A goiabeira da casa 20

Postado em Atualizado em

Páscoa é passagem. É passar, mudar. Muitos são os que nos lembram da necessidade de mudar nesses tempos. O ponto sustentado é o de que ninguém está imóvel no mundo, como uma estátua de mármore. A metáfora do mundo contemporâneo é a de Heráclito de Éfeso, do homem que se banha no rio sempre de forma diferente, pois não é mais o mesmo homem e não se tem mais o mesmo rio no segundo banho. Vivemos na urgência do movimento.  Sujeitos que se fragmentam e se adequam à velocidade dos tempos líquidos. Homo liquidus.

Mas mesmo tendo a mudança como regra atual, há em nós o que teima em se perpetuar. Cada um de nós guarda em si traços imutáveis e resistentes em relação às demandas por mudanças que o mundo nos traz. Se muita coisa muda, tantas outras se querem permanentes. Estão bem, obrigado, guardadas em nossa pasta de certezas.

Ainda que sob o olhar da desconfiança, a permanência é boa. A permanência dá segurança. A permanência nos dá chão seguro. Ficamos mais permanentes na medida em que a vida passa. Ousamos menos e nos confortamos com o previsível. A dúvida, alimento da alma juvenil, passa a ser vista como uma possibilidade remota, secundária. A certeza construída e trazida dobrada na carteira é que é o parâmetro. Andar pelo caminho de sempre, olhando as árvores conhecidas e o desenho de seus galhos, traz paz. Anestesiar-se das coisas, vez por outra, é bom.

Quando valorizamos mais a permanência, vivemos surtos nostálgicos. A nostalgia é querer que a memória permaneça como realidade. É querer o que já foi, o que já se moveu. É olhar uma fotografia e desejar a permanência daquele cenário, daqueles personagens, daquele cheiro, daquele gosto. É querer, pelo túnel do tempo das reminiscências, retornar para aquele momento acalentado nas esquinas da nossa memória. É olhar a data no canto da foto e lamentar que aquele dia acabou, como as datas nos cantos das fotos.

Para ser sujeito hoje, nos exigem que desejemos a metamorfose ambulante. É charmoso caminhar, cantar e seguir a canção. Está na agenda coletiva. Mas preciso reconhecer que a permanência tem me ocupado o pensamento nesses últimos dias. Quero ficar mais comigo nas minhas certezas. Quero aquietar-me nos meus quintais conhecidos, vestindo aquela camiseta amolengada pelo tempo, que me abraça mais do que me veste. Quero aquele sapato velho, com toda poesia da música. Quero a casa sem forro e a luz amarela no teto de telha de amianto aparente, pois foi nessa tela que pintei as pinturas das minhas insônia e sonhos da cama de cima do beliche de tempos de criança. Quero a rede de punho, não de bits. Eu quero o bife da mãe.

Não, não brigue comigo, leitor. Não me chame de chato porque quero estacionar por uns tempos o carro da vida, ouvindo a trilha sonora que a embalou, deitado no banco das preocupações reclinado ao máximo. Não me critique porque não quero saber do novo, que me força a mudar e, ao mudar, deixar uma parte de mim para trás. Sinceramente, eu não quero me dar o trabalho de mudar agora. Eu passo. Sem culpa. A culpa vem quando a coisa acontece. Não quero a culpa do não acontecimento. Não ralhe comigo porque a naftalina no canto de minhas gavetas revive o cheiro do amor bom, da brincadeira entre irmãos que se foi, da inocência da amizade cúmplice que já vivi com amigos que, que coisa!, não permaneceram e se foram. Pessoas queridas de quem não tenho mais notícias. Estarão lembrando de mim?

Eu quero é a goiabeira da casa 20, a casa da minha infância. Eu quero o pé ralado do futebol no asfalto. Eu quero a minha permanência no tempo que ficou para trás e que, ao mesmo tempo, veio comigo. É dessa permanência de que falo. Da permanência das coisas. Da permanência do mundo. Não lá fora. Mas aqui dentro de mim. Quero repousar nas minhas lembranças.

Eu não quero inundar o mundo com o excesso de falas novas para preencher o vazio aqui de dentro. O grito exagerado revela o silêncio ensurdecedor da psiquê sem controle. Fala-se para Não se ouvir. O vazio aqui dentro eu quero preencher, sim, mas com o transbordamento de mim mesmo. Quero transbordar para dentro e não para fora. Transbordar para fora é uma forma de exorcismo. Transbordar para dentro é uma forma de oração. Por falar nisso, quero o Deus da missa das crianças de domingo de manhã.

Hoje um homem de mármore mora no 603. Mas ainda visita a casa 20 do moleque danado. Porque Páscoa, afinal, é passagem, não é? Pensei em voz alta… Desculpe, leitor, viajei parado. Enfim… tenha uma Boa Páscoa. Na mudança ou na permanência. No 603 ou na casa 20. Ou onde quer que sua (in)quietude esteja. Esse texto é uma metáfora.

Anúncios

3 comentários em “A goiabeira da casa 20

    Roberta Malcher disse:
    20/04/2011 às 16:08

    ..nooossaaaa Sérgio, vc arrasou menino!!!
    Uma pergunta: Que cor era a goiaba da goiabeira da casa 20??hehehe
    Uma Páscoa de Luz pra vc, grande Sérgio.

    Um abraço fraterno,
    Roberta.

    Xico Branco disse:
    22/04/2011 às 09:21

    É professor, nossas metáforas nos impulsionam…as lembranças boas que vão sendo feitas no hoje, quase imperceptíveis, amanhã nos dizem como fora tão bom esse instante chamado agora. Todos temos nossos pés de goiabeiras em algum quintal de nossas lembranças. Temos nossos campinhos de terra batida… Lembro aqui aquela letra do meu xará, Chico, o Da Silva, que versa sobre “aquele tempo de menino” e as tantas saudades que ele nos traz. Grande abraço e Feliz Páscoa ao senhor e toda sua família.

    Elisa Souto disse:
    04/03/2012 às 10:13

    Legal, Sérgio… Eu também tive uma goiabeira, mas na casa 21. Só que a minha foi derrubada pelos novos “donos”, tanto literalmente quanto metaforicamente… Nada restou.
    Boa Páscoa Nova!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s