Pollyana vai ao banco

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Por mais bom coração e cuca-fresca que uma pessoa seja, há sempre alguma coisa que consegue invariavelmente tirá-la do sério. Não tem bom: fulano está no maior astral, a coisa se apresenta e o bom humor vira uma Challenger, indo literal e metaforicamente para o espaço.

Minha tia Céu, por exemplo, se irrita se alguém tocá-la com pé em sua perna. Ainda ameaça agredir com meleca. Um nojo. Minha cunhada Zuleica morre se alguém der uma petelecada no braço dela. Se ela tiver com uma faca na mão, é capaz de enfiar no peito do petelecador no reflexo da raiva. Tenho uma amiga que entra em transe selvagem se o marido comer o carnegão da melancia, aquela parte mais gostosa e macia que fica exatamente no meio. Enfim, todos temos algo que faz com que ultrapassemos o limite tênue entre o racional e o animal. Todos.

A minha “coisa” mais irritante é ir ao banco. Falou em banco, uma baba espessa e viscosa escorre pelo canto da boca, fico vermelho, a pressão sobe, o tesão desce, enfim, o dia acaba. Ou acabava. Depois de hoje, algo mudou.

Lá estava eu no porqueira do banco. Tinha de fazer um pagamento de um boleto cujo valor excedia o permitido pela maravilha do Internet Banking, de qual sou adepto desde a época dos BBS nos velhos MSX, lá pelo final dos anos 80. Não tinha mesmo outro jeito de pagar. Só indo lá.

Como estou ficando velho (e quem não está?), para viver melhor decidi de uns tempos para cá adotar a filosofia do jogo do contente da Pollyana: Tudo bom, tudo bem, toda hora. Há sempre o lado positivo das coisas.  Exemplo: um dia desses fomos à Praça do Caranguejo para bater papo, o pessoal lá de casa e meu tio Ribamar Bessa, o Babá, de passagem por Manaus. Na saída do carro, ao colocar o pé para fora, tio Babá pisou em um bolo cheio de glacê que algum porco havia jogado ou deixado cair no meio da rua, melecando completamente sua sandália de couro de jegue, made in Crato. Normalmente é para qualquer um se irritar com uma coisa dessas. Mas decidimos olhar o fato pela versão Pollyana: “Puxa, que bom que se atolou em glacê, hein, tio! Poderia ter sido merda…”, eu disse. Viu? Tudo é uma questão de perspectiva. E o papo foi ótimo.

Essa disposição para o feliz lembrou-me até da cena antológica do filme A vida de Brian, do grupo de humor inglês Monty Python. Na cena, os crucificados no monte – inclusive Brian, o personagem principal, sempre tomado erroneamente por Jesus – cantam alegremente pedindo, a despeito da situação complicada em que se encontravam, para que todos olhem sempre o lado belo da vida (“always look on the bright side of the life”). É um filme que vale a pena ver. Diversão certa. Nele você a filosofia Pollyana funcionando. Link para a cena: http://bit.ly/pzIp1

Com a disposição ligada, fui decidido a curtir a ida à agência como quem curte um filme do próprio Monty Phyton, ou melhor, como quem vai ser entrevistado pela Patrícia Poeta. Sem stress. Só barato

Ao chegar, a primeira surpresa: nenhum menino pediu para tomar conta do carro. Comecei a desconfiar que se tratava de uma pegadinha ou de um telegrama legal. Teria a Bia armado aquele pagamento só para me ver passar por bobo, naquele típico sadismo conjugal que só quem é casado entende? Entrei mais desconfiado que cego que tem amante.

Depois de voltar duas vezes na porta giratória por causa de uma moeda de dez centavos no bolso da calça e de um mini-grampeador guardado no fecho éclair interno de minha pasta, entrei. Dei bom-dia às gerentes, muito simpáticas por sinal. Talvez porque eu estivesse de blazer, oq ue me conferia um ar de cliente importate. Talvez porque eu tenha um charme próprio mesmo. Sem saber ao certo se a razão da simpatia, fui para a fila, encarar a “mardita”.

Como todos sabem, hoje fila de banco é fila grande. Para reduzir custos, eles fazem tudo para você não ir à agência: é telebanco, disk-caixa, celular, iPad, iPod, envelope cinza, envelope branco, caixa 24 horas, fax, pombo-correio.  Então, se você for, colega, prepare-se para a vingança. Vão te deixar horas mofando, com um só caixa, mais mole que requeijão Poço de Caldas.

Havia umas dez pessoas na minha frente. E uma só caixa (a requeijão). Não podia me irritar. Tinha que reagir: “Pollyana! Pollyana!”, repetia internamente. Passei então a exercitar meu divertimento preferido para desviar a atenção: observar as pessoas. Quanta coisa, quanta riqueza! Experimente fazer isso: sente-se em um banco no shopping, em um restaurante, e observe a biodiversidade humana que transita e conversa perto de você. É um show. O verdadeiro reality show. Big Brother e A Fazenda perto disso são cappuccino.

Os dois sujeitos que estavam imediatamente à minha frente eram um professor e um de seus ex-alunos. Pelo que pude pescar, o aluno ainda mora em um interior aqui perto, onde foi pupilo do tal professor, e vem à cidade de lancha quando precisa. O professor mora em Manaus, na Praça 14. Pelo menos foi o que li no endereço de um boleto de R$ 53,34 que ele trazia na mão. O aluno, já com 30 e poucos anos, contava ao professor o destino de todos os etevaldos, darcicleys e ronildas que com eles estudaram naquela sala de aula da hinterlândia amazônica. Vejamos: um casou e foi morar em Tarauacá. A outra engravidou do filho do prefeito e sumiu ninguém sabe para onde. Um tal de Nilton agora cria peixe ornamental e vende uma barbaridade para os gringos. A Josélia, coitada, morreu num acidente no “recreio” (barco) do seu Edmilson há 20 dias. Ela, seu Edmilson e mais quatro, inclusive a Shirley do seu Dário. E o Wandson está trabalhando como motorista lá em Urucu, no negócio do gás. E por aí foi. Em meia hora deu a ficha de todo mundo.

Mas de todas, a história que me impressionou mesmo foi a que ele contou em seguida à lista de paradeiros. O rapaz narrou para o professor o seguinte acontecimento: “Outro dia, professor, o pessoal da UEA foi lá fazer um treinamento de professores e disse que o professor tem de ser capaz de brincar, de sair daquela aulinha igual todo dia. Tem de mudar a aula, ser diferente, motivar. Eu levantei e fiz questão de falar para eles que há 20 anos o professor Gerilson já fazia isso”. Havia sinceridade, gratidão e orgulho em seus olhos, marejarados. O professor Gerilson, seu interlocutor, pelo que pude observar, também ganhou seu dia.

Nisso chega uma senhora, suada e esbaforida, reclamando. Mete-se na minha frente e diz, em tom nada amistoso, como se eu estivesse furando a fila: “Eu estava aqui! Não disse que a merda dessa fila ia demorar? Fui lá no mecânico ajeitar o vidro do carro e voltei e ainda tem uns dez na minha frente. Como é que pode, meu Jesus!? É uma droga! Porque, sabe, meu filho, o vidro do meu carro não estava levantando, aí resolvi ir consertar porque aqui sempre é assim. Já falei mil vezes para minha filha mudar de banco porque tralalá, trololó, trilili… Ei, moça! Não tem água pros clientes. É que já estou aqui em pé há muito tempo e tralalá, trololó, trilili…”.

A senhora tanto reclamou que a caixa disse: “Dona Creuza, por que a senhora não vem direto ao caixa? A sua idade lhe dá direito”. A caixa foi imediatamente apoiada e aplaudida por todos, ávidos por ver dona Creuza e seu azedume longe dali o mais rápido possível. Mas dona Creuza disse que não queria, porque tinha que respeitar a fila e tralalá, trololó, trilili. Em suma: ela era uma habituée do banco e abria mão de seu direito preferencial de atendimento graças à idade porque aquele era o prazer dela: reclamar da e na fila.

Já engatando a conversa na questão da idade, um jovem falante atrás de mim disse, dirigindo-se à dona Creuza: “Aproveite, minha tia! A senhora tem direito! Se fosse nos ônibus do T5 aí o bicho ia pegar. Ontem eu peguei o Tranquedo Neves-Centro e aí um velhinho entrou. Rapá…O motorista pediu a identidade, o vovô mostrou e o motora disse que ele ia ter que pagar, pois ele só ia completar 65 anos dali a dois dias. Ordem da empresa”. Pensei: se alguém nunca entendeu a lei dialética da mudança qualitativa, ali estava um bom exemplo. A quantidade leva à qualidade. Por 48 horas o velhinho do ônibus não era um velhinho de direito, mas um velhinho normal, como todos os velhinhos humilhados do Brasil.

“E aí, mano? O velhinho ficou calado?”, provoquei, para saber o seguimento da história, usando um vocativo de aproximação.

“Ficou mermo! Aí, mano, o velhinho escrotiou com o motora. Disse uma porrada de coisa pro cara, lá. Arretado o velho, bicho!”, respondeu ele no mais puro dialeto amazonense.

E a fila continuou a andar. Deu uma paradinha porque a caixa-requeijão saiu para puxar o carro dela que estava trancando outro lá fora. Coisas da nossa Manaus…

Na vez para ser atendido, estava um senhor forte, meio careca e de voz grave. E fios de cabelo saindo da orelha. Que coisa mais feia esse negócio de cabelo na orelha! Aqueles fios duros, grossos e espaçados, tipo os do cabelo do leo Moura, o jogador, saindo da cartilagem. Uma cena dantesca. Um porco-espinho. Fiquei preocupado: será que vai crescer cabelo na minha orelha? É repugnante, nojento como mocotó de véspera, de dar náuseas como dentadura em copo. IRCH!

Um outro sujeito reclamava dos bancos, em geral, e daquela fila, em particular. Mas conformava-se porque, segundo sua teoria, propagada com a autoridade de um Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, daqui a uns dois anos só vai haver três bancos: BB, Bradesco, Itaú. E aí ele se sentirá vingado contra o banco em que estávamos, não citado na sua lista de sobreviventes. Por isso resignou-se à situação. “Só três bancos!”, repetia ele de vez em quando para alimentar sua paciência e sufocar a impaciência, num prognóstico tão pessimista para o sistema bancário brasileiro quanto o dos relatórios do Meryl Linch e do Morgan Stanley Bank.

De repente chega uma velhinha e vai lá para frente, furando legalmente a fila. Enquanto ela espera sua vez, chega outra velhinha mais velhinha ainda, perguntando se aquela era a fila dos velhinhos. A velhinha A vira para a velhinha B e confirma. A velhinha B, mais velhinha do que a velhinha A, pede para passar na frente, pois ela era a mais velhinha dentre as velhinhas. A velhinha A diz que não existe essa sub-regra na fila dos velhinhos. A velhinha B diz que existe, sim senhora. Enfim, começam uma discussão sobre filosofia da fila dos velhinhos.

Foram várias as intervenções no debate. O do cabelo na orelha (ARGH!) disse que a velhinha B deveria passar na frente porque era mais velhinha. O jovem do “causo” do ônibus discordou. Disse que se fosse assim, na fila dos comuns, os mais velhinhos – não tão velhinhos a ponto de ir para a fila dos velhinhos – tinham que passar na frente dos jovens e ele “não ia dar esse mole pros tios nem com os caceta”. O Meirelles baré, presidente do BC, disse que essa discussão será irrelevante daqui a alguns anos, pois só vai haver três bancos.

O caso só foi resolvido por dona Creuza, a reclamona. Para acabar com a discussão, ela decretou que ela, sendo mais velha que A e B, usaria seu direito e seria a primeira da fila dos velhinhos, sendo que B seria a segunda e A, a terceira, como nos velhos problemas de matemática. A não gostou muito, mas, democrata que era, cedeu. Palmas da torcida, feliz com o fim do bate-boca. Com a paz, o atento segurança colocou o revólver de volta ao coldre.

Depois das velhinhas, do cabelo na orelha (BLERGH!), do Greenspan (“só três bancos!”) e do professor e seu ex-aluno, chegou minha vez. Olhei para trás e confesso que senti aquela mórbida satisfação que quem está lá na frente da fila sente ao ver o quanto os outros “novatos” das fila ainda vão ter de esperar. Dei um riso sádico e fui até à caixa, antes que chegasse uma velhinha D.

Problema: não pude pagar porque esqueci o talão de cheque no carro e para efetuar saque com o cartão do banco tem de respeitar um limite máximo. “Pollyana! Pollyana!”. Saí da fila, fui lá fora buscar o talão. Quando voltei, a caixa disse para eu ir direto com ela, no que recebi um olhar fulminante das velhinhas D e E, que haviam chegado.

É claro que não fui. Voltei para o final da fila, onde esperei por mais 52 minutos, tempo suficiente para ouvir mil outras histórias. Mas essas eu conto numa próxima vez. Agora estou preocupado porque descobri que tenho de arranjar outra “coisa” que me tire do sério, pois com a filosofia Pollyana ir ao banco virou lazer.

Na ida ao carro, para pegar o talão, aproveitei para olhar no retrovisor: eu ainda não tenho cabelo na orelha. Blergh! Que nojo!

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6 comentários em “Pollyana vai ao banco

    @jackielineveras disse:
    26/11/2010 às 09:23

    olha, e a gente pensa que ninguém está de olho nas conversas né.. ahaha
    muito boa a história! 🙂

    hilária!

    Aliene disse:
    26/11/2010 às 09:26

    Sou fã desse blog, inclusive indiquei no facebook pra quem gostar de ler…

    Victor Araújo disse:
    26/11/2010 às 09:37

    Wonderful!! Wonderful!! Adorei!! Bravo!! Pois é, por que você parou de escrever crônicas sobre o cotidiano!? Gostei muito do Alan Greenspan “fabricado no PIM, conheça a Amazônia”! Não sei se ele não tava certo… Unibanco, o Itaú já engoliu; Real, o Santander que traçou! Enfim, muito bom!! Abraços!!

    Adrienne disse:
    26/11/2010 às 09:45

    O senhor é boçal, professor. “Fecho éclair”?! É fechiclé!

    Haha!

    =)

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