O Binômio de Newton

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“Ao perceber repentinamente o episódio
amoroso como um nó de razões inexplicáveis
e de soluções bloqueadas, o sujeito exclama
‘quero compreender o que me acontece!’”

Roland Barthes
Fragmentos de um discurso amoroso

Nossa vida é cíclica. Volta e meia, meia volta e lá estão de volta assuntos que um dia ocuparam o primeiríssimo lugar nas paradas de sucesso de nosso dia-a-dia. Um desses assuntos que sempre atravessaram minha mente curiosa envolve saber a finalidade de um monte de troço estranho e cheio de xis que a gente estuda em matemática.

Conversando com a Kelly, minha amiga professora de matemática do sorriso bonito – é ela tem o sorriso bonito, não a matemática –, surgiu o insight de lhe perguntar algo que sempre me for a prometido pelos meus professores da ciência dos números: para que serve o binômio de Newton?

Sempre fiz perguntas assim para meus professores de matemática, todos eles professores muito bons, a bem da verdade. Todos, no entanto, costumavam dar a mesma resposta à minha curiosidade: um dia você vai saber. Às vezes penso que os professores de matemática fazem parte de uma confraria mafiosa secreta, na qual impera a lei do silêncio. Se abrir o bico, arivederci, bambino. Você aparecerá morto, comendo capim pela raiz quadrada.

Ao ouvir minha pergunta, a Kelly deu mais um belo sorriso dos seus, pensou um pouco como responderia uma pergunta chata dessas e respondeu: “Não sei”. Depois pensou melhor ao ver minha cara dequem continuaria a cobrar a matemática por suas falsas promessas, indo até o Procon se necessário, e decidiu responder, dessa vez dos vera e com seu sotaque paulista que lembra o da minha Bia. Disse ela: “Tudo bem, Sérgio. Olha só: nem sempre devemos buscar nos estudos matemáticos uma aplicabilidade visível. Às vezes se estuda pelo puro prazer de estender os limites teóricos”. E abriu outro sorriso, como quem diz: “Entendeu? Então não enche o saco”.  Arrã. Então, tá.

Parei de encher o saco e recolhi-me à minha diminuteza, como talvez dissesse Guimarães Rosa. Fiquei pensando que minha pergunta, de um não-iniciado na arte dos logaritmos, deve ter sido tão chata quanto quando eu pergunto à minha fisioterapeuta particular o que fazer para curar um nervo encavalado ou sou por ela instado sobre qual a língua mais difícil de aprender. Pergunta de leigo é uma ressacade um porre de vinho!

Noves fora o meu estado de narcose diante de tanta abstração, confesso que a resposta da Kelly foi uma bela resposta. Tudo bem que eu esperava algo como “o binômio de Newton ajuda você entender porque o pão cai sempre com a manteiga para baixo” ou “a fomulinha do Isaac serve para auxiliar você no cálculo do tempo provável que aquela gorda vai ficar no caixa eletrônico consultando interminavelmente o extrato e fazendo mil operações como se não houvesse mais de dez pessoas atrás dela, entre elas você, esperando para sacar os dez reais do almoço”. Mas não. Minha amiga matemática filosofou legal. E me deu uma idéia para um novo escrito, já não sem tempo.

Hoje vivemos uma necessidade tremenda de sempre explicar tudo o que fazemos nesse nosso mundão véio sem porteira. A razão de estar alegre ou triste, de vestir uma camisa rosa, de comer o bauru sem tomate, de não gostar de verduras. A razão de pôr ou tirar um cordão feito por hippies, de gostar da Roberta Miranda ou do Sampa Crew, de insistir em torcer pelo Botafogo, de gostar de chupar Leite Moça na lata, de gostar dos filmes do Woody Allen. A razão de ficar noivo, casar ou descasar. A razão, a razão, a razão…

Foi com o Iluminismo que surgiu a falsa idéia de que o homem poderia resolver tudo e tudo explicar usando a razão. Ela foi deíficada, substituindo de certa forma Deus no altar da ciência. De uma mentalidade teocêntrica passou-se a uma mentalidade logocêntrica. O logos chegou e abafou, se sentido o próprio rei da cocada preta, o bicho da goiaba madura, o “ó” do borogodó, o bam-bam-bam do pedaço. “Penso, logo existo”, já proclamava Descartes, outro matemático, diga-se de passagem, num dos aforismos extremamente representativos da época. Buscar as razões. “Por que isso?”, “por que aquilo?”. A razão virou de tal forma uma obsessão para os pensadores iluministas que eles poderiam ser comparados àqueles meninos barrigudos na fase do “por quê?” Ela, a razão, servia para explicar desde a explosão da pólvora até o endurecimento do ovo cozido. Ou achava que servia.

O desespero surgiu quando se viu que há coisas que você nem explica nem controla. E agora, José? Os racionalistas ficaram perdidinhos, que nem aquele cachorrinho da piada batida, caído docaminhão de mudanças na Djalma Batista às seis da tarde. Como seria possível não explicar certos fatos? Tudo tem que ter uma explicação! Que que é isso, companheiro! O mundo precisa de ordem para que haja progresso!

Para chacoalhar mais as coisas, vem Nietzsche, o filósofo, e diz que não dá para explicar os fatos porque fatos não existem, sendo um fato já uma interpretação do olho de quem vê. O que é um fato para um pode muito bem não ser para outro. Karl Marx levanta a mão, pede a palavra e diz que o homem é produto da história, não sendo tão autônomo como arrogantemente achava. Ele desvia da tomatada que ia na direção de sua barba, atirada por um racionalista convicto irado, e o tomate se espatifa nas lentes do pince-nez de Freud, que já dizia para quem quisesse ouvir que o nosso “eu” não está na razão, mas no inconsciente, virando o mundo de cabeça para baixo. Se a razão não explica, então Freud explica. De repente, eis que surge um careca com a cara do Fester, da Família Adams. Era um tal de Michel Foucault, afirmando que os sentidos que damos ao mundo são produtos das práticas de pensamento, da história, das vidas, dos discursos. Os hippies, que muitas vezes fazem colar sob encomenda de gente que depois nem usa, apoiaram tudo isso dizendo que normais eram eles e não os que os viam com olhos de repugnância. Aí, meu amigo, pegou geral. Ninguém nunca mais se entendeu. Ficaram os dois grupões: de um lado, os racionalistas, produtos da modernidade; do outro, aqueles para quem tudo é possível e que a ciência não tardou chamar de pós-modernos. Tudo é possível, mas nem tudo explicável, desde então. Desordem e pangresso.

Acho que na vida é assim mesmo. Na nossa ânsia cartesiana de explicar tudo, de achar uma fórmula que decifre a coisa feia, ficamos abestalhados quando a resposta que buscamos não vem. E nem tem de vir às vezes. Quem disse que devemos saber tudo e explicar tudo? O negócio então é planejar e controlar o que dá e deixar rolar o resto, sem neuras e culpas. Depois que eu saquei isso, com a ajuda de uma análise básica, minha vida melhorou qualitativamente. Tem coisas que estão fora do alcance de minha vã filosofia e de minha compreensão liliputiana. Paciência! Relaxo e gozo. Elas se explicarão. Ou não, comodiz o Caetano. Tout est possible

Querer explicar o mundo o tempo todo é travestir-se de Deus. É necessário que nós entendamos completamente que não se pode entender completamente. Que a razão de ser de um segundo de vida nos escapa inexoravelmente pelos dedos como ar ralo, esvai-se como nossos caraminguás na carteira.

O reconhecimento de nossa limitação humana e da pequenez de nossa capacidade mental para a compreensão da vida com suas nuances impressionistas e impressionantes faz de nós seres maiores, paradoxalmente grandes como pessoas. O inverso é igualmente verdadeiro: arrogar a si a grandeza infinita da compreensão total apequena e amesquinha a alma do ser humano, cobrindo o panteleão de arrogância pura e de uma insuportável empáfia. Tenho cada vez mais verdadeiro horror de sabichões. Gosto cada vez mais do estilo bon vivant planejado.

A vida vem, amigo, e não pede licença. Ela é abusada como cunhado. Leva e traz amores, cria e mata horrores, oferece-nos novos sabores a cada esquina dobrada. E que bom que é assim. Que bom que eu não saiba o que tem atrás da porta branca no fim do corredor. Perder o prazer e frio na barriga de girar a maçaneta e ver o que me aguarda? Nem morto! Que venham portas misteriosas, pois é o ranger dasdobradiças que faz a trilha sonora do cotidiano, se me faço entender na metáfora.

Falando em entender, então, volto à pergunta inicial: para que serve o binômio de Newton? Em uma perspectiva moderna, racionalista, podemos dizer que o binômio do José Newton, como lhe chamava Raul Seixas, deve ter lá suas aplicações. Ele talvez seja algo como a potência inteira positiva de um binômio. O que isso quer dizer? Bom, é preciso você se tornar membro da confraria dos matemáticos para saber. Do ponto de vista pós-moderno, o binômio de Newton serve para lembrar Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos, que genialmente já dizia em 1928:

O BINÔMIO DE NEWTON É TÃO BELO

O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fora.)

A vida é inexplicável, inexatamente possível, inexplicavelmente bela, exatamente impossível. Com surpresas e movimentos que mudam nosso rumo tomado, para lá ou para cá, ao sabor do vento lá fora, que canta afinadíssimo óóó-óó. Deixem quem gosta de Newton apreciar a beleza enigmática de seu binômio. Permitam quem aprecia a beleza da Vênus de Milo extasiar-se com sua gordurinha sexy. Deixem amoçada que curte Bruno e Marrone ser feliz, dormindo na praça com o guarda pensando nela. Não importa o que você acha, sempre vai ter alguém que vai adorar dirigir um Voyage branco. Temos de parar de querer entender tudo e, pior ainda, entender tudo a partir de nossa ótica, ética e estética.

Agora que eu já sei para que serve o binômio de Newton, vou ouvir o vento lá fora e pensar no reflexo do sol nos cabelos da Bia. A manhã está belíssima como ela. Ali por perto, sob uma árvore, estará Newton, olhar satisfeito e cúmplice a me espreitar. Obrigado pelo binômio, Newton. Obrigado pela resposta, professora Kelly. Só mais uma perguntinha: para que serve o Teorema de Fermat? Não, não. Pensando bem é melhor deixar quieto…

Manaus, 13 de dezembro de 2002

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6 comentários em “O Binômio de Newton

    Adrienne disse:
    25/08/2010 às 22:16

    Gostei não. =P

    Danielle disse:
    30/07/2011 às 09:48

    Concordo plenamente com a professora Kelly…
    Também sou profa de matemática; encontrei vocês não por acaso, mas pela mesma pergunta que fizeste a Kelly… Pois estava às voltas com a reparação de uma aula sobre o tal binômio e imaginei que alguns de meus queridos alunos viriam com a tal questão…
    Segundo meu marido que é físico, a matemática veio pra descomplicar a física e complicar a cabeça de quem a estuda… rsrrsssss….
    Entre números e letras, entre equações e inequações, a cada dia, me apaixono mais e mais por ela….
    Até mais!

    ezequias disse:
    16/02/2012 às 03:03

    Para que serve o binômio de Newton? veja em: http://www.profezequias.net/binomial.html

    SONIA disse:
    16/01/2013 às 22:40

    HA EU QUERIA EXEMPLO NUMERICO

    Lidiane disse:
    11/06/2013 às 18:41

    Amei a reflexão! Levarei para os meus alunos de matemática esta explicação.

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