A festa do Twitter

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Tenho usado o Twitter há uns dois anos. Mais do que usuário, tenho tentado compreendê-lo como pesquisador do fenômeno de linguagem. Do ponto de vista do suporte, já pude concluir que o Twitter agrada porque concentra na ferramenta as características desejáveis para a informação no mundo de hoje: acessibilidade, relevância, concisão, imediatidade, expansibilidade e multimidiaticidade. Quanto mais características dentre essas a informação apresentar, mais interessante e valorizada ela fica.

No Twitter, a informação é extremamente acessível. Na esmagadora maioria das vezes (a hipérbole pleonástica é proposital), quem posta a informação no Twitter é o próprio sujeito que está vivenciando o fato. Com foto ou video, se quiser abusar. Confesso que leio o Twitter antes dos jornais do dia para saber o que está rolando no mundo. Essa acessibilidade à informação ganha um tom mais interessante quando se observa que a mediação do mundo real se perde na possibilidade da interlocução direta entre sujeitos que, de outro modo, pouco provavelmente teriam algum tipo de conversa. Já ganhei tchauzinho da Patrícia Poeta e uma ownada federal da bonita Scarlett Johansson por causa de um falso RT que fiz tirando graça, como se ela tivesse me mandado uma DM (http://twitter.com/ScarJohansson/status/21795020350). É! A Scarlett falou comigo! Tudo bem, foi um esporro. Mas falou!

Como somos nós que escolhemos a quem seguir e que informação receber, a relevância do que lemos tende a ser maior. Noves fora os carentes, que precisam desesperadamente de seguidores, seguimos e somos seguidos por aquelas pessoas cujas informações são, de algum modo, interessantes para nós. E interesse é algo que varia no conceito. Querer julgar a timeline de alguém por nossos critérios é querer que o outro goste do Flamengo ou ache o Novo Uno bonito na marra. Timeline é igual aos livros que você compra e às músicas que você ouve: só você sabe a importância das escolhas. Eu sigo o Pierre Levy (@plevy) por questões acadêmicas, sigo o Felipe Fonseca (@soudemenor) pela espirituosidade, o Cardoso (@cardoso) pela rabugice e sigo o G1 (@g1) pelas notícias. Sigo meus orientandos e alunos da graduação e dos mestrados porque é um jeito rápido de falar com eles. Não sigo gente que eu considero chata, como não me seguem aqueles que me acham chato também. Tem gente que segue algumas pessoas só para encher-lhes o saco. Trollar, no jargão da internet. Mas é o que digo: isso é necessário para elas porque a encheção de saco é uma forma sincera de um vaidoso manifestar sua admiração. Critérios pessoais de relevância. É assim.

É uma arte ser relevante em 140 caracteres. O Twitter força as pessoas a buscarem a concisão, a linguagem enxuta. Ninguém tem tempo para ler 100 páginas de texto hoje. Ok, nós amantes do bom e velho livro somos exceção… Mas grosso modo, a informação tem de chegar em forma de lead. Concisão é exercício. Há gente verborrágica de ideias que é um primor de concisão no Twitter, como o poeta Carpinejar (@carpinejar). Mas para dizer em 140 caracteres de forma concisa é preciso antes ter o que dizer e estar pronto para interagir a partir do que se diz. Por isso muita gente não gosta do Twitter. Porque sua subjetividade não bate com as exigências da ferramenta. O cidadão entra e sai logo ou nem sequer entra. Porque é fato: tuitar algo é pedir para ser respondido. Quem não quer interagir está no lugar errado.

O caráter de imediatidade do Twitter é um dos seus grandes atrativos. Tudo ali é na hora, just-in-time. O Twitter é um grande diretório de classificados, uma grande reunião de especialistas (tem sempre um em algo), um grande centro de informação (das mais importantes às mais triviais). Pergunte e responderão. Poste e comentarão. Quer saber quem morreu, quem pisou na bola, o assunto do momento, quem está pegando quem, quanto está o jogo do Fluminense? Tudo lá, fresquinho. Mas nada de informações longas e detalhadas. Lá estão as informações fundamentais sobre qualquer assunto. Encontrando essas informações, se houver interesse, clica-se no link e, aí sim, mais textos, fotos, vídeos, podcasts e o escambau.

Por permitir a expansibilidade da informação em formatos multimidiáticos, o Twitter agrega valor à ferramenta. Se uma informação lhe servir e dela você precisar mais detalhes, links lhe levarão a eles. Ouça a pessoa, veja a foto, participe do Twicam com ela. Explodem as possibilidades porque o Twitter funciona como um hub informacional.

Acessibilidade, relevância, concisão, imediatidade, expansibilidade e multimidiaticidade: a discursividade da ferramenta Twitter passa por aí.

Mas tem o outro lado da questão: a do sujeito que usa o Twitter. E isso é o que tem me chamado a atenção ultimamente como objeto de estudo e observação.

O Twitter é uma terapia em grupo. Frustrações, vaidades, agressividade, carências, autovitimização, hiperaltruísmo e coisas assim a gente vê por ali. O Twitter é um valvulão, uma vuvuzela digital de sons presos na garganta do inconsciente. Os sujeitos de antanho guardavam seus segredos nos diários com chaves. E explodiam para dentro. Hoje os sujeitos evadem sua privacidade postando, do celular, tweets, fotos, posts, comments. E explodem para fora. A intolerância, a agressão gratuita, o ciberbullying, a briga comprada, a cabeça enfiada na carapuça alheia, tudo isso é sintoma de um novo sujeito, que processa sua subjetividade de forma instantânea, como o BicMac que come ou como o peguete com quem fica. Tudo é líquido agora. Toca aqui, Bauman!

As características da informação sobre que falamos acima parecem se estender aos sujeitos. Precisa-se ter um outro sempre acessível para falar na cara (ou no monitor, claro) tudo rápida e concisamente, pois o tempo do processamento é o imediato. As relações conflituosas se estendem pelos multimeios: no Twitter, nos blogs, por SMS, e-mail, no YouTube. Isso tudo adquire para o sujeito da hipermodernidade uma relevância fundamental para seu próprio equilíbrio psíquico. Sem isso, estoura-se.

Não falo isso com saudosismo de outros tempos, como se antes fosse melhor e tal. Falo como constatação de que é assim agora. É diferente apenas. Se isso é bom ou ruim, que cada um valore a partir de seus parâmetros.

No fundo, o Twitter é uma grande festa, com todo mundo meio de porre. O álcool, sabe-se, libera os filtros e acentua traços da personalidade controlados pela sobriedade. O Twitter, me parece cada vez mais, faz a mesma coisa. Bêbado pode ser engraçado e divertir muito. Mas pode ser muito chato também. Essa é a festa. Topa?

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7 comentários em “A festa do Twitter

    luadosolzinho disse:
    26/08/2010 às 10:07

    Essa comparação do Twitter com uma festa me lembrou uma passagem do livro de David Crystal – Language and the Internet – no qual ele compara a CMC (comunicação mediada por Computador) a uma festa (às vezes regada à bebida) em que todos os convidados falam de uma vez; todos os outros convidados podem ouvir o que você está falando e eles precisam continuar falando para provar aos outros que ainda estão interagindo. Ele também fala que numa festa da vida real, você traria sua bebida à festa. Na virtual, você traz a linguagem. E ele faz várias dessas comparações com uma festa. ora compara a internet; ora, a comunicação; ora a linguagem. E seu texto me lembrou demais isso. Só que mais detalhado, mais específico, mais direto, eu diria. O twitter é bem isso aí que você descreveu. Um abraço.

      Sérgio Freire respondido:
      26/08/2010 às 10:12

      O livro do Crystal é bom! O velhinho é show! Recomendo a quem não leu ainda!

    Carlos Batista disse:
    26/08/2010 às 11:12

    Muito bom o texto. 🙂 Parabéns !!!!

    Victor Araújo disse:
    26/08/2010 às 11:22

    Muito bom texto! O twitter é uma festa, 24 horas por dia, a gente encontra sempre a galerinha zoando muito! rs… É uma festa, é uma válvula de escape, é um vício… é uma beleza!

    @drinagomes disse:
    26/08/2010 às 11:36

    Amei todo o texto, e quero comunicar se Deus quiser estarei na festa dos twitteiros õ/
    #EBA

    Anderson Briglia disse:
    26/08/2010 às 23:18

    O twitter já me deu um jantar no Banzeiro e um almoço (meio grátis) na Kasa do Alemão. Mas tirando isso, ele me deu pessoas que nunca teria contato. O twitter é assim: afunila gente de polaridades diferentes. Se vão se atrair ou se repelir, são outros quinhentos.

    Camila Alves disse:
    27/08/2010 às 07:28

    Já percebeu que o ser humano tem uma tendência a transformar coisa ruim tudo (ou quase tudo) que deveria ser bom?
    O que deveria ser um local para lazer e entrenetimento as vezes se transforma numa competição ferrenha. Como uma amiga minha diz, parece um jogo de dominó “valendo a vida”.
    Geralmente, fazemos o que sabemos fazer de melhor para atrair as pessoas. No convívio diário, nos utilizamos de charme, de simpatia, de boa conversa, etc.. No virtual, temos a linguagem.
    =)

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