Faz escuro, mas escrevo…

Postado em

Escrevo eete texto motivado por uma pergunta feita por quem tenho grande admiração. A pessoa queria saber sobre a razão de eu escrever crônicas e artigos. Indagava meu interlocutor se eu acreditava mesmo que com palavras mudaria algo e se com algumas opiniões incômodas não estaria me expondo. Parei, pensei, reguei e cheguei a algumas respostas, brotadas do jardim de minhas inquietações.

Primeiro, escrevo porque gosto. Ninguém deve fazer o que não gosta.  É minha filosofia desde que optei por me separar de minha primeira esposa, de quem gostei muito antes de decidir que não gostava mais da nossa vida a dois e de que não gostava mais de ser infeliz. Gostar do que se faz é essencial. Portanto, enquanto houver prazer, eu escrevo.

Segundo, escrevo porque adoro pôr o real em palavras, imprimi-lo no papel, como uma fotografia. Quem é fotógrafo sabe o prazer de dar um ângulo só seu a um objeto do dia-a-dia. Gosto de falar das coisas da vida. Assim, enquanto houver vida, eu escrevo.

Terceiro, escrevo para rir. O senso de humor é umas mais belas virtudes do ser humano. O incapaz de rir de si próprio tem uma carência fundamental, que amarga não só a si, mas a todos que o cercam. Observe, leitor. Escrevemos o que somos, nos ensina Edgar Allan Poe. Escrevo para rir porque sou feliz. Logo, enquanto houver riso, eu escrevo.

Quarto, escrevo para falar sobre amor, política e educação, assuntos relevantes à vida, que me faz rir e também me indigna.  Diferentes atitudes correspondem a diferentes sonhos políticos. O meu sonho é uma sociedade menos injusta. Vejo injustiça em opções que beneficiam poucos em detrimento da maioria. Vejo injustiça na força que tenta física ou moralmente calar os mais fracos. E antes que alguém me acuse de ser um romântico idealista, eu digo: sou um romântico idealista. Não podemos perder a esperança injustificável por um mundo melhor. Mas esperança não se espera, se ganha no grito. Dessa forma, enquanto houver indignação, eu escrevo.

Sim, eu acho que posso mudar o mundo. Triste quem se acha indiferente ao prazer, à vida, ao riso e à indignação. Pode ser uma mudança de nada, mas é. Bem-aventurados os que brindam à vida, com prazer e humor, e em nome da existência dessa vida se indignam com o individualismo de uma choldra que há de ter seus atos e omissões julgados, aqui ou além.

É por isso escrevo: prazer, vida, riso e indignação. Isso move e muda a vida e o mundo. Há quem opte pelo desgosto, pela perda, pela tristeza e pela resignação. Não eu.

Quanto a se expor, não se expor é igualmente se expor. Dá na mesma.  Há sempre alguém a dizer que pegou pesado e outro a dizer que pegou leve. Quem goste e quem deteste. Estou com Guimarães Rosa: “pãos ou pães é questão de opiniães”. Palavras são como filhos: ninguém as domina quando ganham o mundo. Além do mais, gosto de uma boa briga de argumentos. Sei reconhecer quando sou convencido, mas eu adoro mesmo é convencer. Por isso, eu escrevo também.

Thiago de Mello publicou um livro em tempos bicudos: “Faz escuro, mas eu canto”. Parafraseio Thiago: “Faz escuro, mas eu escrevo”. Com prazer, com vida, com humor e com indignação. Ponto. Seguido.

Anúncios

2 comentários em “Faz escuro, mas escrevo…

    Luna disse:
    10/04/2011 às 13:21

    Adorei o ponto seguido.

    Cyrino Jr disse:
    17/05/2011 às 16:54

    Oi Sérgio, que saudade dos bons papos… um pouco atrasado meu comentário(sabes que (ainda) não incorporei o hábito de visitar blogs – nada contra eles, mas sou assim). Adorei o artigo, aliás qual dos teus não gostei heim? sabes também que gosto demais das tuas letras, da fonte e do estilo… legal demais as razões porque escreves… entre elas a necessidade de alimentar a vida e o senso de humor… como isso melembra uns poemas que cometi em outros tempo, tomo a liberdade de postá-los aqui, pela pertinência…
    um beijão, irmão.

    ESCREVER É PRECISO

    J. Cyrino Jr

    Ainda que me caia o mais forte temporal,
    eu seguirei adiante, escrevendo,
    mesmo que seja uma rude consoante,
    mesmo que seja uma troncha vogal.

    Ainda que venha a ficar mouco,
    ainda que venha a emudecer,
    isso importa muito pouco,
    só preciso dos meus olhos
    e de minhas mãos para escrever.

    Escrever é o que me importa,
    ainda que a palavra saia torta,
    ainda que seja um simples rascunho,
    importa que não parem os meus punhos.

    Escrever é tudo que eu preciso,
    é o que faz pulsar o meu coração;
    não importa se minha poesia é um improviso,
    importa que não me ceguem os olhos
    importa que não me amputem as mãos.

    UM POEMA QUE RI
    J. Cyrino Jr

    Há um poema que ri
    dos rigores dos ritos
    dos homens de botas
    que batem nos homens
    em nome de leis idiotas.

    Há um poema que ri
    dos horrores dos ritos
    dos suicidas burocratas
    que estrangulam suas vidas
    com os nós das suas gravatas.

    Há um poema que ri
    dos ritos das fábricas
    de fazer verdades
    que justificam as bravatas
    dos homens de togas e batas
    que bradam em solenidades.

    Há um poema que ri,
    das caras rebuçadas
    dos homens descarados
    que exploram a fome
    dos homens sem nome
    com discursos afiados
    nos seus macros e microfones

    Há um poema que ri
    dos rigores dos ritos
    dos homens esquisitos
    que põe e propõem regras
    que regulam as estéticas
    das construções poéticas.

    Há um poema profundo,
    que vive andando por aí
    que vive vagando a esmo,
    rindo de Deus e do mundo
    rindo de mim e de ti
    rindo até de si mesmo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s