Casamento? Deixa que eu comento!

Postado em

[Escrito em 23/02/2003]

Estava em um aniversário de uma grande amiga e, inevitável, rolou na roda da conversa de um grupo agradabilíssimo o papo sobre relações pessoais. Mais especificamente sobre casamento. Fato é que essa minha amiga que ofereceu o bolo três camadas está noiva. Discutia-se se a cerimônia formal, terno-gravata e tal, era ou não era um mico para os homens. Os homens da discussão achavam que  era.

Estava observando o papo de longe. Não quis, assim, sabe, falar nada logo de cara para não parecer um boçal. Sabe como é: com dois casamentos no lombo, um terceiro certamente por vir, a gente tem uma certa cancha para opinar com mais propriedade. Mas fiquei na minha até ser solicitado a dar meu pitaco, me sentindo o próprio Drauzio Varela do matrimônio, pronto a ceder meus conhecimentos de pseudo-expert ao grupo.

É ou não mico? Vestir-se de terno, ensaiar com os padrinhos, levar esporro do fotógrafo no ensaio… É ou não é mico, afinal? Acho que é preciso contextualizar melhor o assunto antes de emitir um laudo. Resolvi então dar minha opinião e escrever um pouco sobre o casamento, essa instituição social dita falida, afirmação da qual discordo veementemente para começo de conversa.

Sou a favor do casamento formal, oficial, com tudo que se tem direito. As duas vezes que casei foram assim. O primeiro poderia até ter recebido o prêmio ISO 9002 dos casamentos: namoro de portão com horário para entrar, pedido de noivado com a presença das famílias, curso de noivos – no qual passei raspando, confesso -, ensaio na véspera, passando pelo até-que-a-morte-vos-separe, marcha nupcial, e, claro, a lua-de-mel em Fortaleza. Durou quatro anos. Começou gloriosamente um pouco antes da Copa dos Estados Unidos e terminou, sintomaticamente, um pouco antes do fiasco da Copa da França.

Quando casei a primeira vez, casei para sempre. Juro pela felicidade das noivas em véspera de casório. Só que aí vieram alguns probleminhas de incompatibilidade de gênios, de visão de mundo diferenciada e de ciúmes que culminaram com uma relação que não se sustentava mais. E isso foi a morte. Foi como o prometido: até o dia em que essa morte nos separou. Hoje minha primeira équis está feliz, recasada com um ex-amigo meu –  que é ex-amigo por contra própria, pois ele deixou de falar comigo. À época, o cognato (falso amigo) se ofereceu de ombro acolhedor e tal. Bom, ela hoje está pronta para ser mamãe dentro em breve, coisa que sempre quis e que Deus, sabiamente, adiou para nós. Que sejam felizes.

O segundo casamento foi mais informal no princípio do que o primeiro. Eu e a minha segunda équis unimos nossos trapos e começamos uma vida a dois. Não teve casamento no religioso, apesar da religiosidade de ambos ter falado muito forte durante grande parte da relação. Mas pelo menos teve a indefectível lua-de-mel em Fortaleza. E como sempre caso para sempre, casamos mais tarde também no civil, coletivamente na vara de família. Nosso “sim”, acompanhado de seiscentos outros “sins”, de trezentos outros casais, ecoou por quatro anos. Começou um pouco antes da Copa da França e terminou exatamente durante a Copa do Japão-Coreia.

Mas por que estou eu falando dos meus casamentos? Primeiro, para mostrar que eu acredito mesmo nesse troço. Tanto acredito que casei essas duas vezes dos vera, com perspectivas de me embolar de novo. Nesse negócio de casamento, eu sou tinideira, para usar mais uma expressão do nosso amazonês. Segundo, porque acho que o ser humano é como meia: foi feito para viver em par. Tem uma época da vida que não dá mais para ficar pulando de um lado para outro, feito macaco trapezista. Temos mais é que sossegar o facho e encontrar alguém para misturar calorzinhos à noite, vendo o Jô, comendo pipoca de microondas.

Dito isso, apresentarei algumas considerações mais pontuais baseadas na recorrência dos meus casórios. Ok, tudo bem: são considerações minhas que podem até não servir para ninguém. Também são considerações teóricas que vieram da minha prática e que na prática de outros podem dar tchó. Mas ando tão enxerido ultimamente para dizer o que penso que, feitas essas ressalvas, ouso colocá-las no papel. Ei-las:

Número um: para mim, só deve casar quem estiver disposto a colocar na mesa toda a sua história, suas angústias, felicidades, medos, vergonhas, projetos, gostos e desgostos, para que outro saiba e conheça. Além, é claro, da carteira de identidade para que seja vista a foto. Ver a identidade é essencial para qualquer relação. Argumento contra: “Não! Tem coisas que não tem porque contar para o outro. Uma relação começa a partir do dia xis. Antes disso, não interessa!”. Contra-argumento: se há algo que eu não posso saber, não dá para eu te dar minha vida para o resto dela. Sinto muito. É preciso evitar o que chamo de efeito-surpresa. Acredito cada vez mais que o casamento deva subverter a matemática e dividir somando vidas. Isso inclui, por direito, não ser surpreendido com nada daquilo que está ao alcance de ser evitado como surpresa desagradável para qualquer um dos dois. Se a gente parar bem para pensar, o que mata qualquer relação é, no fundo, no fundo, ser pego de surpresa e ficar com cara de leso. É como construir um prédio com alicerces de isopor: mais cedo ou mais tarde esse World Trade Center afetivo vem abaixo. A única surpresa aceitável é a surpresa de amor, como bem disse minha amiga aniversariante do alto dos seus vinte e quatro aninhos fresquinhos.

Número dois: jogo limpo. Também acho igualmente complicada a relação que deixa em suspenso questões fundamentais para que essa própria relação se desenvolva e ganhe sustância. Jogar limpo não quer dizer jogar duro, o que também pode eventualmente acontecer. Dando uma de Gilberto Gil, é preciso cheguevarizar deveras a relação amorosa: hay que endurecer, pero perder la ternura jamás! Apesar de escatológica, a metáfora da meleca é muito boa aqui: quanto mais se enrola, mais a bustela cresce. Pupila na pupila é básico. Inegociável. Fale as coisas antes que os fatos falem por si. E eles, cedo ou tarde, batem à porta de nosso conhecimento, trazendo dossiês arrasadores, implacáveis como os cossacos russos.

Número três: exercício de tolerância. O casamento aumenta tudo aquilo que existe antes dele, funcionando como uma lente de aumento: o que é bom fica muiiiito bom. E o que é ruim, se não for trabalhado, fica muiiito ruim. Ele realça delícias e evidencia carências. Para essas horas é preciso ter uma paciência de monge budista baiano. E como eu disse, tolerância é exercício. Estourar com alguém que a gente ama é muito ruim. É, para mim, um forte sinal do apagamento da disposição do “venha o que vier, eu vou brigar com você por nós”. E o com aqui é um com de junto, de nós dois unindo forças. A sensação de brigar sozinho, meu povo amado, é desalentadora. Já passei por isso e sei que é murchante. Seca a alma, esvazia os porquês da existência. Quando se deixa de brigar com alguém por algo e se passa a brigar com alguém por algo está na hora de verificar a biela. Alguma coisa errada tem aí.

Número quatro: planejamento. Não sou cartesiano a ponto de achar que temos que planejar tudo minuciosamente em nossa vida e se ater a esse plano incondicionalmente. Não sou tampouco anarquista a ponto de deixar tudo também ao belo sabor das marés. A relação a dois envolve, sim, uma boa dose de como a gente quer gerenciar o resto de nossas vidas. Vem, senta essa bundinha linda aqui ao meu lado e vamos lá: o que queremos para nós? Em quanto tempo? O que queremos e não dá? Por que não dá? E a gente, dá sem isso que não dá? Se dá, vambora, entre por essa porta agora. Se não dá, adeus também foi feito pra se dizer, bye-bye, so long, farewell.

Número cinco: Para esse que vos fala, na questão confiança o troço ou é oito ou oitenta. Aqui as outras setenta e duas possibilidades intermediárias são problemáticas. Na humilde opinião desse escriba, uma relação de casamento só deve começar se a confiança for cega e tranquila. Oitenta. Saber que se alguém vier do nada e perguntar “você apóia a decisão da sua mulher?”, você vai poder dizer, sem saber qual é essa decisão: “Sim. Apóio”, tendo a certeza que essa decisão, ainda que desconhecida, jamais seria uma decisão que afetaria deliberadamente a relação de forma negativa. Se não for oitenta, espere. Namoro é isso: a busca do oitenta. O tempo que for preciso: dois meses ou doze anos, como meu primo Nirou. Por isso não podemos apressar o rio, que corre sozinho. Quando digo que tem que ser uma confiança cega, remeto esse texto a Saint-Exupéry: “o essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração”. O coração tem alma de cordeiro, mas olhos de águia.

Número seis: só case se você tiver disposto a botar o nome de vocês dois nos cd’s e livros. Entenda a metáfora. Se não dá para pensar nisso de forma tranquila e suave, segura as pontas, brother. Ainda não é hora. Aí eu sou das antigas: se é para casar vislumbrando uma futura separação lá na frente, esquece. Namorem, se curtam e, em pegando o bicho casório, kiss goodbye. Volto a dizer: é muito sério você propor dividir o resto de sua vida com alguém. Não dá para brincar com isso, não. Agora, se você passa o seu dia pensando em como fazer o outro se sentir bem, aí creio jo que já há um sinal de fumaça de que dá para começar a brigar pelo lençol de noite e discutir se o papel higiênico deve sair por cima ou por baixo do rolo. Para o meu amigo noivo da minha amiga aniversariante: já pensou todos os teus cd’s do Geraldo Azevedo com o nome dela? Se não te der uma certa sensação de invasão, pode mandar fazer o terno que está na hora.

Número sete: casando, seja leal. E estou falando em lealdade no sentido amplo da palavra: companheiro, sincero, honesto, fiel. Situações provocantes aparecem para todo mundo o tempo todo. Saber lidar com elas quando um compromisso de vida a dois já está firmado é fundamental e, para mim, um sinal de maturidade afetiva. Segundo um dos meus irmãos, o tempo de contagem de resistência é trinta segundos. Se em trinta segundos a tentação sumir da cabeça, pronto! Ufa! Senso estético, qualquer pessoa tem. Achar alguém bonito é normal, desejar alguém, vá lá que seja. Daí a consumar um ato que joga para o ralo fétido de um banheiro mijado de estádio de futebol todo um projeto de uma vida a dois, sem que um dos participantes saiba, é cruel. Se é inevitável começar um novo amor, que surge sobrepondo-se ao velho, jogue limpo. Eu sei às vezes que isso é difícil como tirar cd do plástico só com as mãos e é doloroso como arrancar um pelo do nariz com pinça. Mas faz parte, pelo menos, de um mínimo de consideração que a outra pessoa merece por tudo que lhe deu até ali. Carregar uma informação de falta de lealdade para o resto da vida, informação crucial para uma relação, sem partilhá-la com outro, fere de morte vários princípios já falados acima. Além, claro, de pesar na cabeça o resto da vida. Sem necessidade. Para ninguém. Isso é infelicidade calculada. Muito ruim.

Poderia escrever ainda alguns outros princípios sobre o casamento. Mas vou parar em sete, que é conta de mentiroso, para deixar um certo quê de incerteza no ar. Tenho a mais absoluta certeza que tem gente que vai concordar comigo e, pela lógica formal, gente que vai discordar de mim. Não sou dono da verdade, até porque acredito que ela não existe per si, mas é construída contingencialmente, no momento mesmo em que acontece a relação. Meus trinta e quatro anos de vida e meus dois casamentos me fizeram entrar na conversa e, refletindo, decidir escrever sobre isso. Como qualquer texto, dê a esse, prezado leitor, o sentido que você quiser ou puder.

Minha namorada linda está chegando essa semana. Vamos estudar esse texto juntos (já começamos a fazê-lo de certa forma). Vou ler igualmente o texto que ela me traz para considerações e, juntos e sempre juntos, tentaremos escrever um outro texto, a quatro mãos. E textos são versões, sempre diferentes uma das outras, apesar de trazerem quase sempre uma estrutura padrão. Isso: casamento é um texto. Se já há elementos para escrevê-lo a quatro mãos, então entrar na igreja de terno e gravata não é mico, não. É uma frase que faz parte do parágrafo introdutório. Consideradas essas questões que pus em letras e mais outras muito particulares de cada casal, é preciso perguntar: no balanço, somos felizes? Se sim, então, maestro, que toque a valsa nupcial e, pajem, traga as alianças. Que elas sejam simbolicamente o que são fisicamente: infinitas, sem quebras, douradas. Até que a morte vos separe. Amém!

A propósito: alguém aí sabe se pode pedir aproveitamento de estudos do curso de noivos e se as passagens para Fortaleza estão com desconto?

Anúncios

2 comentários em “Casamento? Deixa que eu comento!

    lohan disse:
    15/04/2011 às 13:55

    😦 xatuhh

    Kelly Beatriz disse:
    18/04/2011 às 13:25

    Adorei a metáfora do ” só case se você tiver disposto a botar o nome de vocês dois nos cd’s e livros” . Eu sei bem o que é isso…mais de 500 cd´s e nenhum sequer com as iniciais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s