Um dia, um adeus

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Só você pra dar à minha vida direção, o tom, a cor… /Me fez voltar a ver a luz/ Estrela no deserto a me guiar/Farol no mar da incerteza… /Um dia um adeus/ E eu indo embora…/Quanta loucura por tão pouca aventura…/Agora entendo que andei perdido/ O que é que eu faço pra você me perdoar?…/ Ah! que bom seria se eu pudesse te abraçar/beijar, sentir como a primeira vez… /Te dar o carinho que você merece ter /E eu sei te amar como ninguém mais… /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou…/ /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou como eu, como eu…

Quando o céu é azul e o mar é plácido, o que leva alguém a buscar as nuvens pesadas? O que move alguém a caçar ondas ferozes que podem arrebentar na areia, lhe levando junto? A saída da rota conhecida na busca de estradas vicinais nos afetos pode desviar e fazer se perder do caminho sempre percorrido de forma indelével, irreparável. É só nos descaminhos que se percebe a beleza do caminho que temos por garantido.

Os novos caminhos são meras miragens. Tais quais oásis criados pela mente dos sedentos, as trilhas da aventura não trazem aventura: trazem a falta de rumo, a escuridão, a miragem, assim que se estende a mão para pegá-las. É nessa hora que percebemos, tardiamente talvez, que só aquela pessoa pode dar direção à nossa vida. Ela estava lá e nós caminhamos na direção contrária. Só ela, ali, perfeita, pode nos pôr de volta no tom correto da canção planejada a dois. Só ela pode nos avivar a cor à vida do pálido trapo em que nós, aventureiros ignóbeis, nos tornamos. Só ela nos conhece mais do que nós mesmos.

Será que não dava para ver que aquela pessoa é a luz a nos guiar no deserto desse latifúndio maluco que é a vida? Será que a cegueira pelo prazer fast-food sempre apaga mesmo a luz do farol que nos leva a salvo à terra firme das escolhas afetivas no mar das incertezas dos relacionamentos? Quanta loucura…

Mesmo com todo o calor, a certeza, a luz, a cor, o tom, a gente às vezes ousa ir. Irracional escolha. Arrisca a própria vida, o próprio equilíbrio, a própria aposta certa de duas pessoas que construíram castelos de sonhos, que desenharam seu reino perfeito e nele tudo investiram. Por tão pouca aventura…

E rotos voltamos. Mendigos de dignidade, moral esfarrapada pelos arames-farpados dos descaminhos. Retornamos fedorentos pelos odores de trilhas cheias de capim-navalha que nos cortou, além das carnes, também a alma. A alma cabisbaixa… os olhos sem força para se erguerem, com vergonha da luz, que tanto guiou, que tanto afinou o tom, que tanto retocou impecavelmente a cor…

E aí, nessa hora, cai a ficha. Tudo foi puerilmente posto em jogo. Um jogo com fichas com as quais não se joga. Um jogo em que nem se entra para jogar, porque todo jogo traz a possibilidade da derrota. E o que o leva quem já obteve a maior vitória à roleta russa da infelicidade?

Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

Tão certo quanto o dia amanhece, no entanto, a luz ainda ilumina nosso rosto marcado por pesadas lágrimas de pesar… Caminhos negros trilham e riscam rosto abaixo nos caminhos das lágrimas… negros da sujeira que nos cobre… A luz, límpida como sempre, agora ofusca os olhos que andaram desacostumado da luz na escuridão da perdição. Sim, andamos perdidos… E agora? Sem forças… sem voz… sem chances… Como retornar à direção? Como ganhar a cor pelas mãos macias que largamos por vaidade, por desejo fugaz? Como sincronizar o nosso ao coração que, irresponsáveis, colocamos em arritmia? O farol quer se apagar e não há nada para nos apegarmos para não sucumbir… Nem voz sai. Se recusa. Não tem o que dizer… Não depende de nós… Já dependeu. E a escolha foi errada…

Ah, tanta loucura… ah, tão pouca aventura…

Perdão. Só nos resta o fio do perdão. A pergunta vem, com medo da resposta: “o que que eu faço pra você me perdoar?” Com a pergunta, no segundo antes da resposta, feito um acidentado que no minuto da iminente morte vê um filme completo passar na mente, a gente lembra da primeira vez, do beijo, do abraço, dos risos, dos amores, dos momentos, dos olhares, do carinho, do consolo, do companheirismo, dos planos… A gente lembra das milhares de borboletas que levantaram voo no nosso estômago… que bom seria poder beijar, abraçar, sentir como a primeira vez… a luz… está indo… tão pouca aventura… é insano! O farol… apagando… A estrela-guia no deserto… cadê? Quanta loucura…

Que bom seria perceber o prumo da vida que perdemos voltar a aprumar… Que bom seria se nos pudéssemos dar o carinho que essa pessoa merece ter… Nós não a merecemos… Nós fizemos escolhas pela escuridão quando tínhamos a luz presente, aquecendo a vida…

Buscamos, enfim, o apelo final: a promessa da afirmação de que nós sabemos amar essa pessoa como ninguém jamais a amou. Ninguém jamais! Ninguém jamais a amou como nós… Trincamos o cristal que nos servia o melhor champagne do mundo, apedrejamos a luz de nosso próprio farol no mar da vida, esmaecemos a nossa cor, como se estragássemos nosso Van Gogh particular… Mas ninguém jamais a amou como nós. Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

“O que que eu faço pra você me perdoar?”…

5 comentários em “Um dia, um adeus

    kelly drummond disse:
    25/02/2011 às 21:40

    me arrancastes l’agrimas, muitas lagrimas…para quem machuca, a busca do perdao. para quem foi machucado, a busca da solidao solidaria…

    Luana disse:
    25/02/2011 às 21:43

    ” Trincamos o cristal que nos servia a melhor champagne do mundo.”

    Perfeito.

    Sandra Toda disse:
    26/02/2011 às 22:21

    Quanta loucur, … por tão pouca ventura……adoorei….

    Berenice Corrêa disse:
    05/06/2011 às 09:07

    Sempre gostei dessa música por duas razões, por nos lembrar da grande responsabilidade que envolve o uso do nosso livre arbítrio e, especialmente,da possibilidade do perdão verdadeiro, a magia da luz divina, capaz de fazer desaparecer qualquer rachadura desse cristal chamado amor.

    Frank Holanda disse:
    26/07/2012 às 11:20

    Muito lindo e uma grande verdade
    é só ilusão

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