O Sal da Terra

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Discurso proferido na festa de formatura da Turma de Letras, Língua Inglesa, da Universidade Federal do Amazonas, em 19/02/2011, turma da qual fui paraninfo.

Anda, quero te dizer nenhum segredo/ Falo nesse chão da nossa casa/ Vem que tá na hora de arrumar / Tempo: quero viver mais duzentos anos/ Quero não ferir meu semelhante / Nem por isso quero me ferir/ Vamos precisar de todo mundo/ Pra banir do mundo a opressão/ Para construir a vida nova/ Vamos precisar de muito amor/ A felicidade mora ao lado/ E quem não é tolo pode ver / A paz na Terra, amor!/ O pé na terra/ A paz na Terra, amor!/ O sal da …/ Terra: és o mais bonito dos planetas/ Tão te maltratando por dinheiro/ Tu que és a nave nossa irmã/ Canta, leva tua vida em harmonia/ E nos alimenta com teus frutos/ Tu que és do homem a maçã / Vamos precisar de todo mundo/ Um mais um é sempre mais que dois /Pra melhor juntar as nossas forças/ É só repartir melhor o pão/ Recriar o paraíso agora/ Para merecer quem vem depois / Deixa nascer o amor / Deixa fluir o amor/ Deixa crescer o amor/ Deixa viver o amor/ O sal da terra…

A música e a poesia são caminhos para eternizar na memória afetiva momentos que representam as dobras no origami de nossas vidas. Formar-se: pôr-se numa forma, pôr-se numa fôrma. Que forma, que fôrma? Não, eu não vou assumir a responsabilidade de lhes dizer isso sozinho, mas eu vou assumir a responsabilidade da escolha da música que vai mapear o que eu tenho para lhes dizer. Empresto de Beto Guedes a sua O Sal da Terra.

O que vou lhes dizer, meus queridos amigos, não é nenhum segredo. E lhes trago o óbvio porque no óbvio estão as bonitezas que passam batidas aos olhos acostumados. É preciso desacostumar os olhos para o óbvio. Essa é a matéria prima dos poetas, dos artistas, do bom professor.

Eu falo nesse chão da nossa casa. Falo do nosso planeta. Falo da Terra. Mas estendo a música metaforicamente para o nosso planeta individual, nossa alma, nossa vida, onde moramos. Venham! Aproveitem essa dobra do origami de suas vidas, esse momento de alegria, para junto com os seus arrumarem as coisas, arrumarem a casa naquilo que vocês sabem que precisam de um olhar arrumador.

Tempo: quem não quer viver duzentos anos? A nossa forma de se perenizar é estar presente em quem por nossa vida passa, nas conversas, na sala de aula, no carinho, nos ombros, nos silêncios, nos conselhos. Mais longevos seremos quanto mais não ferirmos os nossos semelhantes, quanto menos nos ferirmos. Nós temos o desafio de fazer com que cada pessoa que venha até nós, ao sair do nosso encontro, saia uma pessoa melhor, mais feliz, menos amarga. E isso não é um trabalho individual: nós vamos precisar de todo mundo para banir do mundo a opressão.

Não, isso não é idealismo piegas. O que torna a leitura desse desejo algo piegas é a incapacidade embrutecida de alguns que já desistiram. São esses, meus lindos, que precisam de nós que resistimos acreditando na amizade, no afeto, no amor. Eu acredito no amor. Nós vamos precisar de todo amor para construir a vida nova.

Ser feliz. Guimarães Rosa diz que “a infelicidade é questão de prefixo”. Quem sou eu para discordar de alguém que diz que “professor nem sempre é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”. Eu aprendi, meus queridos amigos, que ser feliz é uma escolha. A escolha de eliminar o prefixo. Vamos lá! Vocês se graduaram em Letras! Vocês sabem do que eu estou falando! A felicidade mora ao lado e  quem não é tolo pode ver.

A paz na Terra, meus amores. Precisamos de paz entre os homens. Precisamos de paz entre os pais. Precisamos de pais entre os filhos. Precisamos de paz entre os irmãos. Precisamos de paz entre os amigos, precisamos de paz entre os colegas, precisamos de paz entre professor e aluno. Precisamos construir a paz entre os inimigos. Nós, professores, temos a bela e desafiadora missão de ser construtores de paz, de pontes para serenidade do mundo. Portanto, tenham o pé firme na terra e tenham certeza do que vocês querem, mas não se esqueçam dos preços para chegar lá. Há preços altos. Nenhum objetivo vale subjugar um semelhante. Nenhum.

Ecossistema é muito mais do uma discussão chata sobre meio ambiente. Ecossistema é a nossa própria vida. Ortega y Gasset, filósofo, dizia com propriedade: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”. Cuidem das suas circunstâncias. É de si próprios que vocês estarão cuidando.

Não se maltratem e nem maltratem ninguém por dinheiro. Trabalhem, mas não esqueçam do tempo para os seus. “A abelha fazendo o mel vale o tempo em que não voou”. Sobre o dinheiro, Victor Hugo nos dá a deixa: “Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga ‘Isso é meu!’ só para que fique bem claro quem é o dono de quem”.

Harmonia. Levem suas vidas em harmonia. Quando vocês, jovens, chegarem à minha idade saberão porque sempre eu desejo serenidade ao cumprimentar alguém pelo seu aniversário. Porque a serenidade é um das qualidades mais importantes para lidar com as desigualdades do mundo, com as injustiças da alma, com os caracteres rotos que vez por outra grassam no jardim de nossa existência. A serenidade traz o equilíbrio e o equilíbrio traz a harmonia.

O que estou lhes dizendo, meus queridos amigos, não é nenhum segredo. É o óbvio. Vocês são os frutos dessa Terra. Alimentem quem vier com fome. Vocês são a água do conhecimento. Saciem a sede dos que vierem beber. Nós vamos precisar de todo mundo. Um mais um é sempre mais que dois.

Para melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão. Sejam justos. A justiça é a melhor cama do homem e a injustiça a sua cama de prego. Com justiça, preparemos um mundo melhor para quem vem depois. Precisamos merecer quem vem depois. O mundo não se encerra em nós. Nós é que nos alongamos no mundo. Resta escolher como.

Eu termino pedindo para que vocês ouçam a música do Beto Guedes. Mas mais do que isso: leiam a música de Beto Guedes. E deixem nascer o amor, deixem fluir o amor, deixem crescer o amor, deixem viver o amor. O amor é o sal da terra. Essa é a forma. Essa é a fôrma.

A última frase do professor Sérgio Freire nesse ciclo que finda: Não se apequenem para o mundo pequeno. Sejam felizes, grandes e bonitos, como o mundo, como a vida.

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2 comentários em “O Sal da Terra

    Sandra Toda disse:
    20/02/2011 às 10:49

    A cada escrito seu tenho gratas surpresas, fico extasiada com suas lindas palavras. Nunca tinha ouvido a música “O Sal da Terra”, adorei, amei, muito , mas muito mesmo, linda….. Levarei para minhas aulas….

    Argos Arruda Pinto disse:
    20/12/2011 às 06:45

    Prezado Sérgio,
    Meu nome é Argos Arruda Pinto, tenho 49 anos, moro na capital São Paulo, sou Físico e possuo um grupo no Facebook, um blog e uma comunidade no Orkut onde eu comecei uma campanha. Uma campanha para se fazer de “O Sal da Terra” um Hino Ecológico.
    Navegando pela Net encontrei este seu blog e parabéns por ele.
    Em Belo Horizonte existe um PL para tornar essa música o HE de lá e, em Montes Claros, terra do Beto Guedes, também.
    Está convidado a participar:
    Facebook: http://www.facebook.com/#!/groups/osdt.oh/
    Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=42572172
    Blog: http://www.osaldaterraohinoecologico.blogspot.com
    Espero que muitos visitantes aqui também se interessem. A ideia é a de um Hino Nacional Ecológico.
    Um grande abraço.

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