Os cisnes que nos habitam

Postado em Atualizado em

“Quero falar de sua mania de negar o que é
e de explicar o que não é”.
Edgar Allan Poe
Duplo Assassinato na Rua Morgue

As contradições internas de nossa subjetividade e a dificuldade de se lidar com elas. É esse o tema de fundo de Cisne Negro (Black Swan). Assisti ao filme e gostei demais.

À primeira vista, a bailaria Nina Sayers (Natalie Portman, magnífica e merecedora do Oscar) é movida pelo desejo de superação. Quer se tornar a “prima ballerina” da companhia de Thomas Leroy (Vincent Cassel). Uma parede psicológica, no entanto, precisa ser superada: O Lago dos Cisnes, o balé de Tchaikovsky, que Leroy decide montar e que serve de trigger para os conflitos.

Para Nina, viver Odette, o “Cisne Branco”, não é problema. Ela é a própria metáfora do cisne branco: pura e inocente. Seu desafio é a interpretação de Odile, o “Cisne Negro”, o seu outro, a sensualidade, a  sedução. O público acompanha a desintegração de sua sanidade enquanto ela enfrenta a pressão do diretor, a projeção da mãe superprotetora  (Barbara Hershey) e a chegada de uma bailarina concorrente (Mila Kunis), em si própria um cisne negro por default.

Acompanhei o filme pensando em duas coisas: os conflitos internos que compõem a subjetividade e a relação da histórias com os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário, do psicanalista Jacques Lacan. Vou de trás para frente.

Longe de querer simplificar e rasterizer os conceitos lacanianos, tentarei trazê-los para parâmetros de reflexão sobre o tema. Para Lacan, quando o indivíduo entra na linguagem, ele se subjetiva e se desnaturaliza. A linguagem se interpõe entre o sujeito e seus desejos, suas querências. Não dá mais para realizar o gozo dos desejos animais porque a linguagem nos ensina valores, conceitos e regras que nos limitam em nossas ações e omissões. A linguagem, que é o Simbólico,  carrega os sentidos do mundo que aprendemos, monta o nosso mapa conceitual desse mundo, muitos conceitos dos quais não temos domínio sobre. É um processo do inconsciente. Esse mapa, o conjunto de imagens, é o Imaginário. Mas para onde vão os desejos represados pelo simbólico? Vão para o inconsciente, em forma de pulsão e lá ficam malucos para sair. Saem às vezes em atos falhos e lapsos. Aquilo que o sujeito não consegue atingir, o estado bruto, é o Real.

Ok. Lacan em um parágrafo é querer demais. Mas dá para fazer o link com o tema do filme.

Todos nós, por meio da moldagem da linguagem, formamos uma personalidade visível e uma espécie de personalidade pulsional, o outro eu: o cisne negro, no caso de Nina. O branco andava livre, respaldado pela mãe superprotetora, numa naivité característica. O cisne negro de Nina vai ganhando espaço, se realizando na mudança do imaginário quanto a seu papel no mundo. O sujeito normal encontra formas de aliviar a pressão do que é recalcado, mas quando essa pressão é muita, o sujeito quebra, como Nina, que rompe com os limites do Simbólico, deslocando o Imaginário, reconfigurando-o. Ela rompe ao dar-lhe asas quando toma ecstasy e faz sexo com sua rival, quando a mata, quando se liberta da mãe. Desejos. Pulsões. Seu Real é magnificamente pictorizado no filme pela materialização do cisne negro em seu corpo, como se o aparecimento do mesmo fosse a transformação real do corpo humano no corpo do animal. Ela vai perdendo a razão – isso! a razão! – e a sua desrazão vai tomando conta, dando um 180 na parte dominante de sua personalidade. Sai Odette, entra Odile.

E nós, homens banais, que podemos pensar a partir do filme e de sua leitura lacaniana? Papo acadêmico apenas? Como analista de discurso, creio que nem todo academicismo é masturbação teórica. Eu me arrisco no que segue.

Nós, homens banais, precisamos ouvir Tchaicovsky. Metáfora. Necessitamos achar o equilíbrio entre os cisnes que nos habitam. Entre o eu permitido e o eu pulsional. Entre as contradições. Muito recalque, o sujeito implode psiquicamente. Muita alternância, eis que surge um terreno fértil para a esquizofrenia. O sujeito não pode tocar o Real puro. Tocar o Real puro é atingir a loucura. Precisamos do Simbólico a nos definir o Imaginário, que sempre está se movendo, sob o risco de alienação. É imperioso para o sujeito simbolizar o Real, dar-lhe sentido: pela arte, pela música, pela escrita, pelas tatuagens, pelas mil formas que cada um encontra para deixar vazar aquilo que é demais para lidar cara-a-cara. Somos todos, enfim, Odette e Odile.

Nietzsche dizia: “a alegria deve ser buscada não na harmonia, mas na dissonância”. Dou RT em Nietzsche. Porque nada jamais é descoberto: tudo é reencontrado, trazido à tona graças a um gatilho. Por falar nisso, o que que é aquele sinalzinho no rosto da Natalie Portman… =X

Adoro um livrinho chamado “O Real e seu Duplo”, de Clément Rosset. Já o li inúmeras vezes, cada uma de forma diferente. Diz ele: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescritível – o do real a ser percebido -, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sob certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e mostra-se desagradável, a tolerância é suspensa”. Só que o controle dessa tolerância não é nosso…

Quantos cisnes e de que matizes existem dentro de você, leitor? E como eles convivem entre si? Quem subjuga quem? Até quando continuaremos com essa mania de, como diz Poe lá em cima, negar o que é e explicar o que não é?

No fundo, todos nós sabemos muito bem que só viveremos uma vez, que somos um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de cisnes fundidos em um todo. Resumo do texto: dance o ballet da vida com suas contradições e sem medo. Duplo sentido para a palavra suas.

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3 comentários em “Os cisnes que nos habitam

    Lívia disse:
    10/02/2011 às 10:36

    Fantástico, professor!

    Andrews Duque disse:
    10/02/2011 às 14:47

    Também tiver a oportunidade de ver este belo filme. A natureza perfeccionista da protagonista, seus medos, seus outros…percebi o quanto para muito existe a incapacidade de admitir a falha, imperfeição e o incompleto. Ela merece o Oscar.

    Suelen disse:
    25/02/2011 às 19:34

    Gosto é igual aquilo mesmo. Conheço gente que odiou o filme. Assisti Cisne Negro hoje com minha amiga Andreza. AMEI!! Lembrou as primeiras leituras que fiz de Kafka, na metamorfose, depois de Jung, Lacan… Angústia, indignação, sensasão de ‘que doido isso’, arquétipos, … a intrigante perseguição psicológica do eu… AMEI!

    Bjs

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