A borboleta e o vulcão

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Contava-se na China a história que ocorrera há muitos e muitos anos e que fazia parte da tradição milenar chinesa: a história da borboleta cantora e do vulcão extinto.

Dizem que tudo começou quando uma bela borboleta cantora quebrou sua asa pela segunda vez. Passeando pela floresta em busca de um remédio para sua asa quebrada, foi informada que havia um vulcão nas redondezas cuja lava poderia curá-la. Disseram à borboleta cantora da asa quebrada que o vulcão, porém, estava inativo, logo sendo inútil sua busca.

Mas a borboleta não se deu por satisfeita e passou então a procurar mais atentamente o vulcão. Localizou-o e passou a observá-lo diariamente enquanto caminhava até ele, uma vez que não podia voar, pois sua asa estava quebrada. E a borboleta seguiu, então, montanha acima, conquistando lentamente espaços e territórios que muitos diziam ter donos e donos ferozes. Mas a determinação da borboleta era algo realmente muito forte. Não se abalou e seguiu, com a asa quebrada, mas cantando belas canções. Havia algo que lhe dizia que aquele vulcão, mesmo caladinho, estava a ponto de explodir e inundar as adjacências com sua lava, o esperado remédio para a sua asa quebrada de borboleta cantora.

A cada dia, a borboleta cantora da asa quebrada subia, andando sem pressa e pacientemente a montanha onde ficava o vulcão. Era uma borboleta incansável. Andou tanto que chegou ao topo, ficando cara a cara com o vulcão. O vulcão, sempre silencioso, esperou que a borboleta, sempre falante, falasse.

“Vulcão”, disse a borboleta, “sou uma borboleta cantora e como vês a minha asa está quebrada. Vim andando até aqui, mesmo estando machucada e exausta, porque me contaram que sua lava serviria como remédio. Eu sei que dizem que você está extinto e inativo, mas como sou uma borboleta sensível sei também que há muita lava aí pronta para ser cuspida para fora, basta haver uma razão. Uma boa razão. Eu e minha música somos uma boa razão”, falou a borboleta cantora da asa quebrada.

“Borboleta”, respondeu o vulcão desconfiado, “o que queres tu de mim?”. Estou aqui quieto no meu canto, com minha vidinha definida e vens me perturbar com tua asa quebrada e tua música”.

“Não gostas de minha música?”, perguntou a borboleta.

“Na verdade gosto e muito. Gostaria que cantasses para mim todos os dias. Mas não sei se devo explodir e derramar minha lava sobre ti e sobre os campos só por causa da tua asa quebrada. Essa asa quebrada me perturba muito, confesso. Talvez a lava te cure, mas queime muito pasto e muita gente. Inclusive você e minhas amigas montanhas rochosas aqui ao lado, amigas de muito tempo”.

“Mas vulcão, que opções eu tenho?”

“Duas: ficar aqui cantando para mim e esperar que a asa se cure com o tempo ou…”

“Ou…?”, perguntou a sempre curiosa  borboleta ao vulcão, sempre misterioso e de frases incompletas.

“Ou o quê, vulcão?”, insistiu a borboleta.

Mas o vulcão não respondeu. Jogou as sobrancelhas para lado como quem diz algo que não consegue verbalizar. Tinha essa mania. Fazia sempre isso.

“Já sei. Ou canto e espero sarar ou te convenço a me cobrir de lava para me curar, mesmo afetando os pastos e as montanhas rochosas. Certo?”

“Pode ser…”, disse o vulcão, como sempre em meias palavras. “Sabe o que é, borboleta cantora: tenho a impressão de que você só veio cantar para mim, coisa que confessadamente adoro, por causa de sua asa quebrada. Que se eu ajudar a consertar sua asa, você vai voar para outras florestas e eu vou ficar aqui, em companhia dessas montanhas rochosas que já me acompanham há algum tempo. Tenho medo que isso aconteça. O medo sempre me perseguiu”.

“Entendo sua preocupação, vulcãozinho, mas devo lhe dizer uma coisa: eu gosto de cantar como gosto da própria vida. E jamais cantaria somente para ter sua lava para curar minha asa quebrada. Ela está quebrada, sim, mas minhas cordas vocais não estão e minha música é verdadeira”.

O vulcão ficou todo enrolado, em dúvidas sobre o que fazer. Como medo, como sempre. Continuar ao lado das montanhas rochosas ou explodir, curar a borboleta, mesmo com algumas baixas no processo, coisa que de fato já há muito estava com vontade de fazer.

“O que você quer de mim, borboleta? Fale. Seja sincera”, perguntou agoniado o vulcãozinho, mesmo sem demonstrar que estava. Ele não era muito bom para demonstrar sentimentos…

“Sabe, vulcão. Na minha vinda para cá confesso que pensei muito em mim e na minha asa quebrada. Mas como vim devagar e andando, confesso que me apaixonei por você”.

“Como?! Apaixonou?! Que história é essa?”

“É. Paixão. Vontade de estar junto, de cantar para dormir, de querer ficar perto, de conhecer mais. Acho que se eu for embora agora morrerei de saudades”.

“Mas eu sou um vulcão e você é uma borboleta!”.

“E paixão lá quer saber dessas coisas, vulcão! Ela simplesmente chega e invade. Pronto! Sabe, decidi uma coisa. Vou cantar para você todos os dias que você quiser. E nem precisa explodir para me curar. Acabo de descobrir que só o fato de ter chegado perto de você já melhorou minha asa. Quem sabe se você me permitir ficar perto e cantar, vez por outra, me cure completamente?”

“Estou confuso”, disse o vulcão remexendo as sobrancelhas, enquanto os outros bichos da floresta, loucos pelo canto da borboleta, gritavam: “Vulcão leso! Vulcão besta! Explode logo, cura a asa da borboleta! Assim ela vai poder voar de novo e irá aprender novas músicas para ti!”

O vulcão pensou, pensou, pensou. E disse, meio desconfiado:

“Borboleta, você gosta mesmo de mim mesmo?”

A borboleta não respondeu. Sorriu. E bateu asas e voou. Estava curada. Descobriu que não era a lava do vulcão o remédio para sua asa, mas a paixão dentro de si que acabou por curá-la. O vulcão, sob os gritos coletivos de “leso, leso!”, viu a borboleta ir embora, sem explodir. Sentiu um misto de tristeza e de alívio. Tristeza porque perdera as músicas inebriantes da borboleta, de que tanto gostava e que, apesar das tentativas, conseguia disfarçar mal e porcamente. Sentiu alívio porque não teve que mexer em nada na sua vidinha, ali sedimentadas junto às montanhas rochosas. O tal do medo.

À noite, quando o vulcão já estava quase adormecido (mas sem esquecer da borboleta, com quem até já sonhara), ele ouviu a suave voz da borboleta a cantar. Sentiu um frio na barriga. Ou seria um quente? Era um quente! Estava preste a explodir. A borboleta disse:

“Minha paixão por ti me curou. Voltei e voltarei quando quiseres para cantar para ti”.

“Sabes que não posso sair daqui. Minha única forma de me movimentar é explodindo, entrando em erupção, botando para fora todo esse fogo que tenho dentro de mim”.

“Então, vulcão, faça isso quando achar que deve. Não faça por mim, mas por você. Vir aqui cantar quando você quiser independe disso. É meu prazer. É minha gratidão pela cura de minha asa”.

Diz a lenda que todas as vezes que o vulcão chamava, a borboleta vinha cantar. E diz a lenda também que o vulcão chamava a borboleta através de pequenas erupções, que nem destruíam os pastos, nem as montanhas rochosas.

Não há registro de grandes erupções. Não há registro de que a borboleta cansou de cantar. Mas cada um, a seu modo, ficou curado. E cada um, a seu modo, ficou feliz. A borboleta cantora, cantando apaixonada e grata e o vulcão das pequenas erupções, sempre silencioso e mexendo as sobrancelhas quando ficava sem graça. E assim foi, apesar dos bichos da floresta terem apelidado o vulcão de vulcãozinho leso, por não ter tido coragem de explodir.

A borboleta e o vulcão, no entanto, sabiam no fundo que eles, os bichos da floresta, queriam mesmo era só ver o show de lava e explosões. E em segredo então se amaram. Até hoje só eles e eu, o narrador, sabemos da verdade. Ninguém nunca soube. Nem saberá.

4 comentários em “A borboleta e o vulcão

    Mônica disse:
    26/11/2010 às 17:25

    Muito legal professor. Achei linda…
    Aliás, que segredo maravilhoso esse …
    Ele alimenta muitas borboletas e vulcões…

    Maurília disse:
    26/11/2010 às 18:01

    Que babado fortíssimo!!!
    Tô me coçando todinha de curiosidade.

    Adorei… Parabéns pelo excelente texto.

    orion srhadny disse:
    25/02/2013 às 21:23

    Olha pode parecer mentira,más eu sonhei com essa lenda,não com todadas as palavras éclaro,,o autor está de parabens,amei mesmo.

    adrianasportugal disse:
    28/08/2021 às 11:31

    Caro autor, sua história é encantadora e por obra do destino ela chegou até mim… Eu que pensava em escrever sobre esses dois personagens tão íntimos meus, sou agraciada com seu conto, lindamente narrado.

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