Tô voltando!

Postado em Atualizado em

Texto escrito para o Portal D24AM.

Para eles, que sabem quem são.

Pode ir armando o coreto/E preparando aquele feijão preto/Eu tô voltando./Põe meia dúzia de Brahma pra gelar/Muda a roupa de cama/Eu tô voltando./Leva o chinelo pra sala de jantar/Que é lá mesmo que a mala eu vou largar/Quero te abraçar, pode se perfumar/Porque eu tô voltando/Dá uma geral, faz um bom defumador/Enche a casa de flor/Que eu tô voltando/Pega uma praia, aproveita, tá calor/Vai pegando uma cor/Que eu tô voltando./Faz um cabelo bonito pra eu notar/Que eu só quero mesmo é despentear/Quero te agarrar/Pode se preparar porque eu tô voltando./Põe pra tocar na vitrola aquele som/Estréia uma camisola/Eu tô voltando.Dá folga pra empregada/Manda a criançada pra casa da avó/Que eu tô voltando/Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar/Telefone não deixa nem tocar/Quero lá, lá, lá, ia, porque eu to voltando!

As relações humanas são bonitas porque são inexplicáveis. Pessoas que nem se conheciam passam a se amar para sempre e pessoas que se amariam para sempre nem mais se reconhecem de repente. Num passe de mágica, as vicissitudes da vida alteram os quereres e os gostares. O que era único metamorfoseia-se em comum; o que se tinha como certo se perde na poeira da incerteza.

Uma das piores e melhores coisas da vida está numa briga, seguida de separação e de reencontro. Nesse lapso de tempo, condensam-se dores impotentes, raivas de amor, saudades de ódio, perguntas sem respostas, vazios claustrofóbicos e alívios libertadores.

Mas o belo do amor verdadeiro é sua capacidade de Fênix. De uma pequena brasa daquilo que guarda a história e os detalhes vivos da vida a dois voltam à vida amores jurados de morte, desenganados por quase todos, com eutanásia marcada. Claro que nossa felicidade não depende de alguém específico. Podemos ser felizes com outras pessoas. Mas enquanto houver a certeza de ser feliz com aquela específica é porque a brasa ainda crepita uma trisca de fogo. Perseverar na áspera espera é uma arte para os amantes. E quando o que se espera chega de surpresa quando a surpresa já quase não era uma possibilidade, a dor da separação vira a ante-sala do renascimento.

É bom o retorno. Porque um retorno é encontrar-se de novo num lugar de onde, de fato, jamais se saiu. Daí o conforto. É o retorno à rotina, ao feijão preto, que parecia ter perdido o gosto pela recorrência diária sem atenção ao tempero que faz da vida agridoce nosso maior alimento. É o retorno à bebida que nos mata a sede e que, por vezes, nos embriaga docentemente. A ausência do outro veio porque, como cegos saramaguianos, deixamos de ver por culpa da brancura alva da presença. Mas no retorno, a roupa de cama, que nunca notamos, passa a ser a relva da doce selvageria afetiva.

No retorno, há a ânsia da presença do outro. Porque no lapso da separação, é a presença irritante da ausência alheia que se faz mais efusiva nas madrugadas. É seu silêncio o que mais nos atordoa com seus gritos. E atordoados, permancemos atentos. É não saber dele. É não saber dela. O que faz? Como? Com quem? Por quê? Por onde? Por isso a ânsia, por isso a vontade de largar a mala na sala. Não há tempo a perder porque um tempo precioso já foi perdido. Quer-se o conhecido olhar acolhedor, quer-se o beijo de cuja língua sabe-se o trajeto. Quer-se o perfume que lembram às alma daquele dia em que se conheceram. Ah, saudade! A saudade é a inconfortável esperança de um reencontro.

É na aposta do retorno que se defuma o peso da rotina, das coisinhas pequenas que transformamos em grandes, das sujeirinhas que tiram a assepsia da relação. Porque as coisas são do tamanho que as fazemos. Se as fizermos pequenas, serão pequenas. Se as fizermos grandes, serão grandes. A escolha é nossa. E a cada um de nós cabe cheirar a flor, pegar um mar, ficar bonito, arrumar-se para ser desarrumado por quem está voltando.

No retorno, nos arrumamos para a mais doce das desarrumações: a do corpo, no sexo saudoso. Sexo de conciliação é bom porque é como se o amor, um diretor de cena desacreditado pela crítica, dissesse a si próprio: “eu vou provar nessa porra que eu sou bom!”. E prova. Doce deleite. Oscar!

No retorno, retornam as nossas músicas nas vitrolas, as nossas histórias internas, os nossos dias especiais e a certeza de que todos os dias foram especiais. A gente é que não notou. Porque nos esquecemos de admirar. E é a admiração pelo outro o que cimenta uma relação. Enquanto há admiração, há amor. Quando ela se vai, a casa cai, rolando encosta abaixo e levando até a nossa identidade. Para amar urge admirar a cada despertar. É a admiração que segura as relações. Não é o amor. O amor é admiração perene.

Um tempo a dois. Foi assim que começou. É disso que se precisa num retorno. Puxar o plug do mundo por uns instantes, mandar a criançada para a casa da avó, dar folga para a empregada, desligar os telefones. É preciso lá lá lá ia. Porque uma volta é uma volta. Precisamos de um tempo de nós dois às vezes? Claro! Mas o tempo distante para quem ama só serve para dizer o quanto aquele espaço vazio tem dono. Por isso um retorno completa. Porque ele presentifica aquilo que, abstrato, nunca se ausentou.

O poetinha disse: embora com tantos desencontros, a vida é a arte do encontro. E do reencontro, diria eu.

4 comentários em “Tô voltando!

    Bianca disse:
    15/08/2010 às 11:36

    Nada a acrescentar. Texto perfeito! 😉

    lucianne pimentel disse:
    15/08/2010 às 13:15

    o bom da despedida, é o gosto do reencontro que dura uma eternidade, tempo suficiente pra saaudade machucar, mas o reencontro não vai demorar =)

    Carla disse:
    15/08/2010 às 14:47

    Um texto como esse deveria ser proibido de ser publicado… porque inspira, ao ponto de querer fazer reacender uma chama de esperança que você está, bravamente, lutando com todas as forças para apagar!
    Você foi insuportavelmente perfeito nessas linhas! (rsrs)
    Parabéns!

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