O Papa é pop

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Escrito em 09 de abril de 2005

A partida de João Paulo II tem gerado certas reflexões em mim. Gostaria de dividi-las com vocês que têm a paciência de ler o que escrevo.

Televisão ligada. Um telejornal transmitia uma das inúmeras coberturas jornalísticas sobre a agonia final do Papa, mais especificamente a que mostrava o comunicado oficial de sua morte. Vi uma multidão de fiéis aglomerados silenciosamente na Praça de São Pedro. Rezavam em uma corrente de oração correspondente a umas cem hidrelétricas de Itaupus. Na minha família e entre amigos, vi pessoas tristes com todo o processo do alquebrado fim de vida do Sumo Pontífice. Eu mesmo sofri ao ver o único papa que minha mente adulta registrou esvair-se em dor, estampada em sua face numa imagem que correu o mundo em jornais e capas de revista.

Eu prefiro uma lembrança mais bonita do rosado rosto de Karol Wojtyla. Ela guarda um sorriso dirigido, junto com um aceno, a mim, um menino de doze anos, semi-escondido ao lado de uma árvore. O papamovel passou, o Papa acenou e sorriu. Era 1980. A imagem que mais me tocou e enterneceu, no entanto, levando-me à reflexão que agora faço, foi a de uma jovem de não mais de 20 anos chorando, em silêncio, uma lágrima de tristeza e vazio no momento do anúncio oficial da morte de João Paulo II. Chicobuarqueanamente, seus olhos estavam  embotados de silêncio e lágrimas.

Que relação impessoal e ao mesmo tempo tão pessoal é essa que nos leva a chorar dolorosamente por alguém com quem nunca sequer conversamos? Como explicar esse choro doído da jovem, suas lágrimas pingando no piso frio da Praça de São Pedro, lavando com sua dor o paralelepípedo inerte? Como compreender essa sensação de perda de alguém com quem não possuímos vínculos diretos de relacionamento? Por que eu, um católico infreqüente, me peguei abatido, na varanda, rezando por João Paulo II? Parei pra pensar.

No curso da vida há relações sociais oficiais e reconhecidas: pai, mãe, irmão, tios, tias, primos, amigos de trabalho, namorados, namoradas, conhecidos próximos e distantes. Paralela a elas, há também uma espécie de rol de amor não declarado. São pessoas cuja importância apagamos porque não as percebemos. Invisivelmente fazem parte de nossa vida e de nossa história sem o devido registro nos compêndios de nossa memória declarada. Gente que atravessa nossa existência, influenciando decisões, realizando por nós aquilo que está fora de nosso alcance, representando no mundo nossos pedaços mais fracos. Pessoas cujas ausências revelam as presenças fortes e nos surpreendem pelo pedaço que levam de nós quando se vão.

Ayrton Senna era uma delas. Senna representava o campeão presente em nós, mas desconhecido por nós, brasileiros sofridos sem a infra-estrutura na vida que ele tinha nos boxes. Ele era nós. Ele nos preenchia. Quando se foi, morremos um pouco. Tancredo Neves representava a democracia que nos roubaram. Naquele homem falava a voz de milhões de pessoas que gritavam pelas Diretas-Já. Por isso choramos quando o porta-voz da presidência anunciou em rede nacional sua ida. Os Mamonas Assassinas eram representantes de nós próprios, eram nossa versão moleque. Um lado moleque que as normas e regras sociais da adultidade não nos permitem viver na plenitude sem olhares cortantes de censura. Por isso, ficamos tristes com o desaparecimento do grupo. Com ele, espatifou-se também a forma de realizar o deboche que adoramos e que um adulto não pode fazer sem cair no rótulo do ridículo.

A pouca leitura em psicanálise tem me ajudado a compreender bastante o papel fundamental da falta na importância dos laços. As relações inexplicáveis de que falo ajudam a entender um pouco os fãs, que acham em seus ídolos os espelhos da ausência de si. O Papa representava a fé, a ligação com Deus que não achávamos por conta própria. Sob esse ponto de vista, João Paulo II era um fusível da fé. Sua perda significa a perda da compensação da fé que não consiguimos ter. Quem vai ter fé por nós agora? Quem vai completar e avalizar para Deus o que nos falta? O camerlengo, cardeal que governa a igreja interinamente, não resolve. É uma gambiarra que não tem a história e a memória papal. É um clipe que colocamos para que não se rompa a corrente de energia entre nós e Deus, mas que não vai durar muito tempo. Os fiéis da Praça de São Pedro rezavam por si. Em minha varanda, eu me entristecia pela minha ausência da igreja. A bela e triste jovem chorava por ela mesma.

Ainda que sejam inconscientes, esses processos não possuem um lado só. Há os que privilegiam o lado da rejeição à tradição, a tudo que está estabelecido. A isso chamamos de iconoclastia. “Dane-se o Papa!”, “Os Mamonas morreram? Já vão tarde…”, “O casamento é uma instituição falida”. Essas são frases típicas de um iconoclasta, alguém que ataca os ícones sociais porque ele próprio aceita o reflexo de si no que critica. O iconoclasta está sempre fortemente presente no que ataca, ainda que não aceite e não o saiba. O iconoclasta é um sujeito incapaz de lidar com sua multiplicidade e, mais, com suas limitações só realizáveis por meio de um processo de convivência, transferência e realizações dessas limitações no social, através de pessoas públicas ou não, famosas ou anônimas, fatos, ícones. O iconoclasta não chora, engole o choro. Não vive o luto, vive em luto. Não aceita, se rejeita. Não vive a plenitude da incompletude ontológica do ser humano. Vive a mentira da auto-realização independente. Dialeticamente, o iconoclasta revela seu compromisso com a coisa negada ao negá-la.

O pensador Michel de Certeau dizia que reinventamos o cotidiano. As normas, regras e leis que não podemos mexer nos fazem, pela natureza movente do ser humano, criar o diferente dentro do mesmo. Só que esse mesmo não é o mesmo depois da apropriação individual. Jogamos diferentemente o jogo do xadrez social, possuidor de regras que não podemos alterar. As regras são as do xadrez, mas os movimentos das peças são a nossa apropriação dessas regras, a individualização do social. Crer que o xadrez se joga sempre através da mesma seqüência de movimentos não é jogar xadrez. Há regras, mas há vida. Chutar o tabuleiro em nome de um tudo-pode inconseqüente é igualmente não jogar xadrez. Há vida, mas há regras.

Os nossos movimentos na vida são possíveis através das regras que respeitamos e reinventamos ao mesmo tempo. Há vida e há regras. Entender isso é reconhecer que somos limitados, incompletos e dependentes. É aceitar que necessitamos de ordem para extrapolar limites, para completar incompletudes e para declarar a independência, pelo menos no plano consciente. Essa forma de pensar nos tira do isolamento, nos faz valorizar o outro que nos completa.  Viver a ambivalência nos torna pop, no sentido de seres pertencentes a um espaço social, coletivo, interdependente e diverso. Nesse sentido, o Papa João Paulo II era pop. Quão pop somos nós?

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2 comentários em “O Papa é pop

    Mimi disse:
    01/05/2011 às 22:07

    Belo texto. Lembrei-me que nesse período de sua morte, era militar. Nao esqueço de todos em forma enquanto o CMT do BTL deu a ordem ao corneteiro para o toque de silencio, lindo, porém triste, mais triste pelo que representava: o luto. Rolou pela minha face uma lagrima solitária. No meu pensamento quando criança, este Papa seria eterno, ele Nao morreria. Talvez ainda pensasse assim…Inconscientemente…

    Bento XVI | disse:
    11/02/2013 às 09:04

    […] cara rosada ainda está viva na minha memória. Quando morreu, em 2005, eu senti muito e escrevi esse texto. O Papa morreu. O Papa era o apelido do Karol Wojtyła na minha cabeça, como Bibi é o apelido do […]

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