Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.

6 comentários em “Catando conchas

    Monica Melo disse:
    08/01/2011 às 00:16

    Hoje escrevi no FC e brinquei na escola dos meus filhos sobre o que cobrarei no futuro após todo o investimento que tenho feito neles. A certeza de colher bons frutos está nesta criação que temos dado. Você e Bia pelos relatos não estão fazendo diferente. Carinho, respeito, dedicação, amor, cumplicidade, valorização e inúmeras outras açoes fazem parte do nosso cotidiano com nossos pequenos. Eu um pouco mais adiantada pois minha Ligia já tem 10 anos e meu Guilherme 5 anos mas cada dia tem o seu momento e cada idade as suas fazes a serem administradas.
    Penso como você quando no texto fazes referência a segurança que fornecemos com nossas mãos e cuidados e que num futuro bem próximo eles estarão a própria sorte. Mas também tenho a certeza de que neste tempo somente Cristo segurará a mão de nossos filhos pois eles já estarão seguindo seus mais diversos caminhos e essa segurança será suficiente.
    Oro por isso todos os dias pra que cresçam em estatura e graça diante de Deus e dos Homens.
    Agora que conheco, mesmo que virtualmente, duas lindas pérolas (tuas filhas), passo a incluí-los em minhas orações pra que Deus fortaleça tua fé e teu amor, renove tuas forças como já te escrevi, e aumente tua sabedoria na criação das meninas e condução da tua familia.
    Deus abençoe sempre!
    Conte comigo mesmo que virtualmente!

      Sérgio Freire respondido:
      08/01/2011 às 00:20

      Obrigado, Monica. Fiquei verdadeiramente tocado com seu comentário. =)

    Chris Ferreira disse:
    08/01/2011 às 01:39

    Falar de filhos é sempre emocionante.. E deixá-los crescer, uma angústia..
    Será que tudo que ensinamos será colocado em prática? Será que o mundo terá por eles o cuidado que sempre tivemos?
    Mas eles tem que sair, viver, conhecer o mundo, levar seus tombos, e voltar, eventualmente, para o nosso colo pra chorar, esquecer a dor, e voltar a encarar suas escolhas.
    Digo que, depois que estão adultos, só podemos confiar na educação que demos e rezar muito.. Hoje em dia, estou na fase da reze e do colo eventual.
    Mas existe o outro lado da moeda. Vê-los sair pro mundo e vencer dá um orgulho gigante. Ver cada conquista, cada dificuldade superada sem que você precisasse fazer nada além de estar lá pra aplaudir, é gratificante. Dá a sensação de dever cumprido.
    E os netos.. depois falamos dos netos…
    Beijos e parabéns pelo texto mais uma vez..

    Carolina Coelho disse:
    08/01/2011 às 07:26

    tsc, tsc, tsc… Sérgio Freire me fazendo chorar na frente do computador… shame on me!

    Fanny Barbosa disse:
    08/01/2011 às 12:30

    Sérgio muito bom o texto

    Hellen Belmont disse:
    23/01/2011 às 13:05

    Simplesmente lindo, doce!
    Fez-me lembrar de minha infância, de meu amado pai que já partiu e que a felicidade é de fato uma colcha de retalhos…

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