A Estrada de Damasco

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Escrito para o Portal Amazônia

Quando tinha 18 anos, um romano filho de fariseus foi estudar teologia em Jerusalém com um dos grandes sábios de sua época, Gamaliel. Tornou-se então feroz defensor da fé judaica, condição que o qualificou para chefiar um exército cuja missão era perseguir e dominar os judeus convertidos ao cristianismo. Isso até o famoso episódio da estrada de Damasco. Fulminado por luz intensa, o jovem ouviu da boca de Deus a questão que mudaria fundamentalmente a sua vida e os rumos do próprio cristianismo – “Saulo, Saulo, por que me persegues?”

Cego pela luz do céu, Saulo é levado a Damasco, onde é batizado por Ananias, discípulo de Jesus, recobrando a visão. Desde então, convertido ao cristianismo, renega o nome judaico de Saulo e adota a denominação romana de Paulo. Dali em diante, Paulo abraça e difunde a fé cristã, buscando a universalização da nova crença, transformando o cristianismo, até então um grupo desarticulado de fiéis entusiasmados, numa religião organizada.

O interessante no episódio da estrada de Damasco, narrada nos Atos dos Apóstolos, é o fato de Saulo não aguardar nem pretender a conversão. Ao contrário: era um soldado a serviço da perseguição aos cristãos. Prendeu, matou, torturou ou autorizou a tortura de centenas deles. A conversão se lhe impôs à força de intervenção divina. Portanto, foi contra a vontade que Saulo se converteu em Paulo, o Apóstolo dos Gentios.

Fiquei pensando nessa história. Como toda narrativa bíblica, creio eu  que essa  deva ser atualizada e contextualizada para nós e nosso tempo. Metaforizando a coisa, creio que cada um de nós vez por outra ouve a voz e se vê iluminado por um clarão que pode alterar substancialmente nossa vida. São aqueles momentos em que podemos dizer: minha vida antes disso e depois disso. E esses marcos vitais são como estalos. Faz CLICK! et voi-lá! Mil perguntas arquimedianas brotam num fluxo infindo de eurekas, como uma criança na fase dos porquês: como é que eu não via isso antes? Como é que não percebi que deveria ser assim? Por que demorei tanto tempo para resolver fazer isso? Por que diabos sempre fiz aquilo? Tantas perguntas… “Eras-te, meu bem!”, como exclamava tia Conceição, uma tia querida que também ouviu o chamado de Deus e era freira.

Pare por um nanossegundo, caríssimo leitor,  e pense nas suas estradas de Damasco. Quando foi que você se deu conta que sua vida, naquele aspecto particular, havia mudado e que essa mudança, antes impensável, foi para melhor? Pense como aquela alteração na lente pela qual você via o mundo mostrou de repente mundos diferentes e assombrosamente deliciosos. Pense na clareza do ato que se ofertava como possibilidade e na certeza de ter que fazê-lo, ato esse que fugia desde sempre ao campo de visão, ao escopo das idéias pensáveis. Pense na sua estrada de Damasco atual, sobre a qual caminha nesse exato momento. Olhe para a luz, olhe para o chão, olhe para o céu. Faça desse momento uma festa junina.

Quando a luz nos fala à razão, cegando os olhos e com isso, paradoxalmente, iluminando cadinhos penumbreados cheio de ideias, percebemos na mudança inevitável como a nossa vida não aceita regras que sejam fixas. Cada  regra fixada não passa de uma criação operacional, um mal necessário, como o plástico. De repente, não mais que de repente, damos conta de que toda certeza aparentemente imutável e incontestável muda e é contestada pelos fatos que vêm sem pedir licença, sem protocolar audiência, sem bater na porta, sem mandar e-mail ou um tweet avisando. E damos conta, também, de como quanto mais cedo percebemos isso, mais cedo tendemos a levar uma vida mais feliz e menos angustiante.

Mudar é salutar. Não mudar é deletério. É ignorar a própria diretriz movente da natureza humana. Mas para mudar é preciso morrer, no sentido dialético do termo. Taí o próprio discurso religioso, que iniciou essa crônica, dizendo que é morrendo que se vive para a vida eterna, amém. A luz que brilha sobre mim e cujo calor e claridade recuso e a voz que me indaga poderosa e para cujo som convincente faço ouvidos moucos insistem em vir, quando recusadas, em forma de angústia, de dor, de insônia, de paranoia, de psicose, de neurose, de mania, de dor no braço, do escambau a quatro. Por não querer se cegar pela luz, cega-se para a luz.

Ouça a voz. Veja a luz. Deixe-se cegar. Mate o seu eu resistente que lhe incomoda. Viva o bebê que já mora em seu ventre há muito tempo, querendo ser parido para respirar ares de vida nova, solta e feliz. Mate o seu eu que não se arrisca, pois o desejado prazer do petiscar é indescritível e só quem o sente é que sabe como. Mate os pré-conceitos e viva na eterna virtude da conceituação momentânea, fazendo do bom e do ruim não categorias a priori que determinam tediosamente a vida, mas efeitos do real vivido. O bem teórico pode ser o mal real e versa-vice. Reconceituar virtuosamente é o nome do jogo. Não se justifique por não fazer as coisas alegando uma incapacidade de amador, pois amador, meu caro e minha cara, é aquele que faz porque ama. Então faça. Mate a vontade. Estrangule-a. Enterre-a. Só assim, outras vontades nascerão e lhe possibilitarão viver a vida dentro de possibilidades realizáveis do momento e não somente vivê-la alicerçada em quereres tetraplégicos, imobilizados por um acidente de alma. É como um grão, já diz Gilberto Gil: tem que morrer para germinar.

A luz brilhou? A pergunta ecoou? Ouça a luz e enxergue o som da voz como uma provocação à sua incapacidade de mover-se adiante ou de voltar atrás, whatever. O que seu coração mandar. Não se apequene no imobilismo quando múltiplos desejos kamikazes internos apresentam suas armas para o mais comprometido combate, morrendo de vontade de dar a vida pela verdade, ainda que seja uma verdade provisória, como acredito que são todas as verdades. Deixe-se prender no visgo da querência. Se entregue sem medo do medo ao vento que sopra dos pulmões da vida em seu rosto. Ria. Ria de si. Ria consigo. Ria para si. Ria por si. A ninguém é dado o direito de ser infeliz.

Como fez Paulo na estrada de Damasco, uma leve refletida pode lhe levar, pela cegueira, a ver que  quem você persegue, prende, tortura e mata incessantemente não é outro senão você mesmo. Daí é só sair e pregar. Pregar a vida feliz. Sempre renascendo. E não precisa nem mudar de nome. E não precisa nem se preparar para isso. A mudança se lhe impôs à força de intervenção divina. Basta.

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