Em nome do “pai”

Postado em Atualizado em

Fazia um tempo que eu não escrevia sobre política. Aliás,

quase todas as vezes em que escrevo é sob a perspectiva da linguagem, que é minha praia. É menos arriscoso, como diz o sertanejo.

O episódio do prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, me cutucou as vontades. Resumindo para quem não sabe do que estou falando: o prefeito foi à Comunidade Santa Marta, uma área de invasão onde tinha havido mortes por deslizamento. Lá, ficou irritado quando uma moradora, Laudenice Paiva, disse que não estava ali por escolha. O prefeito disse à moradora: “Então morra! morra! morra!”. Depois, ao perguntar de onde a moça era e ouvir dela que era do Pará, Amazonino disparou, “Tá explicado!”. Aqui o vídeo na íntegra, disponibilizado pela própria prefeitura no You Tube.  http://www.youtube.com/watch?v=n7Yaq08MIZY.

Há duas questões principais aqui. Uma é o grave comportamento do prefeito e a outra é a séria questão de fundo, que é a das invasões urbanas. E, para começo de conversa, uma não anula a outra, como quiseram argumentar algumas pessoas no Twitter, dizendo que não interessava discutir a grosseria do prefeito e sim as invasões. Eu acho que interessa discutir as duas coisas.

Um homem público tem de ter equilíbrio, o que parece que faltou ao prefeito. “Mas tem horas que tem de ser assim, na lata!”, argumentou um tuiteiro, dando razão a Amazonino. Discordo. A paciência pedagógica é um dos requisitos daqueles que estão em função pública. Ninguém pode usar uma posição de poder para vomitar nos outros suas angústias, neuras e traumas. É isso que faz com esse país seja a terra do “você sabe com quem está falando?”. É claro que há situações em que gostaríamos de bater na cara de certas pessoas com sandália Havaiana cheia de terra molhada. Mas a posição pública exige serenidade e a educação mínima exige sociabilidade. Eu mesmo, como professor, já quis dar umas palmadas nuns alunos aí, mas a profissão exige fleuma. =). No caso do prefeito, um mínimo de sensibilidade social também não faria mal. Detalhe: fui advertido no Twitter por ter falado em sensibilidade “do conforto do meu ar-condicionado”. E é preciso ser miserável para falar da miséria? Duplo twist carpado argumentativo…

Os comportamentos acerca da atitude de Amazonino foram sintomáticos. Os oposicionistas dilentantes de sempre aproveitaram e caíram matando. Não precisam de motivo. E com motivo então… É da política. Já não gostam do Amazonino, ele levantando a bola para cortar é o paraíso. Os partidários do prefeito que tentaram explicar o fizeram pela velha estratégia da conspiração da oposição infiltrada (a paraense teria sido colocada morando ali pelo PSB há anos já prevendo esse momento, como os espiões da KGB infiltrados na CIA desde bebês). Ou ainda culpando a imprensa que, fazendo o seu papel, registrou o fato. Uma exceção foi imprensa chapa-branca, que, claro, não se culpou, mas recortou no fato o que lhe interessou ou então silenciou, como fizeram algumas pessoas que fosse o prefeito um outro estariam com a jugular tinindo e babando de ódio. Detalhe: silenciar é uma das formas mais contundentes de se pronunciar. Falar sobre outras coisas também. É da política. Bem como defender o mandatário de plantão para defender interesses particulares. Escolhas.

O prefeito ainda foi infeliz no comentário sobre a origem da moça. “É de onde?” “Do Pará!” “Tá explicado…”. E os remendos depois não deram conta do preconceito, que existe circulando por aqui e que Amazonino atualizou em sua fala. Escrevi sobre isso aqui. Muitos preconceituosos defenderam o prefeito, naquela clara transferência de identificação. Muitos prepotentes viram na atitude do prefeito uma vazão de sua própria irritabilidade com o que aquelas pessoas representam e no incômodo que elas trazem. Mas misturar Freud com Amazonino é demais para uma tarde bonita como a de hoje. Deixa quieto.

A outra questão séria que o episódio levantou é a o do crescimento desordenado e, por consequência, do crescimento sem direção da cidade. Manaus incha porque cresce e não desenvolve. A infraestrutura não acompanha. A ocupação de terra é sabidamente, além de um problema social de migração descontrolada, uma questão de profissionalização da ocupação. Líderes profissionais, por assim dizer, grilam, controlam e loteiam áreas na cidade, estimulados pela conivência de políticos populistas, muitos dos quais, fazendo proselitismo político, sentam o pau em invasões. Cinismo conveniente.

Quando estava na secretaria de educação, éramos instados pelo Ministério Público constantemente devido às invasões. Os grupos invadiam e exigiam benfeitorias sociais imediatas como escolas e postos de saúde. Como não se constroem escolas nem postos de saúde em um mês, a confusão era certa, com, muitas vezes, ajuda da falta de razoabilidade do MP, que queria que a prefeitura fosse MacGayver e tirasse leite de pedra. Resolvida a questão, os grupos migravam para outra área de invasão para começar tudo de novo, aumentando os índices de evasão escolar por conta disso. E o MP ia atrás.

Parte do problema se dá pela falta de um Plano Diretor articulado e pelo desinteresse público pela questão. Sem uma grande discussão envolvendo a sociedade civil organizada e o órgãos ligados à questão, estaremos vendo sempre essas tristes cenas de alagamentos e o prefeito, coitado, tendo que se declarar “pai” de Laudenices e de meia Manaus.

Estar nos Trending Topics mundiais do Twitter foi bom por vários motivos. Primeiro, levantou a questão do planejamento urbano, urgente – e o MP poderia dar uma acochada nisso. Depois, evidenciou o quanto uma ação política mal assessorada traz um dano político irreparável. Por fim, mostrou como a imprensa lida com as questões chapa-branca de forma que vai da profissional à movida a jabá. Mas isso é assunto para um outro texto.

Algumas pessoas acharam “engraçada” a cena. Não consigo achar, nem com todo esforço do meu bom humor costumeiro. Morte, miséria, pobreza e insensibilidade continuam sendo assuntos com os quais não sei lidar rindo. Desculpem, vocês que falam ou calam em nome do “pai”. Não consigo ver festa ou graça nisso. E estou com um vergonha tremenda do prefeito da minha cidade. Um quê de enojado e indignado com tudo isso.

Como não sou de desejar morte a ninguém, o prefeito poderia ao menos pedir para sair e ir, sei lá, jogar dominó, já que pedir desculpas à população e aos imigrantes que moram e trabalham nessa terra é  demais para sua vaidade. Passou da dose. Transbordou. Algo foi soterrado com essa história. Fail master. E, claro, aceito discordâncias quanto minha leitura do fato. Aguardo os comentários para saber de onde falam os interlocutores…

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8 comentários em “Em nome do “pai”

    Bruna Coelho disse:
    22/02/2011 às 17:19

    Muito sábio seu comentário se todos pensassem assim infelizmente uma vergonha o que o prefeito fez além de preconceituoso se mostrou de uma forma indelicada e grosseira.

    George Dantas disse:
    22/02/2011 às 17:29

    Parabéns pelo texto, não importa a desqualificação que tentam dar no debate, o que vale é trazer o assunto para mesa da discussão.
    No fundo,observamos a leniência do poder público associado a inércia do MP.
    É isso!

    isobel disse:
    22/02/2011 às 17:43

    Muito boa sua posição sobre o ocorrido. Parabéns.

    Moro em Manaus fazem 14 anos e tenho uma filha. E o que assustou nisto tudo foi a maneira como o Prefeito foi defendido. Usaram a falta de educação, mal entendido dentre outras coisas. Convenha-mos, vindo do Amazonino não é apenas falta de educação. Moro aqui e sei o quanto este Coronel manipula, ameaça e destrata seus eleitores, e o povo desta cidade.

    Enfim, a invasão é crime, mas sabemos que muitas vezes certas invasões tiveram apoio de gente ligada diretamente ao Prefeito. Prefeito que compra votos com pseudo assistencialismo e quando é cobrado por isso trata seus eleitores da forma que vimos. E já vimos isso várias e várias vezes.

    Assim como me envergonho de meu Estado não poder assumir seus filhos, oferecendo no mínimo segurança, emprego e termos que sair em busca de uma melhoria de vida. Me envergonho pelo Prefeito da cidade que escolhi viver, crescer profissionalmente e ter uma vida com dignidade junto a minha linda filha Manauara. Na verdade, acho que me envergonho mesmo é de nossa Política suja.

      Rosilene Bessa disse:
      22/02/2011 às 18:08

      Fiquei chocada e envergonhada. Muito bonita sua crónica , assim como o comentário de isobel, ela disse td que tive vontade de falar.

    Fanny Barbosa disse:
    22/02/2011 às 18:06

    Mandou bem Sérgio,

    A cidade está vivendo um momento de exploção da construção e nenhum orgão fiscaliza essa ocupação desenfreada e louca.
    Amazonino no minímo deveria pedir desculpas, mas a vaidade esse câncer q mantêm a alma dele não vai permitir.

    daniellsantana disse:
    22/02/2011 às 18:32

    Acusate o golpe heim Dr. rsrs #LacanExplica
    : )

      Sérgio Freire respondido:
      22/02/2011 às 19:01

      Privilegio momentos didáticos. 25 anos de magistério explicam… 😉

    Arlindo disse:
    22/02/2011 às 22:50

    Professor,
    acredito que todo cidadão brasileiro pode residir em qualquer Unidade Federativa desse país. O problema está na questão da estrutura, creio que isso não seja um privilégio desse Estado.
    O que não dá para admitir é um homem público como o Amazonino falar o que bem entender em um momento delicado como aquele.
    A sua ação só estimulou a Guerra entre Paraense e Amazonense, definiria com uma xenofobia regional.
    Vivemos em um Estado onde todos se calam em nome desse “pai”.

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