Nós e os paraenses

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Texto publicado no Jornal EM TEMPO, em 12 de abril de 2006. Continua atual… (Veja aqui)

O pedreiro Gilson chamou Aldemir de “paraense”. O ofendido, que é amazonense, respondeu com tiros e o matou. Um vereador disse que a criminalidade em Manaus é alta por causa dos paraenses. Lembram disso?

Há sempre razões históricas nos sentidos coletivos. A rivalidade entre vizinhos é uma forma de marcar espaço, seja geográfico ou simbólico. Dizem os historiadores que a hostilidade entre paraenses e amazonenses remonta ao tempo da borracha, quando a Capitania do Rio Negro era subordinada ao Grão-Pará. A negação do pai, diria Freud. Como os portugueses sofrem com as piadas dos brasileiros, os paraenses sofrem com os chistes dos amazonenses.

Com a Zona Franca, Manaus se desenvolveu, gerou empregos e os paraenses passaram a migrar para cá, passando a ser vistos como rivais competindo por recursos escassos. Diz meu pai que nos anos 60 um bairrismo chegou a ser alimentado nos esportes entre as seleções estaduais. Disputas entre o Paysandu ou Remo contra Nacional ou Rio Negro duraram até metade da década de 70. A rivalidade mingou junto com o futebol.

Esta é a lógica que circula na cabeça de muitos: os paraenses são os outros que vêm ameaçar nossos empregos e, não conseguindo, a nossa paz. A construção do imaginário sobre eles é resultado, entre outras coisas, da imagem coletiva de que o Estado do Pará é campeão de violência, de impunidade e de maus políticos. Essa imagem circula, ganha corpo, se junta com outros motivos e vira verdade coletiva, levada pela língua do vento e redita diariamente de várias formas.

A rixa ganha terreno fértil na internet. No Orkut, há a comunidade “A Haydée é paraense”, se referindo à personagem cleptomaníaca da antiga novela das oito América. Os paraenses contra-atacam chamando os amazonenses de barés, evidenciando o preconceito em relação aos índios como sendo inferiores. A briga descamba para o lado musical: o Calypso emplacou nacionamente, mas o Boi não, riem os paraenses.

A diferença entre grupos é desejável e está no topo da agenda social. O desrespeito por ela leva ao preconceito e à intolerância. Se há gente, há espaço para a divergência. Quando não administrada, ela pode ter conseqüências indesejáveis. Os amazonenses sacaneiam os paraenses por seu Jader Barbalho e esquecem do pau-a-pau Amazonino.

O estereotipo negativo não é privilégio do Norte. São notórias algumas posições pré-construídas no eixo Sul-Sudeste contra nortistas e nordestinos. Todo baiano (de Minas para cima) é porteiro e essa imagem de inferior na hierarquia social é metaforizada, por exemplo, como inferioridade intelectual no convívio de uma sala de aula de doutorado da UNICAMP. Senti na pele o peso da generalização até desfazê-la.

Apelidos, xingamentos, gozações e querelas de vereadores são a face mais amena da intolerância à diferença. As mais graves estão no noticiário diário, como a morte de Gilson ou o fundamentalismo de Bin Laden ou Bush.

Diferença não é deficiência. Mas ignorar que há razões sociais e históricas que mexem com as identidades é ingenuidade. Enquanto essa terra for vendida como o novo Eldorado, pessoas migrarão em busca de vida melhor. Não encontrando, serão levadas à marginalidade, reforçando conceitos genéricos que, pela força da realidade social cruel, acabam virando razão de ofensa mortal. Quem matou Gilson foi a injustiça social. Triste é ver que o preconceito se enraiza e por meio de gente que teria a obrigação de desfazê-lo.

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9 comentários em “Nós e os paraenses

    Prii Oliveira disse:
    22/02/2011 às 08:13

    Maravilhoso o texto , estranho como nos sentimos vítimas quando no sul ou sudeste somos tratados com inferioridade (e isso ocorre, principalmente aos morenos ou pardos) e quando chega aqui nós nos tornamos tão preconceituosos quanto aos que nos ofendem… deveria haver motivos para estarmos unidos, estados são mais desenvolvidos que outros mais as pessoas podem escolher como conviver como próximo. Se com respeito ou se com preconceito. :S

    Raquel Marques disse:
    22/02/2011 às 08:47

    atualíssimo.

    Em nome do pai « disse:
    22/02/2011 às 17:09

    […] que existe circulando por aqui e que Amazonino atualizou em sua fala. Escrevi sobre isso aqui. Muitos preconceituosos defenderam o prefeito, naquela clara transferência de identificação. […]

    J D Z disse:
    01/03/2011 às 16:48

    Sergio freire,essa rivalidade não é de hoje como já é sabido,mas os paraenses são muito arrogantes fazendo com que essa rivalidade aumente a cada dia.
    Com esse episódio entre Amazonino e uma paraense sem terra,a tendencia é aumentar sempre,pois somos desunidos e isso nunca terá fim

      Alberto Lima disse:
      02/05/2011 às 18:57

      Na verdade, nos paraenses, não somos arrogantes.
      Somos sim, superiores!
      Um abraço!

    Xico Branco disse:
    01/03/2011 às 18:34

    Professor, o que estranho nisso tudo é que moro em Manaus desde 1990. Lá em Santarém só ouvia falar bem de Manaus e do povo. Quando vim para cá, dei de cara com essas piadas sobre ser paraense e entrei na onda. Lá agente tem nossa figura da vez personalizada no pai de um ex-deputado (antes radialista e apresentador de TV), conhecidíssmo, nosso AGAPITO; seria nosso Jeca Tatu, acho que ele já nos basta (risos). Aqui, fora o fato das piadas e de eu ter ido trabalhar no distrito, eu ainda sou “mocorongo”. Mas mocorongo, paraense e esportista que sou, nunca consegui levar isso a sério, até mesmo quando percebia um mais exaltado na mesa do bar ou nas esquinas da vida, eu sempre me saia contando piadas dos dois lados ou exaltando nossa amazônia, nosso povo. O termo mocorongo nunca me deixou pra baixo, pois aprendi seu significado muito cedo, ainda nos tempos de seminarista. Ser paraense em Manaus também nunca me foi empecilho pra nada. Já passei por poucas e boas fora de Manaus, quando dizia ser daqui (Manaus). Vez por outras, usando de minha ironia doentia, fui interpelado e tive que falar num elevador em São Paulo: “…sim sou índio, minha roupa e flecha estão lá em cima no quarto. Quer ver?. Noutra, tive que explicar que “aqui há muito num temos caso de tifo e que os elefantes tem sua via exclusiva e os ônibus são blindados contra flechadas”. Já no USA, quando souberam que eu era da Amazônia; fora confundirem Buenos Aires com Brasília (coisa de americano desinformado), eles me rodeavam na mesa do almoço querendo saber das beleza de nossa terra e de nosso povo. Me enchia todo mostrando fotos na internet pra quele monte de gente boquiaberta. Mas voltando lá pro que falei no inicio, em Santarém nunca vejo essa rivalidade, acho que isso pegou mais la pras bandas de Belém mesmo. Ano passado, passeando em Alter do Chão, ouvia muita gente falando bem de Manaus, da copa; que foi melhor pra gente e pra eles (fica mais perto), etc. Como sempre digo, sou Paramanzonense, Santarenauara lá e aqui Manauareno; acima de tudo, um amazônida mocorongoaré (mocorongo + baré). Tenho orgulho!

    Silva Neto disse:
    24/12/2011 às 19:01

    Lembro que antes de vir à Manaus, nunca tinha ouvido esses xenofobismos contra um povo tão cosmopolita como o paraense, até porque, desde pequeno aprendí a respeitar meus próximos, pois era só pegar um carro e estavamos nas melhores prais da costa nordertina e isso seria um problema pra mim e pra meus amigos e famliares se cerregassemos na bagagem qualquer tipo de preconceito contra qualquer naturalilade. Estive em Manaus pela primeira vez em 1991, e percebí um certo tipo de aversão contra meus conterrâneos, mais nada que atingisse minha moral e os meus bons costumes, pois sempre tratei todos bem. Gostei e gosto muito do povo daqui, e nunca tive qualquer tipo de dificuldade em me relacionar com o meu semelhante, prova disso, antes de encontrar minha cara metade, tive várias amizades com com as manus. Deixo o preconceito a pessoas de mente pequena, que nunca sairam desta ilha metropolitana localizada no coração da Amazônia. E as que sairam e não aprenderam nada, recomendo que sejam mais educadas, não somente com os paraenses e sim com vocês mesmos, pois muitos de vocês são descendentes diretos de sim, de paraenses e do resto do mundo.
    Saudações paraenses a todos e feliz Natal e um próspero ano novo.

    Roberto disse:
    22/06/2014 às 14:45

    Caro Sergio,
    Não existe essa Rixa entre paraenses e amazonenses. Ela é unilateral. O Pará sempre recebeu um sem número de imigrantes de diversos locais, principalmente do nordeste, em especial maranhenses, motivados pelos grandes projetos como tucuruí, carajás, serra-pelada, em geral nordestinos pobres que vem em busca de melhoria de vida. A maioria acaba ficando no Pará. Alguns projetos acabam e estes ficam desempregados, vindo muitos a se deslocar para Belém, onde se tornam camelôs, flanelinhas, e é claro que alguns conseguem coisa melhor. Porém, posso afirmar que no Pará, nehuma diferença faz para a população local se você é maranhense, amazonense, amapaense, etc. Para o paraense é tudo igual. O mesmo não pode-se dizer em Manaus, onde os paraenses são de longe os alvos preferidos das piadas, da discriminação e preconceito. Qual o motivo? Em minha opinião, grande parte desse ódio foi passado pelas gerações anteriores que viveram a época em que, Belém, pela localização mais estratégica, por ser uma das maiores cidades do Brasil ( na época era bem maior que Manaus) e outros fatores, recebia tratamento melhor dos governos federais. Outro fator é que postos de emprego em grandes projetos no Amazonas eram ocupados mais por paraenses do que por Amazonenses. Dessa época vem a Sudam, o Basa, o Departamento de Exploração do Norte da Petrobras, todos com sede em Belém. Construíram a Belém-Brasilia e Manaus continuou isolada. Só Belém era escolhida, e isso gerava revolta dos amazonenses da época, e isso foi passado de geração em geração
    Com o tempo, as coisas foram mudando. A Zona Franca de Manaus possibilitou à capital amazonense dar um salto de desenvolvimento e ultrapassar as vizinhas. Mas aquele ódio já estava enraizado e foi passado para as novas gerações.
    Muitos paraenses só tiveram conhecimento desse ódio ao vir para Manaus, e outros, após a escolha do Brasil para a Copa do Mundo, quando a disputa por ser séde gerou troca de insultos nas redes sociais. Foi aí que a maioria dos paraenses descobriu que existe Manaus, como é hoje, bem melhor que Belém, principalmente com Políticos e Governantes muito melhores.

    Roberto disse:
    22/06/2014 às 23:21

    Publiquei um Comentário mas não sei se foi bloqueado. Não há ofensa, nem desrespeito a ninguém e nem termos impróprios. A conclusão que chego baseia-se no Relato de Manauaras de mais idade que me contaram sobre a cidade há anos passados. Isso aconteceu há uns vinte anos, um deles era um motorista de táxi dos seus sessenta e poucos anos que me contou do tempo em que Manaus dependia de Belém para tudo. E como os Manauaras eram revoltados com isso.
    Essa revolta passou para seus filhos e Netos. É a verdade. Mais recentemente o crescimento econômico da Região fez aumentar a imigração e consequentemente, a discrimação. Mas afirmo que é unilateral. Publique para que ossa ser discutido.

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