A metamorfose

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[Texto escrito em fevereiro de 2001, na época em que escrevia crônicas]

No início do ano passado, surgiram umas pintinhas em uma parte íntima de meu corpo. Pois é. Agora você deve imaginar o porquê de tanta relutância para eu escrever sobre o…o…como chamá-lo?…o…vamos chamá-lo de Klebson, o meu menino.

Em dezembro, onze meses mais tarde, depois de muita insistência da patroa, decidi ir ao urologista. “Ao”, não: “à” urologista. Sim, porque filho de seu Jefferson não deixa outro barbado pôr a mão em algo tão pessoal assim. Pode ser besteira, mas raciocine comigo: um sujeito que dentre milhões de profissões escolhe essa… aí tem… Não. Prefiro uma tarada, sem preconceitos. Pegamos o livrinho do plano de saúde e verificamos o nome de urologistas mulheres em Campinas. Escolhi uma chamada Eliana de Paula. Nome de urologista. Eliana e Klebson. Um belo par, um bom começo. Casal de novela mexicana. E o que estava por vir não seria muito diferente disso.

Minha mulher foi comigo, dando o apoio moral de sempre. Chegamos no consultório da Dra. Eliana, depois de enfrentar uma chuva torrencial. Na porta, uma plaquinha: Eliana de Paula, urologista & Gilberto de Paula, ginecologista. De cara entendi tudo: conheceram-se na faculdade, namoraram, noivaram e, na hora de escolher as especialidades, ele escolheu gineco e ela, por vingança, uro. “Tu lá e eu cá, nego véio”, deve ter pensado.

Entramos e fui prontamente atendido por uma senhora de uns 180 anos. A velhinha, coitadinha, era secretária dos médicos. Escrevia devagarzinho e com aquela letra quadrada de quem aprendeu nos velhos cadernos de caligrafia da década de 20. Ao fundo, contrastando com a cena matusalênica, rolava em um hi-fi multicolorido na estante a jovial Jovem Pan, tocando disco music bate-estaca, que em nada parecia incomodar a idosa senhora. Quando falei com ela e disse que tinha consulta com a Dra. Eliana, ela disse: “hein?”. Por isso a disco não a perturbava, concluí. Era meio surda. Gritamos um com o outro por uns cinco minutos, tempo suficiente para ela anotar meus dados pessoais e pedir para eu aguardar que eu, logo logo, “iria estar sendo atendido” pela médica. Apesar da idade, Dona Juventina não deixava de usar o dialeto comercial, o tal infinitivo-gerúndio.

Fiquei ali, torcendo para não chegar mais ninguém. Ora, quem chegasse saberia o porquê de eu estar naquele consultório. Fiquei escondido atrás de uma revista Nova, que devia estar ali para as pacientes do marido da Dra. Eliana. Dona Juva me chamou, olhei para minha mulher, ela olhou para mim com uma cara de quem diz “cuidado!” Nos despedimos.

“Com licença?”

“Pode entrar, Sérgio”.

“Tudo bom, doutora?”

“Tudo bem. E você?”

“Bem”.

“…”

“…”

“…”

“…”

Um minuto de silêncio. Parecia jogo de futebol quando alguém morre. Como quebrar o gelo com uma urologista? Procurei um manual na Internet, revirei o Google, Altavista, Yahoo…Mas não achei nada. Um silêncio constrangedor.

“Pois é”.

“Então?”

“Então é…”

Aí ela disparou:

“O que lhe traz aqui?”

“Meu pinto, ora”, pensei em responder, mas só pensei.

“Sabe o que é, doutora Eliana…é que apareceram uns sinalzinhos no…no…”

“… pênis”, completou ela, à queima-roupa, referindo-se ao nome científico do Klebson.

“Isso”.

“Há quanto tempo? Um mês, dois?”

“Mais”.

“Três?”

“Mais”

“Seis meses?!”, perguntou já meio indignada com minha falta de companheirismo e compaixão com o Klebson.

“Mais…”

“Quanto tempo, seu Sérgio?”

“Um ano”, disse eu com um volume inversamente proporcional àquele utilizado com Dona Juva, minutos antes.

“Um ano!!!!! E você esperou todo esse tempo para vir aqui?!”

“Desculpa, é porque a minha mulher…”, tentei jogar a culpa na esposa, mas ela me cortou.

“Ai, ai, ai. O que você faz?”

“Como assim?”, perguntei desconfiado com a confiança dela.

“Profissão! Qual sua profissão, Sérgio?”

“Ah, bom…sou professor. Faço doutorado aqui na Unicamp. Sabe como é, muita leitura, resenhas, artigos, trabalhos, seminários, teses…pouco tempo, pouco tempo”, busquei cumplicidade, sem conseguir muito sucesso.

“Vamos ao ambulatório dar uma olhada”, falou a médica, sem saber que havia disparado em mim um constrangimento pelo qual, de alguma forma, eu já sabia que iria passar.

“É por aqui. Tire a roupa e ponha a bata azul que está pendurada atrás da porta. Vista com o buraco para frente”.

Tirei a calça, a cueca (lembrei a história da cueca limpa para casos de acidente que mães e esposas adoram contar) e vesti uma batinha azul, como manda o figurino de um paciente fashion. A bata realmente tinha um buraco bem na direção do Klebson. Era uma bata tipo lençol de virgem em noite de núpcias nas eras passadas. O noivo não vê nada, só comparece pelo orifício no lençol e tal. Fui até a maca, sobre a qual a doutora me mandou deitar, sob a luz de um holofote imenso. Klebson, coitado, apesar do calor da lâmpada, se comportava como se estivesse sob o duríssimo inverno da Sibéria. Todo encolhidinho, tímido, acanhado e medroso, se tremendo todo, olhando para mim, pedindo proteção. Um soldado raso, se comparado ao grande general de grandes batalhas que sempre fora. Covarde, não consegui olhar para ele, pois coloquei o braço por sobre os olhos de vergonha. Foi quando a médica conseguiu pinçá-lo e, para quebrar o gelo, começou a falar de pós-graduação, mudança, Manaus, Belém (ela era de lá e torcia pelo Payssandu) e sei lá mais o que. E eu só “humm-humm”, “é mesmo”, “pois é”. Até que ela entrou no mérito da questão:

“Realmente tem uns sinais aqui. Um, dois, três, quatro no corpo. Tem um…”

“…no crânio”, me antecipei para mostrar que sabia do que estávamos falando.

“…na glande”, disse ela, traduzindo. “E outro no…”, ela deu uma pausa esperando eu dizer “saco”, só que eu não disse.

“…escroto”, completou ela então.

“Também acho, doutora. Muito. Isso é lugar de nascer sinal! Que coisa mais…”, foi aqui que percebi que “escroto” não era “escroto”. Perguntei pelo Jader Barbalho e pela Dona Tomásia, uma amiga nossa lá de Belém, mulher do seu Manezinho, que fazia uma maniçoba da boa. Quanto ao Jader, ela disse “Vixe!” e quanto a D. Tomasia ela não conhecia. Continuou a falar do Klebson.

“Vamos ter que cauterizar”, disse ela babando com a novidade. Devia adorar cauterizar… No dos outros é refresco, pensei, esquecendo que no dela não podia ser.

“É, né…”, disse eu, disfarçando um “CARACA!” que passava pela minha cabeça. A do cérebro. A do pescoço. A da boca. A das orelhas, pronto!

“E temos que mandar para biopsia também”. “Biopsia”… Que palavra mais assustadora. “Biopsia” e “furúnculo” são as palavras horríveis. Só perdem para “carnegão”. Bio é vida, lembrei-me da aula de ciências da professora Verônica Abugouche, na quinta série. Haveria sinais de vida nos sinais do Klebson?

“Por quê doutora?”

“Não é por nada, não. É só para ver se não é DST”.

“DST! Peraí, doutora! Assim a senhora me ofende. Sou monogâmico. Trouxe até minha mulher aí fora. Pode perguntar para meus amigos, meus irmãos. Só não posso trazer testemunha porque jogaria toda minha defesa por água abaixo. Quem a senhora pensa que eu sou?”, pensei.

“E pode ser DST, doutora?”, perguntei agora em voz alta.

“Pode. Pênis tem cabeça, mas não tem juízo. Mas acho que é um tipo de dermatite. Mas não custa nada verificar, né?”

“Não. Só custa a minha dignidade de marido fiel”, pensei de novo.

“Pode se trocar”. Obedecemos e fomos. Eu e o Klebson.

No consultório. “Volte semana que vem para cauterizar. Marque lá com a Dona Juventina o dia.

Fui e voltei. Dessa vez de bermuda (e cueca sempre limpa, claro. Que Deus me livre, mas sempre pode acontecer um acidente…). Mantive meu diálogo de louco com dona Juva e entrei.

“E aí, vamos lá?”

“Vamos!”, disse eu, com a confiança de quem conhece o lugar e o procedimento. Já fui direto na batinha do buraco. Mal sabia o que me esperava.

“Deite como da outra vez. Vou dar uma anestesia. Quer anestesia, não quer?”

“Claro! E há quem não queira?!”

“Tem doido pra tudo…Vai dar uma picadinha”

“Metapicada”, pensei malicioso.

“UGHHH”

“Doeu?”

“Não… que é isso… magina”, falei como quem toma injeção no pênis de segunda à sexta, desde os dois anos de idade.

O Klebson desmaiou. Anestesia geral no rapaz. Largado, parecia um bêbado. Só ouvia os TSSI, TSSI, TSSI e o sentia o cheiro de carne queimada. Parecia uma vaqueira marcando gado zebu.

“E o Payssandu, hein, doutora? Perdeu pro São Raimundo na Copa Norte”, puxei papo furado, sem saber que alguns meses depois o Payssandu estaria prestes a roubar o tetra do Tufão na Copa Norte.

“Acontece…”, disse ela, sem cair na provocação amazonense. “Esse eu vou cortar com bisturi e mandar para a biopsia”. ZIP! Klebson nem gemia. Necas de pitibiriba, nem um pio do pobre pinto.

“Para o do crâ…da glande, eu vou ter que dar outra anestesia”, se corrigiu em tempo.

Meu amigo. Se alguém não sabe qual é a pior do mundo, eu posso dizer. Uma injeção na glande do pênis. Dada por uma paraense! Vocês acreditam que passei por isso? Dói, dói muito. Dói mais do que separação, mais do que bolada no saco (ou nos seios, para se ter um referencial feminino também), mais até que saudade da família. Uma anestesia intracraniana peniana. Só o nome não arrepia? Só uma coisa dessas para conter o tempestuoso Klebson…

“Tá sentindo algo?”, disse ela dando petelecadas na cabeça do pobre empalidecido, como se fossem cascudos em um moleque travesso.

“Tô tintindo nada”, falei, imitando o pintinho da piada da maconha.

ZIP!

“Pronto! Deixa só eu fazer um curativo. Pode se vestir”.

Quando olhei, Klebson era o próprio Tutakamon. Com seu manto de esparadrapo. Uma múmia. Coitadinho. Vesti a cueca (limpa, nunca se sabe o que o destino nos prepara!) e a bermuda, suas mortalhas. Ficou um volumão, bem maior do que o que costuma ser, modéstia à parte.

“Tome. Leve esse frasco aqui para a biopsia. E nada de sexo por duas semanas”. Era a mesma coisa de um ortopedista falar para alguém que quebrou os dois braços e as duas pernas:  “Nada de natação, seu moço!”…

“Minha mulher vai viajar para Brasília amanhã, doutora. Fique tranquila. Foi tudo milimetricamente planejado”, respondi, reafirmando minha fidelidade com uma piscadela safa.

“Tá bom. Quando tiver o resultado, volta aqui”.

A patroa se assustou com o volume. Perguntou o que acontecera lá dentro, já meio enciumada. Disse que nada de anormal. Só fui esquartejado, furado e encapado. Só. Quando mostrei o múmia para ela, ainda no elevador, seu ciúme virou deboche. De quem eu esperava apoio, olha só…

Voltei com o resultado da biopsia. Depois dos gritos de praxe na sala de espera, entrei.

“Olá, como estamos?”, perguntou a médica já incluindo Klebson na conversa.

“Estamos bem. Duas novidades: os sinais retirados deixaram umas marquinhas brancas e o Klebson mudou de nome: agora se chama Pongo, o dálmata. Metamorfoseou-se. Fora isso, um xixizinho aqui e outro ali. Vamos levando”.

“Normal. Depois as manchinhas somem e volta tudo ao normal. Deixa ver o resultado da biopsia…Ummmm”, gemelhicou ela ao ler o exame. “Normal. Não é DST, não, pode ficar tranquilo”.

Tranquilo eu estava desde quando surgiram as pintas no pinto. Mas achei por bem não polemizar com alguém que talvez venha a estar outra vez diante do Pongo com um bisturi na mão.

“Que bom”, disse eu. “Posso ir?”

“Pode. Agora está liberado”.

“Então tchau, doutora. Gostaria realmente de dizer que foi um prazer, mas…”

“Tudo bem”, disse ela compreensiva. “Cuidem-se”.

Check-up feito, orgulho restabelecido, partimos. Não sem antes dar um adeusinho, eu, e um latido, o Pongo, de despedida para a simpática Dona Juva, que não nos ouviu, claro…

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4 comentários em “A metamorfose

    Erika disse:
    16/08/2010 às 12:36

    Ter ido e efrentado a urologista já foi muito responsável e corajoso de sua parte, divulgar no seu blog com este ótimo texto, nem se fala, tomara que ajude muitos homens temerosos de cuidar dos seus “klebsons” a se fortalecere e encarar o médico.

    José Ribamar Bessa Freire disse:
    17/08/2010 às 10:22

    maravilha de texto, nem sei se o Klebson merecia.

    Augusto disse:
    26/08/2010 às 16:55

    rsrsrsrsrs . Realmente a pior dor do mundo , do universo é uma agulhada bem no seu cabeção da pica !!!!!!!!!!!BEm piior que bolada no saco !!! Eu tive que tomar para fazer um exame no pau semana passada e nao me perguntem qual exame . No exame eu ainda tive que ficar de pica dura submetido a bomba de vacuo . Constragedor para um moleque de 15 anos ve o pau ficando duro dentro de uma bomba a vacuo com 2 medicos homens olhano e ainda depois tomei INJEÇÃO NA CABEÇA DA MINHA PICA e ela estava completamente dura ! AGULHADA NA MINHA CABEÇA DO PAU DURA ! MUUIIIIITOOOO PIOR do que tomar injeção de pau mole .

    Ivan Renato disse:
    02/09/2010 às 02:22

    HAHAHAHAHA, parabéns cara, o apelido do meu é Flamengo ‘cresce nas horas decisivas!’ [o sindicato dos klebersons agradece, pelo exelente texto]
    De fato, uma agulhada lá… indubitávelmente deve ser dose, e aplicada por uma paraense é coisa com alto teor de masoquismo.
    sem mais…

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