Quando a água é muito limpa…

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O ser humano é um animal na natureza, como animais são o peixe e o pássaro. O pássaro está programado para voar e o peixe pra nadar e nós, humanos, estamos programados para falar. Possuímos a capacidade inata da linguagem. Diferente da dos outros animais, a linguagem humana é simbólica e, por isso, aprendemos com o idioma valores éticos, morais, jurídicos, enfim, uma série de parâmetros que vão guiar nossos atos para vivermos em sociedade. Aí começa a coisa.

Não podemos, como fazem os demais animais, dar vazão aos nossos impulsos e desejos na hora em que eles aparecem. Não podemos nos apropriar do bem alheio, da mulher do próximo, dizer tudo que desejamos, fazer o que nos dá na telha. Somos bloqueados nessas vontades. Confessemos: queremos muitas vezes, mas não podemos. Estamos limitados pelos filtros sociais que a linguagem nos impõe. É a linguagem que separa o homem da natureza. Até aí parece tudo normal, não é? Parece, mas há um detalhe.

O detalhe é que esse desejo não realizado, que se chama pulsão, não se apaga. Ela vai para algum lugar, uma espécie de gavetão do proibidão. É lá nesse gavetão, chamado inconsciente, que os desejos reprimidos ficam armazenados. Mas por serem pulsões, pulsam inquietos doidos para sair de lá. Como na lei da física, as pulsões vão se acumulando e o espaço vai ficando pequeno demais para tanta vontade reprimida, recalcada. É preciso aliviar. Como vem o alívio?

Quantas vezes você se pega surpreendido por si mesmo dizendo coisas ou nomes que não deveriam estar ali naquela frase? Atos falhos e lapsos são o tchiiiii da panela de pressão. É por um nome dito foras de hora ou por meio de uma frase que foge ao controle da consciência da linguagem que os desejos acham os seus caminhos para fugir da prisão do inconsciente. Sacou por que você chamou o seu namorado atual pelo nome do ex ou a sua mulher pelo nome daquela gostosa que você queria pegar? Entendeu a razão de aquela palavra vir ali por conta própria lhe embaraçando todo e lhe embaralhando a vida? Pois é. É o tchiiiii.

Mas são os sonhos os melhores palcos da vazão do recalcado. Quando dormimos, abrem-se as porteiras dos desejos e dançam-se os bailes funk do proibidão do inconsciente. Por isso você aparece em lugares que você de alguma forma quer e não pode estar, fazendo coisas estranhas que seu eu consciente nunca faria, com pessoas que os seus filtros jamais deixariam contracenar com você na vida real. Não por falta de vontade, mas por falta de possibilidade social. Vale tudo no sonho. Mas a mente é esperta e nem sempre entrega tudo de bandeja. Às vezes ela metaforiza coisas por pessoas e pessoas por lugares. Fazer amor com o presidente Lula no sonho pode representar uma vontade reprimida de dormir com o poder. Péssimo exemplo, reconheço. Desculpa. Cobrir alguém do Twitter de porrada no sonho representa uma resistência ao próprio Twitter por algum motivo ou pode ser ciúme dessa pessoa pura e simplesmente. Freud dizia que um charuto às vezes é só um charuto mesmo.

O meu ponto aqui neste texto é o seguinte: pela linguagem usada, podemos ler muito mais do que um idioma. Podemos ler o próprio sujeito e seus desejos. A linguagem vaza os desejos contidos. Saber ler essas marcas, os tchiiiiis, revela muito das pessoas com quem convivemos. Quando a gente diz, a gente sempre se diz junto.

O Twitter é um prato cheio para análises. Se tivesse som, seria uma sinfonia de tchiiiis. Os RTs quase sempre são desejos reprimidos sendo falados pelos outros. Eu não posso falar algo, mas pego carona em alguém que falou e me digo por ele, aliviando minha pulsão. DMs são pulsões seguras, que morreriam de medo de passear pela timeline. Mas nós mesmos nos traímos em 140 caracteres e vez por outra largamos algo que não era para sair, mas que encontrou seu caminho. E algumas pessoas conseguem ler o tweet aparentemente sem nexo, solto, sem sentido. Porque ele é grávido de sentidos, ligado a uma rede de memória que veio antes e que vai continuar depois. Todo sentido vem de um lugar e aponta para outro. Ninguém usa a linguagem impunemente. É isso.

Termino com esse tweet que pesquei agora: “Quando eu era criança, às vezes eu falava sozinho e todos me chamavam de louco. Eu cresci, agora não é mais loucura. Tá na moda, é Twitter”. Twitter, é vero, não é a loucura. É mais uma forma de não explodir as pulsões confinadas. Tem gente que come, tem gente que faz sexo, tem gente que joga. Tem gente que acha defeito em tudo, tem gente que tuíta. E tem gente que escreve.

Diz a letra de Há tempos, do Legião Urbana: “Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa…”. Não me iludo. Sob a água limpa, há a não potável que mata a sede. Eu me escrevo aqui. Você já aprendeu a me ler, leitor? Qualquer coisa, DM 😉

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9 comentários em “Quando a água é muito limpa…

    Marcela Ortolan disse:
    25/12/2010 às 23:27

    Muito bem. Tio Sig ficaria orgilhoso, fez a lição de casa direitinho. Há tempo é um ato falho? É isso? É uma boa hipótese. Boa até demais. Essa frase já me fez refletir tanto talvez o melhor não seja o significado, mas o caminho para chegar lá. Chiiii. Um grande abraço @_Maga

      Sérgio Freire respondido:
      26/12/2010 às 09:11

      Não é o dado. O que é interessa é a dadidade do dado, como o dado virou dado. O percurso me fascina.

      Bíola Garcia disse:
      26/12/2010 às 12:17

      Compartilho do mesmo sentimento de que depois do Twitter, minha loucura de falar sozinha entrou na moda. E confesso, sempre tive certa resistência a redes sociais e muitas vezes fui até ‘judgmental’ em relação a tal “exposição” ,mas isso era nada mais do que minha consciência do poder dessa forma de linguagem, do meu crédulo de que a partir do momento que se compartilha/posta/tuíta um escrito ou um pensamento, independente de assinatura eletrônica ou copyrights,este deixa de ser somente seu. E para aliviar essas as pulsões bloqueadas ou socialmente ou por nós mesmos,de bem inventaram os blogs não-públicos, posts com cadeado e Moleskines (Ufa!) rs.. De fato,Sérgio, nossos twitters,posts,status d msn ou fb são os nossos próprios ‘Wikileaks’ , de nossas pulsões.
      Tchiiiieers! o/

      É. Adorei o texto.

    Elis disse:
    26/12/2010 às 00:17

    Muito bom!!!
    Concordo que o twitter é um desabafo pros Tchiiis !
    =**

    Larissa Veiga disse:
    26/12/2010 às 12:29

    Posso dar um RT nesse texto maravilhoso? 🙂

    Paulo Medeiros disse:
    02/01/2011 às 17:50

    Feliz 2011 professor. E aí, o que o senhor achou do discurso da Dilma?
    Abraços

    Danielle Viviane disse:
    06/01/2011 às 15:26

    Amei o texto!!
    Mas deixou-me um tanto preocupada, pois pude detectar uns tchiiis da minha vida! rs
    Ué, mas não fazia nenhum sentido… Fez-me ver que há muito sobre mim que nem eu sei! rs
    Bjos!
    Feliz Ano Novo!
    @danivivian

    Italo Pardauil disse:
    02/02/2011 às 09:31

    Muito legal, ontem 01-02-11, estava escutando o programa Mesa de bar da 101,5 e ouvi um pouco da sua entrevista e encontrei seu blog. Parabéns pelo seu sucesso. Abraço.

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