Tamanho paideguão, pô!

Postado em Atualizado em

[13/06/2001]

Uma das características de todo e qualquer irmão é deixar a gente sempre em situações embaraçosas e complicadas. E essa é uma afirmação ampla que vai desde o complicado lúdico, quando armam situações que acabam sendo engraçadas, ao complicado trágico, como naquela história daqueles irmãos que moravam em Parintins e acabaram se estranhando, o Caim (Caprichoso) e o Abel (Garantido).

Meu irmão Paulo me deixou numa dessa hoje.  O Paulo, para quem não conhece, é um músico de grande sensibilidade, um professor adorado pelas suas alunas de pedagogia e encanador autorizado da Tigre, entre outras coisas. Sério! É tão único que já foi embora de Manaus de vez umas quatro vezes. Tem dois raptos em seu currículo (consentidos e com posterior devolução das moças aos pais, diga-se) e três filhas lindas, tendo passado, portanto, de consumidor a fornecedor.

Pois bem. O Paulo esteve aqui em casa semana passada. Veio de Itajubá, sul de Minas, onde ficaram a Zuleica e a Eliza, minha cunhada e minha sobrinha. Veio em Campinas para me visitar e comprar a passagem de volta para Manaus. Ou vice-versa. Dentre suas milhões de qualidades, meu mano Paulo tem um defeito: ele é viciado em alugar carros.

Mal chegou, começou a comichão. “Tens uma lista telefônica aí?” Já conhecia o tom da pergunta. “Tenho”, disse eu encenando minha parte, indiferente. “Acho que vou alugar um carro, o que tu achas?” Essa pergunta é a típica pergunta amenizadora de peso na consciência. É aquela pergunta que a gente faz para os outros quando estamos em processo de convencimento para comprar algo. Acontece que, para comprar coisas, o processo com o Paulo é mais rápido do que o saque do Guga no saibro. Ele já tinha decidido. Quando saiu de Manaus.

Ligou para Localiza, Unidas e outras. Indignou-se porque não achou a Hertz. Mas nessas grandes, a diária estava muito cara. Pensou por um minuto se deveria alugar mesmo. Amadurecimento esse que se deve à convivência com minha cunhada, que pensa por dois: dois minutos, antes de comprar. Decidiu então tentar as locadoras nanicas. E achou a Brasil Rent a Car, uma empresa quase familiar com uma gerente gordinha e bonachona, como todos os gordinhos, que além de muito simpática era muito boa de negócio. Fomos lá. E alugamos. Quer dizer, eu aluguei no meu cartão e o Paulo me deu em dinheiro mais tarde. Dinheiro que acabei gastando antes do dia de pagar, como sempre (essa história de ter dinheiro na carteira, encontro de contas, etc, sempre me deixa confuso…) Não saímos, no entanto, sem que o Paulo já agendasse um aluguel em Julho, quando voltará aqui com as outras filhas para um passeio pelo Hopi-Hari e Wet’n’ Wild. De carro alugado, claro.

Para encurtar a história, que já está ficando tão longa e estranha quanto a mal explicada história das mortes dos bebês na maternidade Balbina Mestrinho, em Manaus: o Paulo voltou para Itajubá na quinta, de Fiesta alugado e comichão devidamente saciada. Voltou a Campinas no sábado à noite e pegou o ônibus para Cumbica no domingo de manhãzinha. Ele deixou o carro aqui comigo para eu entregar na segunda-feira, às oito da manhã. Detalhe: com a minha mulher viajando e o Mateus, meu hóspede, ainda não iniciado na chata arte de dirigir, tive que levar o carro sozinho e voltar de ônibus. E aí eu retomo o que disse no começo: irmão põe a gente em cada uma…

Não sabia mais pegar ônibus. Gente, isso é muito sério. Podia voltar de táxi, tudo bem, mas pegar ônibus de repente se pôs para mim como um desafio. Se decidisse pelo táxi estaria desmoralizado, humilhado. “Tamanho paideguão!”, como diz meu pai, num esporro amazonense típico, significando “como é que um adulto, maior de idade, pode ser capaz de se comportar dessa maneira tão infantil e tão idiota?”

Com o Guia de Campinas nas mãos para consultar todos os itinerários, saí da locadora andando, coisa que também não fazia há milênios. Olhei para um lado, olhei para o outro, respirei fundo o cheiro do outono e tomei a direção da rua principal, por onde passavam os ônibus. Lembrei-me dos velhos tempos, quando estudava inglês no centro de Manaus e tinha que pegar o ônibus em frente ao Atlético Rio Negro Clube, na Praça da Saudade, cujo nome não poderia ser melhor para a circunstância. Disse a mim mesmo várias vezes: se uma criança pode, você pode. “Tamanho paideguão!”, a voz do meu pai me coagia e me estimulava.

Esperei por aproximadamente quarenta minutos, quando avistei o 4.08 – Shopping Iguatemi. Moro perto do Shopping Iguatemi. O Guia, muito bem disfarçado, claro, em uma pasta de papelão preta da Panasonic, tinha me salvado. O ônibus parou. Minha primeira dúvida: qual das três portas? Na minha época, o ônibus só tinha duas portas: uma para entrar e outra para sair. Mas esse tinha três. Olhei por alguns segundos e fui por eliminação, já que das duas outras portas  saíram um negão com um rádio no ombro cantando tchu-tchu-ca e uma velhinha paraense com uma batinha florida, segurando uma sacola amarela das Casas Pernambucanas, daquelas que têm um olho. Acho que ela era paraense por causa da sacola amarela das Pernambucanas. Todo paraense da gema, daqueles que comem maniçoba e tal, anda com uma sacola das Pernambucanas ou com uma máquina fotográfica.

Bati na porta e o motorista, parecido com o Tatoo da Ilha da Fantasia, abriu a porta sanfonada e olhou pra mim. Devia estar se divertindo com minha falta de jeito, com meu olhar nervoso de redescoberta, que examinava tudo rapidamente para apreender o ambiente. O mesmo olhar de espanto de quando se vê o mar pela primeira vez. Nesse rápido olhar, vi que a borboleta (ainda chamam de borboleta?) ficava imediatamente após a porta de entrada e que não havia cobrador, aquela figura que costumava ficar sentado, camisa a meio botão, palito na boca, recebendo o dinheiro de uns e deixando os “peixes” passarem por baixo, sem pagar.

Tatoo me olhou com um olhar pragmático, do tipo: “Sim, e aí?” Aí, a pergunta fatal: “Quanto é, moço?”, perguntei. Não. Na verdade sussurrei. Mas falei alto o suficiente para que um japa que dormia (e até babava) acordasse para olhar, olhos estranhamente arregalados para um japa, o extraterrestre que havia entrado na linha 4.08. “Um real”. Pergunta dois: “Pago pro senhor mesmo?” Tatoo divertiu-se com “o senhor”. Fez que sim com cabeça, dei um real para ele e rolei a borboleta, não antes sem deixar cair o Guia no chão do ônibus, chamando de vez a atenção e provocando o riso de três adolescentes, daquelas que riem de tudo, até de fratura exposta, naquele eterno qui-qui-qui-qui.

Sentei em um banco sem vizinhos e tentei passar por nativo. Fingi um sono, simulei uma baba. Com um olho entreaberto vi que, pelo menos, puxar a velha cordinha de varal esticada ainda era o sistema para avisar que você quer descer na próxima. Depois de uma meia hora de viagem por um caminho que eu não havia escolhido (quando quem guia são os outros, nós vamos aonde nos levam…), puxei a cordinha e desci. Desci errado, duas paradas antes da mais próxima do meu apartamento. Andei, de novo. No total, andei o que ando em seis meses e meio, segundo cálculos do DataSérgio.

Na passagem, parei na padaria e comprei 100g de queijo prato. Sempre falta queijo prato. Eu como muito queijo prato. Ou compro muito pouco de cada vez. Problema de opção… Bom, cheguei e Chaplin, o porteiro do bigodinho, me entregou a Época e umas contas. Antes de entrar em meu bloco, ainda vi ali meu Pálio, como se estivesse rindo de mim, o sacana. Dei um sorriso sem graça para ele e subi. Tive a impressão de vê-lo piscando as luzes do alarme, como se tivesse acenando de volta.

Ao Paulo, que riu da história quando contei para ele no telefone, eu agradeço as pimentas murupi que trouxe e a chance de pensar sobre a questão das opções. Na verdade, essa foi  a grande lição da história e a razão de eu trazê-la: pensar sobre as opções.

Eu era um estranho no ônibus por opção minha, quando muitos o são por falta de opção. Eu cansei, linguão palmo-e-meio de fora e peito arfante, por andar dois quarteirões por causa de minha opção por uma vida sedentária, regrada a Pepsi e a salaminho, quando muitos fazem da caminhada diária a possibilidade mesma de sobrevivência, sem Pepsi, sem salaminho, sem lenço e sem documento.

Opções implicam responsabilidades e riscos. Opções implicam ser olhado como estranho e ter que assumir essa “estranhidade” sem condenar aqueles que não optaram por optar pelo fato de a opção não ser considerada nem mesmo uma opção. E aí incluo tudo: opção ética, opção política, opção amorosa, opção profissional, opção no dizer. Não posso condenar quem me olha estranho por opções que fiz. Podia não fazê-las, mas fiz. É diferente de quem tem uma única saída como opção, o que já não é opção, mas obrigação. Aí não vale. É cruel condenar a diferença que vem da falta de opção. E falta de opção é uma violência à cidadania.

O Caetano, de estanhas opções ultimamente, disse um dia: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Cada um deveria saber que às delícias da opção tomada correspondem proporcionais dores possíveis. Então é pesar, optar e aguentar. Mas  ter honestidade intelectual e coragem para assumir as opções.

É cômodo querer anular o olhar da crítica à opção que fazemos, reduzindo o problema ao olhar e não à opção, onde muitas vezes mora de fato o problema.

É como aquela história do sujeito que aponta para lua e o idiota olha para o dedo. O problema não está no olhar do idiota, que também só é idiota por causa dessa ilusão da falsa origem do problema. O problema está para onde aponta o dedo. Não perceber isso como a própria possibilidade da construção de verdade, isso sim, faz de nós de bobos inocentes, no mínimo, a idiotas e merecedores de um esporro amazônico: “Tamanho paideguão, pô!”

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Um comentário em “Tamanho paideguão, pô!

    Doutor Estranho disse:
    05/04/2011 às 20:46

    Se Rodin refizesse “o pensador” nos dias atuais ele estaria sentado em um banco de ônibus. Quanto mais demorado o trajeto, maior a profundidade da reflexão.

    😀

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