Perigeu e apogeu: o sucesso que afasta

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A lua está no seu perigeu. Na astronomia, perigeu é ponto da órbita de um planeta ou de um satélite em que ele se encontra mais próximo da Terra. Do grego perígeion, perí- (ao redor de) + gê = Terra. Que está ao redor da Terra.  Se perigeu é o ponto mais perto, apogeu é o mais longe. Daí o conceito de apogeu conhecido. “Atingiu o apogeu”, o ponto mais longe onde poderia ter chegado.

Ao ler sobre isso, não pude deixar de refletir sobre as relações humanas. O normal na órbita das relações humanas é o meio-termo, ainda que queiramos a proximidade. Todos nós buscamos, desejamos o perigeu das pessoas queridas. Queremos suas companhias, inventamos motivos para vê-las, compartilhamos risadas e alegrias. Mas são poucos os que estão tão pertos. E a pertidão, a modo de Guimarães Rosa, não tem a ver com presença física. Muitos dos que nos querem bem sequer nos conhecem pessoalmente. Ponto para as redes sociais. No entanto, alguns estão no apogeu, distantes. Ou distanciados. Assim mesmo, na voz passiva.

A minha tese é a de que, binário em sua configuração técnica, o mundo digital está fundando a hegemonia da dualidade, tentando apagar os meio-termos. A ambivalência é um animal em extinção. Estamos vivendo o dilema da visibilidade apogética ou da mediocridade perigética. Quando mais visibilidade você tem, mais as pessoas se incomodam e se distanciam de você. E se distanciam não por silêncio, mas por meio de agressões gratuitas, iconoclastia barata, crítica maldosa ou desonestidade intelectual em relação a você. O apogeu distancia. É como dizia Tom Jobim: no Brasil, sucesso é ofensa pessoal. O apogeu é ofensa pessoal. Por isso, quem o atinge em qualquer área vira alvo do distanciamento. É distanciado, na passiva. Empurrado para longe. É necessário redobrar os cuidados por ser reconhecido, gostado, querido, bem-sucedido. Essas coisas potencializam seu apogeu, que vira ofensa e lhe torna um alvo. Mas há uma opção para ficar fora disso: você abdicar de seu apogeu, seja ele  profissional, comercial, imagético ou pessoal. Sem apogeu, a presença próxima dos outros é maior. Permanecer ali no meio, na mediocridade, aproxima ou, acho mais correto dizer, não lhe afasta. Estranho, mas é preto ou branco. Porque é binário. Cada vez mais.

Em tempos de visibilidade necessária, o paradoxo é a necessidade de manter o low profile para se ter mais paz. Mas se se mantém o low profile na sociedade do espetáculo, você deixa de fazer parte do show e, por consequência, fica à margem da sociedade em rede. É como o efeito Tostines: vende mais porque é fresquinho ou é frequinho porque vende mais? Não aparecer para o mundo para não virar alvo do império da iconoclastia, que não tolera imagens reconhecidas, ou ocupar espaços e levar porrada de todos os lados? Se não se souber lidar com esse bullying do sucesso, o sujeito sofre. Mas pode sofrer menos se não se deixar levar por esse discurso intolerante e dicotômico, que apaga a ambivalência. Na ambivalência está o repouso. Na ambivalência mora o alívio. Na ambivalência dormem os mansos.

Entre oito e oitenta há setenta e duas possibilidades. A armadilha do pensamento binário, dual, é apagar esse intervalo de possibilidades de sentidos. Vive-se num isso ou aquilo ilusoriamente fácil, que empurra para longe a incômoda necessidade de se pensar em si próprio a cada situação. É mais fácil definir a priori: eu sou assim, eu gosto disso, eu odeio aquilo. E, é claro, é mais difícil perguntar: por que me incomodo com o sucesso de meu colega de profissão? Por que o outro pensa diferente de mim? Que razões o levam a crer firmemente em uma opinião diferente da minha? Perguntas dessa natureza rangem as (in)quietudes e mexem com as identidades, hoje cada vez mais retoricamente badaladas como mutantes, mas cada vez mais concretamente arraigadas e ancoradas num fixidez assustadora.

A tese do dualismo que as redes sociais fomentam vem ao encontro de outras que vêm me inquietando. Entre elas, a de que com a ampliação das redes sociais a intolerância tem aumentado e a de que o espaço democrático tem diminuído, a despeito do que propagam por aí. É como diz Bauman, o sociólogo polonês: “A solidariedade, ao contrário da tolerância, que é sua versão mais fraca, significa disposição para lutar; e entrar na luta em prol da diferença alheia, não da própria”. Difícil. Mas isso merece outro texto.

Qual a saída desse labirinto? Eu particularmente resisto a pensar binariamente, a me acomodar nessa lógica fácil. Recuso-me a acreditar que o sol é algo particular que iluminando um não pode iluminar outros. Acredito na possibilidade do sucesso alheio sem que isso me tire a possibilidade do meu. Acredito dos vera que cada um tem o que merece, mas acredito também que é preciso se levantar e ir lá buscar. Continuo a emprestar da psicanálise a ideia de que rejeitamos no outro aquilo que falha em nós, aquilo nos falta ou aquilo que nos sobra. Se  empurramos alguém para longe, que parte de nós que estamos empurrando junto?

A ambivalência nos constitui. A dualidade nos reduz. A diferença é fundamental. O encontro se dá no espaço da ambivalência. E diferença não é deficiência. Mas é preciso mais do que tolerar. É preciso conviver. Diz Baudelaire, em Diários Íntimos: “Se, por algum azar, as pessoas compreendessem umas às outras, nunca seriam capazes de chegar a um acordo”. Chegar a um acordo – consigo próprio, inclusive -, é o desafio.

É engraçado como a lua faz a gente pensar. Mesmo no seu perigeu. Esse é seu apogeu…

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5 comentários em “Perigeu e apogeu: o sucesso que afasta

    Perigeu e apogeu « | Midia Social disse:
    20/03/2011 às 01:19

    […] Excerpt from: Perigeu e apogeu « […]

    Luís Mansuêto disse:
    11/05/2011 às 12:16

    Prof, parabéns pelas sábias e belas palavras. Seus textos são curriculum vitae que nos aproximam de nossos pés de goiabeiras e nos faz subir pelas paredes. São ensinamentos escritos de mãe (ops, pai) para filho. Mesmo no apogeu, continuo no perigeu aprendendo com cada frase escrita e a gostar cada vez mais de linguagem. Parabéns!!!

    Rayssa disse:
    12/10/2012 às 16:05

    Muito bom! Muito mesmo.

    André disse:
    02/02/2013 às 07:55

    Parabens pelo texto…interessante!

    Yulorencio odelino dos santos disse:
    01/09/2013 às 10:52

    PROFESSOR SÉRGIO PARABÉNS PELA MATÉRIA

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