Lições, laços e urnas

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“(…) Pois de tudo fica um pouco”.
Carlos Drummond de Andrade

Ando meio reflexivo ultimamente. Mais do que de costume. Milhões de coisas têm acontecido de repente em minha vida em um período tão curto de tempo. É  como um curso intensivo, daqueles que a gente só pára para o almoço, de meio-dia às duas. Essas coisas têm mexido comigo, existencialmente falando. Percebo-me mais reflexivo, mais contido e menos ansioso do que antes. Mais maduro, se é que alguém pode se avaliar sem ser suspeito. Mais velho, diriam os mais cruéis. Em crise, diria meu irmão Paulo.

Cada período da vida da gente, que avança feito o rio em busca do mar, pode ser e geralmente é marcado por algo especial, um aprendizado que fica depois do balanço das dores e amores vividos. Lições. Concordo com Caetano quando diz que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Ninguém, além de nós mesmos, sabe o que se passa em nosso íntimo pensamento, no momento em que nossa mente avalia o teto branco naquela hora final do dia, antes do sono tomar conta do corpo sem que nós percebamos. Ninguém penetra em nossa mente naquela hora em que apoiamos o queixo na mão cerrada em momentos solitários de meditação no banheiro.

Muito cedo aprendi com meus pais a dar valor ao estudo. E esse é uma das maiores heranças que ele podiam me deixar. Para estudar não há limites. Faz-se das tripas coração e do coração o motor. Uma grande lição. Foi minha lição número dois, na verdade. A primeira tinha sido a de que é preciso ter uma família feliz para se poder viver bem, antes de qualquer coisa. E eu a tenho tido desde sempre. Quanto a isso, o próprio tempo tem se encarregado de deixar cada vez mais claro a importância dos laços familiares. Lá em casa não temos laços, mas nós de marinheiro.

Aos meus vinte e poucos anos, contrariando Fábio Jr, desfiz-me dos meus planos em nome de um amor, em nome de um laço matrimonial para sempre. Um amor verdadeiro e real, mas que acabou, pois o para sempre sempre acaba. Aprendi, amargurado, que amores, mesmo verdadeiros e reais, podem acabar, sim. Acabam geralmente por causa de outros amores, mais verdadeiros e mais reais para um ou para outro parceiro. Foi o que aconteceu. Apesar de ter sido minha a escolha da ruptura, sofri e chorei. Mas aprendi. Na minha segunda entrega afetiva, fui mais incerto da certeza, mas fui para valer. E a valência do grande amor que surgiu fez-me esquecer completamente a lição que aprendera antes: grandes amores acabam. E por ter esquecido, sofri, chorei, dessa vez do outro lado do rio. Aprendi outra lição: a vida vem e não pede licença. A frase, verbalizada em uma conversa com minha orientadora do doutorado em uma das minhas sessões de orientação, era a que eu buscava há tempos para resumir a fase. A frase da fase. Preparemo-nos, pois, para as surpresas.

Junto com esse aprendizado, outra lição me veio: não há opção, estrada escolhida, que seja só paz e tranquilidade. Sempre há espinhos nas rosas, sempre há pedras no caminho, para lembrar Drummond, que faz cem anos. Mas, como corolário dessa lição, aprendi que o cheiro da rosa vale algumas espetadas. Dei-me conta de que para chegar aonde leva o caminho, topadas são inevitáveis. E aprendi, então, a desenvolver mecanismos para conviver menos traumaticamente com as adversidades. Não há nada que não seja resolvido com diálogo e boa vontade. Só o inexorável fim da vida não tem jeito. Quer dizer, os espiritualistas conseguem até dar um jeitinho ainda.

Hoje, aos trinta e quatro anos, acho que todos os nossos inimigos deveriam ser cruelmente mortos, ter seus corações varados a lança e suas tripas queimadas e jogadas aos porcos. Mentira. Não acho isso, não. Mas é que toda crônica tem de ter um quê de polêmica, daí eu ter que escrever algo assim… Na verdade, é o contrário. Percebo que não há bem maior do que querer bem as pessoas. Todas elas, sem exceção, mesmos as mais carnes-de-tetel. Umas são mais fáceis de amar, outras mais difíceis. E aí que está o grande baratinho: descobrir a cada dia como ganhar um sorriso daquele poste que não ri nem com a singela piada do tomatinho atropelado, desvendar uma forma de como ouvir um comentário confidente e arreganhado daquela desconfiada que mal abre a boca, quanto mais o coração. Desafios diários.

Já há algum tempo que faço desse o meu passatempo: conquistar pessoas. Dou bom-dia a todos, sorrio na passagem, converso com meninos nos sinais, caixas de supermercado, frentista de posto. Pergunto pelo seu dia, se já votou, se está chateado com o clima e tal. Irrito-me com a arrogância de certas pessoas no tratamento com outras que estão trabalhando para lhe servir, o que, pra mim, demonstra uma carência fundamental. Arrogância é a fumaça que sai do motor psíquico, queimando óleo por falta de amor e humildade. Aprendi nessa curta vida que querer bem verdadeiramente é muito bom e alimenta o espírito. E que arrogância só serve para amargurar o próprio arrogante, num processo autodestrutivo. Bom mesmo é fazer amigos.

E aí chego aonde queria. Os amigos. Os amigos, de verdadão, são fantásticos. A verdadeira amizade, ao contrário do que se possa pensar, não está relacionada ao tempo. É claro que ela resiste a ele, como as arcas de tesouro dos velhos galeões do Séc. XVI, descobertas hoje intactas. No entanto, ele – o tempo –  não é condição para que pessoas sejam e se considerem amigas. Há pessoas que não vemos há anos, mas que certamente se jogariam na frente da gente para cortar a trajetória da bala direcionada ao nosso coração. Por outro lado, há outras que mal conhecemos e que, por um olhar ou um sorriso cruzado, sinalizam que ali existe uma cumplicidade gratuita, desinteressada, um querer bem sem querer pra si, uma felicidade mútua ao se ver, ainda que seja um ver esporádico. São as amizades pós-modernas, rápidas, pontuais, mas nem por isso menos verdadeiras. É o encontro de pessoas boas. É um estar junto que faz bem. Tenho conhecido pessoas recém-amigas assim.

Tenho vários grandes amigos. E hoje, modéstia à parte, só conheço uma pessoa que não gosta declaradamente de mim. Tudo bem. Fazer o quê? Gosto dele. Ele é a exceção que confirma minha regra, tendo lá seu valor social e estrutural. Ele permite que meu senso de atenção contra as maldades não perca o emprego por falta de uso. Meu senso de atenção é um burocrata, como essa pessoa que não gosta de mim.

Ser professor, nesse aspecto de conhecer pessoas, é muito bom. Não tenho bens, mas tenho bem-quereres. De alunos, colegas e professores. Tenho amigos e ter laços de amizade é fundamental para ser um três-quatrão feliz. Trinta e quatro, gente… Por que será que estou fazendo tanta referência à idade? Será que o Paulo tem razão quanto à crise?…

O país começa a mudar com o novo presidente. Já sinto outros ares entrando pela janela do meu apartamento. Mas não estou feliz como deveria, como venho esperando ser desde 1989. No dia que nasce um país novo, morre a velha Dona Maria.

Dona Maria, comadre de meus pais, foi vizinha de trás da casa da rua três, a casa de minha infância. Dona Maria era vizinha naquela época em que conhecíamos os vizinhos. Mais: gostávamos deles, integrando-nos às suas família. Tornávamos seus compadres. Por várias vezes, Dona Maria tomou conta do Mauro, meu irmão mais novo, para que meus pais fossem buscar a caça para alimentar as crias. A Dona Maria nos fornecia a pimenta murupi do almoço, cotidianamente solicitada por sobre o muro, missão tacitamente sempre delegada a mim na hora do almoço. “Dona Maria!!! Tem pimenta?”, ecoava o grito do menino, seguro por saber que a resposta era sempre um sim feliz por fazer feliz os vizinhos queridos.

Urnas. O país comemora a nova vida, vinda das urnas. Os filhos de Dona Maria choram sua partida, ao lado do seu corpo, ali na urna. Eu não via alguns deles há mais de vinte anos: Zé, Vavá, Totoca… Alguns amigos de infância também, fiéis, apareceram na hora do ombro silencioso: Manel, Chico, Sorte, Caroço, as filhas da Bolota. No velório, Dona Maria deitada. Coração. O mesmo coração grande que motorizou sua vida a levou, quando resolveu parar. Cheguei perto, e enquanto olhava seu rosto inchado, uma lágrima rolou pelo meu. Minha memória não está lá essas coisas, mas meu corpo jamais deixaria cair uma lágrima se não houvesse escrito por dentro em letras afetivas uma gratidão aprendida por meus pais. Pousei minha mão sobre as suas, agradeci, de novo, pelas pimentas murupi. É o que o que me lembro. Mas sei, que nesse agradecimento, agradeci por ter sido uma grande amiga de meus pais em coisas que nem lembro e nem sei, que escapam às minhas memórias, mas não ao meu inconsciente. Com certeza, sua relação com meus pais chegou em mim na importância da palavra amizade, a mim passada por Seu Jefferson e Dona Helena que, como bons amigos, sentiram muito a ida de Dona Maria.

Por tudo, atentei triste, hoje, para outra lição: os bons também se vão. Mas certamente ficam, fortes como o sabor da pimenta murupi, dentro da vida dos amigos, por conta dos laços que fizeram com fitilhos de vida. Vá em paz, Dona Maria. E separe aí em cima umas murupas boas, como as da senhora. Como a senhora. Da próxima vez que colocar a cabeça sobre o muro, eu espero lhe dar boas notícias daqui. Eu e 170 milhões de brasileiros. Porque há lições, porque há urnas, porque há laços.

Manaus, 01 de novembro de 2002

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