Fogueira das vaidades

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Muitos de nossos problemas se devem à vaidade humana. Querer ser sempre mais. Tese: todos temos uma cota de vaidade, que vai desde sua quase ausência até sua presença ostensiva, da humildade à arrogância.

O grau zero é o altruísmo. Há pessoas que cumprem seu papel nas relações pessoais e profissionais exemplarmente. Antecipam problemas, propõem soluções e jogam pelo time. Alegram-se com as vitórias alheias porque são vitórias do coletivo. Não têm medo de desfazer o malfeito, ainda que isso lhes valha antipatias pela ousadia de mexer no “status quo”, fruto de anos de vaidades e personalismos. É bom conviver com quem se vê parte de um todo e que faz a sua parte sem alarde e sem se preocupar com as conseqüências para si. Pelo menos num primeiro momento, pois se esvaziar totalmente das consequências é leseira baré.

Assombro-me com o número de pessoas que hoje busca somente seu ganho pessoal, tanto financeiro quanto simbólico. Há uma disputa de poder irritante e desmotivadora para quem tem que gerenciar conflitos. Pela vaidade, as pessoas bloqueiam ações, atrasam e sabotam projetos coletivos. Resistem a se mover por que acham que nada mais têm a aprender. Seu autoconceito é completo e já finalizado.

A vaidade corrói. O trabalho alheio que aparece desperta no vaidoso a vontade de marcar posição, de lembrar ao mundo que ele também existe. São atos de mesquinharia em que são investidas todas as suas forças. O vaidoso faz uso da autoridade possível para tentar elevar-se à altura daquele que disparou seu instinto de vaidade.

Pequenas vaidades sacrificam as relações afetivas, sociais e profissionais. É triste saber – porque se acaba sabendo – que a pessoa que elogia seu desempenho na segunda lhe fere com sua inveja, irmã da vaidade, na terça.

Meu pai tinha um fusca azul nos anos 70. No vidro, um adesivo dizia: “a inveja é a arma dos incompetentes”. Acrescento: a vaidade é inversamente proporcional ao lastro de sustentação do vaidoso. Quanto mais vaidoso, menos razão para ser o infeliz tem. O mais vaidoso intelectual é um leitor de orelhas de livros. O menos vaidoso é tão humilde que é rotulado de excêntrico, fora do normal. O normal hoje é ser vaidoso.

Se você precisa lembrar que é bom no que faz, não é. Não dá para querer ser maior do que se é. É ridículo um juiz que se crê acima da lei, um professor sabe-tudo, um político que acha que com jeitinho pode tudo, um jogador de futebol que passa a perna sobre a bola e já se acha um Robinho… Vaidade e falta de autocrítica são irmãs.

Perguntemo-nos: só faço isso porque ganho algo? Só faço isso para ter meus 15 minutos de fama? Sou vaidoso ou invejoso? Será que não preciso de duas pílulas de semancol para ver se fico menos travoso?

A vaidade é a ferrugem do elo social. É a areia na engrenagem do coletivo. Nesse ano percebi como somos vulneráveis a sermos suas vítimas. Perdi um pouco de fé na humanidade pelo acúmulo de situações limites. Mas os vaidosos nem se aperceberam disso. Estão preocupados polindo seus espelhos. Ou ardendo em suas fogueiras.

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4 comentários em “Fogueira das vaidades

    solzinhodalua disse:
    07/08/2010 às 14:56

    Um grito preso na garganta.

    Indignação misturada com frustração e uma pitada de raiva.

    Seu texto, como de costume, retrata muito bem o que vc sente.

    Parabéns.

    Anderson Briglia disse:
    10/08/2010 às 00:30

    A vaidade deixou Narciso paralisado, admirando sua beleza refletida na água. E até hoje temos pessoas paralisadas, incapazes de crescerem como uma planta que não recebe luz solar. Pessoas assim estão fadadas ao ridículo.

    Elizabeth disse:
    03/06/2011 às 17:41

    Conheço pessoas que não ficam paralizadas,mas sim agem de todas as formas possíveis,atiram para todos os lados,interpretam diversos personagens,usando o status que possuem,e também a influência de pessoas, que são coniventes por fazerem parte do mesmo grupo,socio-político, para derrubarem quem lhe pode oferecer algum tipo de risco a sua imagem dominadora,
    profissional.Fui vítima de uma assim,ela era pela moral e bons costumes,esse era seu perfil ou pelo menos o que eu pensava conhecer,o que mais me chocou,
    foi a sua idade que já passava dos sessenta anos.
    Com isso aprendi como somos muito vulneráveis e como realmente as aparências enganam.

    Carlos Figueiredo disse:
    06/07/2012 às 14:30

    Texto muito bom. Parabéns!

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