Paula, a pequena sorella barezinha

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O ser humano é engraçado. Para falar coisas desagradáveis e falar mal dos outros é muito fácil. Fulano é um porre de chato, fulana fala demais, sicrano come de boca aberta, beltrano é falsinho que só, a maionese da Tia Céu é liquida demais, enfim… talk is cheap. Falar é fácil. Falar é fácil quando é para direcionar o fura-bolo para os defeitos alheios. Pouco se fala diretamente para a pessoa objeto da fala sobre suas qualidades e sobre as coisas que nela se admira.

Hoje é o aniversário da minha irmã mais velha, Paula. Não, ela não é mais velha do que eu, que giro 42 na segunda. Ela é a mais velha das duas irmãs que tenho. A Paula faz 40 anos. É um aniversário. É o aniversário da minha irmã Ana Paula.

Onde se ligam os dois primeiros parágrafos dessas mal digitadas? O liame é esse aqui, ó: queria nesse texto falar da minha irmã e dizer o quanto eu a admiro e o porquê de eu a considerá-la uma pessoa especial. Só que eu queria pedir licença a você, leitor, para falar diretamente para ela. Posso? Obrigado. Dá licencinha, afasta pra lá. Tá bom assim.

Mana, primeiro, parabéns! Vou usar a frase que Dona Helena (que faz 60 no dia 08) sempre usou ao nos dar os parabéns ao nos acordar no nosso dia: “Deus te proteja, te abençoe, te dê saúde. Juízo nessa cabeça tonta”. Depois da vinheta-padrão, eu queria te dizer algumas coisas hoje que talvez eu nunca tenha verbalizado, apesar de certamente já ter dito.

Eu te admiro muito. E te admiro pela tua determinação. Essa é, sem dúvida, tua maior qualidade. Sempre que tu quiseste as coisas, foste lá e fizeste. Dane-se o mundo que tu não chamas Raimundo! Te chamas Paula. Aliás, pesquisei na Internet e lá está escrito que Paula quer dizer “a pequena”, “a humilde”.  Pequena vá lá que seja, porque afinal todos nós da família Freire de Souza somos prejudicados verticalmente. Mas quanto à humildade terei que discordar… O interessante é que a tua falta de humildade é para consumo interno. Não é daquelas que humilham os outros, mas sim das que fazem a pessoa se autoiluminar, por assim dizer. É como cerveja sem álcool ou cigarro de cravinho. É como a raiva da qual fala Paulo Freire, aquela raiva positiva que faz com que a gente se mova e faça o mundo mudar.

Outra pra ti: Paula vem Paola, italiano. Pra quem tem alma italiana e nasceu na terra dos índios baré por um descuido no setor de distribuição celeste é a glória. Capri, meu bem, é meravigliosa. O Pepino de lá, então, canta como ninguém. A praça da saudade até tinha um avião legal no qual a gente brincava, mas nada como a Fontana di Trevi. O que é bumbódromo frente ao Coliseu? Como torcer pelo Bruninho no vôlei ou para a seleção do Dunga se por direito voluntário tu és uma das tifozzi da Azurra?  Anni Paola Souzzi. Ana Paula Souza. A Barezinha. O racional desejo italiano cede lugar ao inconsciente desejo freudiano de não deixar de ser indiazinha ao escolher para teu e-mail barezinha@uol.com.br. Indiazinha do Amazonas. Uma guerreira. Determinada. E eu te admiro por essa determinação tinideira, sorella.

Mana, tu és vitoriosa. E antes que isso pareça um quadro piegas de um programa vespertino qualquer da Rede TV!, quero dizer que tu és a vitoriosa da música do Ivan Lins. Ao ouvi-la, vem à minha mente a menina briguenta, que na 2ª série enfiou uma bola de papel goela abaixo de uma chata que encheu o saco lá no colégio de freiras das irmãs Aurora-dentro-e-fora e Luzinete-tira-e-mete, como dizia nosso pai para encher o saco. Aparece na foto mental a menina que tem e sempre teve vontade de passar dos seus limites e ir além. Ir sempre além. A irmã que, certa da felicidade incerta do irmão, se recusou até o último minuto a ir ao casamento dele e “compactuar com a infelicidade” por vir. Mas, no fim, acabou indo obrigada pela Dona Helena, de quem herdou o carniteteísmo –  e assim batizo oficialmente a qualidade de ser “carne de tetel”. Mas que na primeira chance de compactuar com a felicidade desse mesmo irmão, acomplosou-se com a possível solução para livrá-lo do casamento falido. E chorou com o fim da cumplicidade quando ela ruiu.

Mana, tu és doce. Doce com tua presença exata no momento exato do colo necessitado, da cumplicidade fraternal no afago restaurador que só os irmãos sabem dar, cada um a seu jeito, na hora da dor. É como daquela vez que despencaste da goiabeira do quintal de peito no chão e correste sem ar em busca do colo dos irmãos. Em todas as nossas quedas das goiabeiras da vida, teu colo de irmã estava lá dizendo: “chora aqui”. Ninguém quer sermão na hora da dor. Ninguém precisa. Dar sermão na hora do corte sangrando é, no humilde ver desse escriba de segunda, um sintoma da incapacidade de lidar com suas próprias dores. Sermão fica para a hora da razão, anos depois. Na hora da dor, o que se espera de quem está perto é colo, carinho, amparo, compaixão. Mesmo errado, a gente quer a certeza da presença de quem a gente gosta no meio do erro cometido, dividindo o cheiro da merda para acabar mais rápido. E isso tu sempre me fizeste na hora das minha dores e eu tentei, sem saber se consegui, te dar nas horas das tuas.

Mana, tu és doida. Doida de fazer coisas que desafiavam e desafiam o que a memória social, moral e religiosa tratam, anacronicamente às vezes, como dogmas. Bater-boca com o pai e mãe (e de tabela comigo, que ortodoxamente não consigo aceitar isso), sumir na noite, fazendo minha mãe me acordar para vagar a cidade atrás de ti, viajar de um lugar para outro em busca da explosão de uma paixão juvenil (juvenil porque TU eras jovem, diga-se…), causando alvoroços nos familiares por causa da decisão. Doida de achar que um portão fechado seria o suficiente para deter o flagra de um irmão curioso. Doida de jogar farinha na cara do Mauro na hora do almoço, sujando a mesa e o chão da cozinha da Dona Helena daquele jeito. Doida pela vida. Doida pela verdade. A tua verdade. Como a das piracemas que deram nome ao fenômeno, como a da mesa de som de 32 canais…Ou seriam 40? Não, são 40 anos.

Mana, feliz aniversário. 40 anos. A vida, digo eu que já passei por aí, está começando dos vera agora. Temos que ter um baita cuidado, por um lado, porque agora é escapole-bate-fica. Por outro, temos de ter prazer de viver também, porque a vida é uma só. E prazer de viver não quer dizer se entregar ao hedonismo desenfreado que esmilgalha vidas em busca de migalhas de prazer indivudual, mas simplemenste lembrar que dos três momentos do dia, só o hoje é material e verdadeiro. O ontem já se foi, servindo de reflexão, e o amanhã se molda em função do hoje, que é o que conta. Mas quanto aos prazeres da vida, isso eu passo e me abstenho de comentar. Prefiro que tu comentes, porque até hoje soubeste viver bem mais intensamente do que eu nessa questão. Desde pequena, quando comeste aquele frango sozinha no restaurante, causando espanto em todo mundo. Espantar os outros comendo, brigando por sonhos, brigando por desejos, brigando por ser Paula: essa é tua sina.

Quando nossa vó caiu doente, antes de morrer, ela soube através da sua doença destravar uma coisa fundamental em mim: a incapacidade de dizer EU TE AMO para as pessoas que amo. E eu te digo em altas e boas caixas: EU TE AMO, MANA. “Deus te proteja, te abençoe, te dê saúde. Juízo nessa cabeça tonta”, com a vida que tu tens, com as pessoas que tu gostas. Porque uma coisa eu sei: Se a tens e se gostas assim é porque é o que tu queres. Porque ninguém faz a minha irmã fazer o que não gosta e o que não quer. Ninguém.

Vem logo para a festa da mãezoca, dia 08, que a gente vai comemorar. Estamos te esperando. E nem precisa pagar nada. Ou então a mãe paga e depois tu acertas, como sempre. Buon compleanno. Ti amo troppo, sorella!

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2 comentários em “Paula, a pequena sorella barezinha

    Erlen Dias disse:
    03/09/2010 às 11:04

    Belo texto Sérgio..Conheci a Irmã Aurora. Que figura! e eu nem era estudante do Santa Teresinha…rrsrsrrs.

    Maria Lúcia Marangon disse:
    06/09/2010 às 08:02

    Que lindo texto Sérgio! Parabéns para a Paula e para você, que completa hoje 42 anos de vida.
    Tenho saudade dos meus 42… rsrsrs. Já são 11 a mais.
    Felicidades aos dois. Fiquem com Deus!

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