Cadê o pai do Poko?

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Não basta ser pai, tem de participar. Não era esse o slogan daquela pomada? Pois é. Sempre que posso, leio para minhas filhas e assisto com elas aos desenhos na Discovery Kids. Marina, nove meses, escolhe os seus pelas cores e sons.  Clara, um ano e dez e com a língua solta, aprecia uns e ignora outros por critérios particulares que ainda não consegui definir bem. Ela gosta especialmente de Backyardigans, de Poko, de Caillou e de Jakers!.

Quando assistimos juntos, busco não ser passivo e sempre pergunto sobre a cena na tela. O que o Piggley está comendo? Por que o Poko fez isso? Como é o nome do gato do Caillou? Qual é a cor do Pablo? E por aí vai. Nisso ela vai respondendo e a gente vai cumprindo nosso papel de pai e filha, criando laços e costurando a noção de família.

Trabalhando com a linguagem, é inevitável que eu olhe os desenhos também com um olhar discursivo. Percebo que eles se enquadram em dois grandes grupos: os do com família e o dos sem família. Os Backyadigans são cinco amiguinhos que brincam juntos no quintal de suas casas, usando a imaginação, e cujos pais nunca vimos. Idem o Poko, um menino cacheado cujas aventuras sempre começam com ele sendo acordado por Minus, seu cachorro, nunca por um afago da mãe ou do pai, como acontece com a Clara e com a Marina todo santo dia. Já o Caillou, um menino de quatro de anos, e o Piggley, o porquinho de Jakers!, têm pai, mãe e irmãos. Os pais impõem limites e servem de colo para as situações difíceis, em ambos. Como deve ser.

A maneira como a realidade se apresenta e se organiza por meio da linguagem não passa despercebida na formação de nossos valores. Pelo contrário: é determinante. Somos o que aprendemos a ser pela exposição aos fatos do mundo vivido durante o tempo que temos sido.  Uma cultura que valoriza o individualismo e relega a família a um papel secundário vai refletir esses valores em suas práticas cotidianas e culturais. Não é por acaso que os dois desenhos dos sem família são produções norte-americanas. E também não à toa que Caillou e Jakers! não o são.  Poderíamos estender a análise aos quadrinhos: enquanto a Mônica e sua turma têm núcleos familiares, os personagens da Disney são sobrinhos sem pais, vós sem filhos, tios sem irmãos. Essas organizações familiares (ou a falta delas) expostas em produtos culturais vão tecendo o inconsciente da criança que os consome e vão formando o imaginário de família em suas cabecinhas.

Por isso é fundamental que nós, pais, nos perguntemos que valores estão sendo oferecidos aos nossos pequeninos por um programa, por uma música, por um evento. Não se trata de indagar sobre o conteúdo manifesto, mas sobre o conteúdo latente, que está ali fomentando conceitos e padrões. Discurso não é o que está sendo dito nas palavras, mas o que está sendo feito com a linguagem na nossa estruturação subjetiva em termos conceituais.

A questão não é proibir minha filha de ver os desenhos de que ela gosta e que, no caso, ignoram a família. Mas balancear a sua exposição a esses desenhos com produtos culturais que enfatizem aquilo que a mãe e eu acreditamos que sejam valores desejáveis, como a família ser fundamental na vida de uma pessoa. Antenada, a Clara já sacou e me perguntou um dia desses: pai, cadê o pai do Poko? Ela ter sentido falta é um bom sinal.

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7 comentários em “Cadê o pai do Poko?

    Davidson Silva disse:
    14/12/2010 às 12:15

    Sergio, gostei muito da análise dos desenhos. Impressionante como algumas coisas passam despercebidas.

    Lívia disse:
    14/12/2010 às 19:49

    como diz a Adrienne: sensacional!!!

    Hildegarhd disse:
    18/12/2010 às 09:06

    Maravilhoso olhar, concordo com todas as vírgulas.
    Não tenho filhos, mas trabalho com cultura e me preocupo bastante com essa forma de olhar, e garanto a Clara e a Nina serão “gente grande” capazes de multiplicar esse cuidado que recebeu, coisa cada vez mais difícil…
    Eu sou fascinado pela TV Brasil, me encanto o tempo todo com a qualidade de suas histórias, são sequencias de conteúdos extremamente planejados para o despertar de cada fase desde criança, pena que poucos são os pais que cumprem seus papéis de trocar experiências através de 1 simples desenho animado na tv.

      Marcos Dantas disse:
      26/12/2010 às 22:47

      Não concordo em alguns pontos. É bem verdade que deve ser ensinado aos pequenos que família é tudo, mas quando se cria algo para o entretenimento, às vezes o único intuito é entreter. No caso dos quadrinhos e desenhos americanos, acredito que eles só transmitem um pouco da realidade vivida lá. A unidade familiar, “de casinha de madeira e cerca branca” só sobreviveu em poucos lares e nos filmes. Assim como aqui no Brasil já existem várias refências aos “fidivó” (filhos de vó), lá a separação da família, seja por qualquer motivo, é representada. Minha opnião.

    Talitha disse:
    26/12/2010 às 23:55

    Sua análise foi perfeita… Eu amo desenhos animados e tenho uma filha que tb adora, passamos horas assistindo juntas, e tb tenho o costume de indagár as cenas!
    Parabéns pelo blog… e pelas certeiras palavras que aqui encontrei!
    Feliz 2011.
    Siga-me: nossapedagogia.blogspot.com, ou em: enquantoamariadorme.blogspot.com e por último no: jovensparasempre01.blogspot.com!

    Nelgia disse:
    12/05/2011 às 02:08

    A Mel gosta muito de Angelina Ballerina e Sid o Cientista, ambos enfatizam bastante o nucleo familiar, mas nunca tinha parado para analisar esses laços nos outros desenhos, não seria só coincidencia nao, Sérgio?

    Fernanda disse:
    15/08/2014 às 20:15

    Nota dez para seus comentários. Tenho três filhas, de dois, quatro e seis anos. Evitamos ao máximo colocá-las em frente à televisão exatamente por não querermos que absorvam certos valores que consideramos inadequados. Aqui em casa a Tv estragou faz dois meses e ninguém mais assiste na verdade e nem sentem falta, relegando este momento para a casa dos avós! A Tv é feita para vender através do lazer e por isso não é fonte confiável de educação e entretenimento infantil.
    Na época que o canal de desenhos veiculava o Toot e Puddle esta animação foi proibida em nossa família. Considerávamos o contexto imoral.
    Parabéns pelo seu raciocínio, suas filha serão adultas felizes.

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