Os cabelos roxos da alma

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ve.lho 1. Que ou aquele que tem idade avançada e geralmente se torna fraco ou doente, em consequência disso: um leão velho; os velhos merecem respeito. 2. Deteriorado pelo uso ou pelo tempo: carro velho; roupa velha. 3. Experiente; tarimbado: um velho motorista da família. 4. Antiquado; arcaico; obsoleto: ideias velhas. 5. Diz-se carinhosamente de qualquer figura célebre da antiguidade: o velho Sócrates. 6. Extremamente conhecido; manjado: lá vem ele com suas velhas desculpas; 7. Que pertence ao passado: os bons velhos tempos. 8. Que existe desde um passado distante: um velho companheiro de escola. 9. Feito ou produzido há muito tempo: um vinho velho. 10. Que tem sentimentos e ideias de uma pessoa mais velha: ela é velha para os anos que tem. 11. Carinhosamente: querido: meu velho pai. Do latim vetulus. 1 velharia (vè) s.f. (1. ação, dito ou coisa própria de velho; 2. traste antigo).

A linguagem é uma senhora sábia. Daquelas que controla a todos sob o manto da neutralidade. Sempre cremos que a  escolhemos e a dominamos quando, coitados, somos escolhidos e determinados por ela. Ao nos imputar seus sentidos de mundo, a velha linguagem nos configura como sujeitos, nos faz ser o que somos e pensar como pensamos.

É preciso desconstruir de início uma velha verdade: os sentidos que a linguagem circula nas palavras que a compõem não são fixos e imutáveis. Eles são plásticos, resilientes, líquidos. Não existe sentido literal. Sentido literal foi invenção de  um velho  dicionarista qualquer.  Todo sentido é conjuntural, depende da realidade, das acontecências. O pé-da-letra não é perfeito: tem joanete e chulé. Como imperfeitas são as velhas regras da gramática que quer aprisionar a língua, carnavalesca e malemolente, em uma valsa de dois pra lá dois pra cá. Luís Fernando Veríssimo diz que a gramática precisa apanhar muito para saber quem é que manda. O próprio Veríssimo se diz um gigolô das palavras. Eu diria que eu sou mais um prostituto da linguagem, a minha cafetina. É ela que manda em mim, dizendo o que posso e o que não posso dizer e fazer.

A minha tese: os sentidos das palavras (que nos determinam) mudam porque o mundo muda. O mundo muda porque o tempo, mano velho, manda. O tempo manda porque ele é vivo, porque ele acontece, porque ele não pede licença. O que foi não é mais. O que era deixou de ser. O que é não será. É assim. E daí algumas angústias contemporâneas.

Nós sofremos porque somos sujeitos de nossa história e por causa dela nossos referenciais de leitura de mundo leem o mundo como leem. Se nos indignamos com um político corrupto é porque ele não considera a ética e o respeito pelo dinheiro público como nós consideramos (ou, talvez, porque gostaríamos de estar no lugar dele, segundo a psicanálise, o que já é uma outra história). Se queremos carinho e presença dos nossos queridos em momentos difíceis, de tristeza, como uma doença do filho, e nos decepcionamos e frustramos quando isso não vem de onde jurávamos que viria é porque acreditamos que nossos queridos não valorizam a presença solidária do jeito que nós valorizamos. Ou seja, os sentidos do mundo estão em nós, não nos outros. Sofremos porque queremos o que temos em nós e não temos dos outros. Sentimentos são efeitos disparados pela coincidência ou não do sentido que esperávamos dos outros. Com o tempo, à medida em que a expectativa de vida das pessoas aumenta, aprendemos a diminuir e redimensionar nossas expectativas em relação às pessoas e ao mundo, velhas utopias da juventude.

Daí que perceber de onde emana o referencial ajuda bastante a não sofrer nesse mundo de sentidos mutantes. Querer mudar os outros e seus modos de agir é tão pretensioso quanto querer apagar o sol. Não é mendigando sentidos iguais aos nossos que melhoramos nossa qualidade de vida. É redimensionando nossas expectativas, tentando compreender o efeito de seus encontros com a realidade. É aquela velha história: quem se deixa levar pelo sentido alheio vive outras vidas e não a sua.

Quando o fulano me xinga, posso confrontá-lo para querer mudar o seu modo de me ver ou posso tentar compreender seu xingamento como um efeito do que eu represento para ele. Se opto pela segunda, não sofro e devolvo a bola para o fulano. Ele que se entenda consigo e com sua necessidade de me xingar. É um alívio para mim, respaldado pela certeza cada vez maior de que não sou responsável pelos sentidos que os outros atribuem ao mundo. Repare: as pessoas da esquerda radical sofrem, ficam doentes, azedos e rabugentos porque querem mudar o mundo para seus referenciais, sem sucesso, claro. Cada Sísifo com sua pedra.

Ei, Sérgio Freire, mas porque aquele verbete de dicionário lá no começo do texto? Pois é. É para mostrar como o sentido de uma palavra pode bailar entre ser algo bom ou ser algo ruim. Velho pode ser algo positivo ou negativo. Olha lá. O sentido não é literal, como eu disse lá em cima em algum lugar. O sentido é sempre conjuntural: “o velho sábio criticava as velhas ideias”. De quantos sentidos essa frase está grávida? “Palavras: cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra … Trouxeste a chave?”. Bate aqui, Drummond.

E já que usei esse verbete como exemplo, falemos do velho e de sua renovação. “O novo envelhece o velho”. Escolha a acepção que você quiser dentre as que estão lá em cima para o velho dessa frase. O CD envelheceu o velho LP. E por não ser mais a novidade, o LP se valorizou. Custa R$ 150 um bolachão dos Beatles feito no Japão. As redes sociais surgiram com sua rapidez comunicacional? Escreva uma carta, à mão, assinada e perfumada, envie para alguém e veja o efeito. Práticas antigas, velhas, viram velhas práticas valorizadas. Como ligar para um velho amigo e perguntar como ele, que esteve doente, está. Ou fazer uma visita para conversar sobre a vida. Ou mandar um cartão de Natal desejando boas festas em sua caligrafia. Comprar as velhas rosas vermelhas num buquê em vez de mandar um cartão digital é o caminho mais fácil para abrir um vinho velho com aquela velha paixão. Vai por mim.

Não. Isso não é uma lamentação ou uma nostalgia piegas de alguém que está ficando velho (escolha de novo a acepção. Já escolhi a minha). É a mera constatação da mudança. Porque muda. É assim. Mas é a constatação também de que a mudança tem como consequência o olhar carinhoso sobre o que se vai e que um dia foi e agora não é mais. Inevitável. Ficar velho é rejuvenescer o sentido e no valor. Para melhor. É lindo o mapa da minha vida que as rugas desenham em minha testa… Usar botox é apagar a história, arrancar os cabelos brancos é matar aquele beijo que nunca aconteceu e que por isso ficou marcado. Quem apaga o passado vive num presente de Alzheimer.

Pense no porquê da valorização de coisas como o slow food, do hiking, das coisas feitas à mão. Mais do que modismo de agenda social, o discurso da sustentabilidade é a nostalgia do bucolismo de um passado distante. Pense no porquê de dizer obrigado e com licença tem efeitos assustadores para certas pessoas. Porque são coisas velhas, que poucos prezam fazer. Porque o velho, como o novo, é bom. Não são excludentes, mas complementares. O velho só deixou de ser novo. Patinou-se pelo tempo. Ganhou histórias e garbo.

É. Como diz um velho provérbio chinês e sua velha sabedoria: a linguagem é uma velha vadia de cabelos roxos. Minha alma deu agora para desfilar por aí de cabelos roxos. E a sua, leitor(a) querido(a)?

3 comentários em “Os cabelos roxos da alma

    Sandra Toda disse:
    27/03/2011 às 11:49

    Cara, amei esse seu novo texto com algumas velhas reflexões, que nos ajudam e muito a cada novo dia. Muito, mas muito verdadeiro. Um beijo!

      Sérgio Freire respondido:
      27/03/2011 às 14:24

      Ah, se a gente soubesse de certas coisas aos 20… 🙂

    Pedro Paulo disse:
    30/03/2011 às 00:08

    Muito bom, como ainda sou “jovem” e de certa forma tinha uma ideia negativa do que é ser velho, seu texto me trouxe novas perspectivas e garanto que vou carregar-las comigo. Valeu Professor! 🙂

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