhos tudo se deixa?

Em “A Psicanálise e o Religioso”, Freud dizia que a religião é para os desamparados. Ele tem razão. Achar que não precisamos de amparo frente à fragilidade, à vulnerabilidade e à efemeridade humanas é de uma arrogância sem tamanho. Alguém me perguntou dia desses no Formspring: como você lida com o discurso cristão presente em seus textos? Eu nunca tinha parado para pensar em como o discurso cristão está presente em meus textos. E está. Porque está na minha vida. É a isso que nós, analistas do discurso, chamamos de Discurso Fundador: aquele que é fundação de nossa personalidade, pilastra de nosso edifício semântico. Pilastras das boas. Como as da Igreja de Aparecida.

Meu desejo matinal foi atendido: fui à igreja. E passei a semana com o cântico da comunhão na cabeça: “Senhor, tu me olhastes nos olhos. A sorrir, pronunciaste meu nome. Lá na praia eu larguei o meu barco. Junto a ti, buscarei outro mar…”. É. Esse universo é muito perfeito para ser obra do acaso. Meu curso só começará em outubro. Fui ensinar naquele dia. Quem aprendeu fui eu. Fui ganhar o pão num domingo. E ganhei.

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4 comentários em “Lá na praia eu deixei o meu barco…

    Céu disse:
    06/08/2010 às 11:22

    Valeu Velho…mais uma vez o doutor em discurso falou por mim.
    Bj

    Uli disse:
    06/08/2010 às 11:59

    Sublime!

    Cassandra disse:
    06/08/2010 às 19:10

    Professor;
    Este cântico que vc colocou um trecho aí, é um cântico maravilhoso para mim e é maravilhoso também quando nos damos conta da magnitude e longaminidade do Senhor Deus! Vc foi ganhar o pão e acabou sim, ganhando mais do pão da vida, a Palavra de Deus!.
    Que bom que reconhecemos nosso desamparo e real dependência da graça do Senhor Jesus, do Pai e do Espírito Santo! Só assim conseguimos verdadeiramente ser livres!

    Silvana Marques disse:
    04/10/2011 às 19:11

    Foi a coisa mais linda que li nos últimos dias !!!!

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