O peão intelectual

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Muito se fala sobre a desvalorização do professor. Em princípio, para abordar o assunto parece-me ser fundamental reconhecer que a situação está como está em parte por nossa culpa mesmo.

Tendemos a nos contradizer enquanto profissionais. Falamos de educação libertadora, mas somos guiados pela analogia religiosa: “professor trabalha muito e ganha pouco porque é sacerdócio.” Esse voto religioso desloca o papel de professor-profissional para o papel de professor-sacerdote, com todas as implicações, votos de pobreza e de obediência que ele traz. A distância entre o discurso político e a falta de atitude política amplia a desvalorização e vem da própria lógica que enfatizamos ao dizer “Coitado de mim. Sou professor”. A repetição vira realidade. Resumindo: estamos na lama profissional, entre outros motivos, porque nós mesmos ajudamos a propagar a desvalorização. Isso acontece com os médicos?

A valorização do professor passa necessariamente por nossa autovalorização. Quando vamos parar de repetir a lengalenga do coitadinho e passar a considerar nossa profissão como uma profissão de fato? Entre outras coisas, fazer isso significa querer ser remunerado pelo trabalho que se faz e não abrir mão disso. Mais trabalho é igual a mais dinheiro. “Oh!”, exclamariam escandalizados os que não conseguem sair do lugar do professor-sacerdote. Mas há de se perder o pudor prejudicial e o temor religioso de ir para o inferno só porque perguntarmos quanto é que vamos ganhar pelo trabalho extra que está sendo proposto, como se falar em dinheiro fosse sacrilégio.

O que estou dizendo não implica cair na porra-louquice do discurso vazio de trotskistas extemporâneos. Declarar guerra ao sistema que nos envolve é uma estratégia tão inócua quanto o discurso dessa gente. Precisamos entrar no discurso do mercado para poder desconstruí-lo. É de dentro que se muda o que não se quer. É necessário conhecer para transformar. Tróia pura. Façamos engenharia reversa e tratemos nossos patrões como opressores reconhecidos: reconhecer a contribuição de suas escolas para a sociedade, mas não abrir mão de que o jogo seja limpo, sem hipocrisia. Somos vistos como peões nas práticas de quem nos paga? Então queremos ser tratado como peões, sem problemas e sem carga pejorativa. Peões ganham mais quando dão hora-extra. Por que uma atividade não prevista em nossa remuneração tem de ser “de grátis”? Se começamos a fazer isso, teremos imediatamente um aumento no valor real do salário. Não no valor nominal do contracheque, mas no que ele vai representar em função de horas efetivamente trabalhadas. Só um lembrete: peão trabalha mesmo, viu?

Ou se trata o trabalho intelectual como realmente diferenciado, em termos de condições e remuneração, ou se assume de vez que trabalhamos em uma empresa como qualquer outra do distrito industrial. Assim se reconhece o que já acontece e se acaba com a hipocrisia. As boas empresas sabem que a satisfação de seus funcionários é investimento e não despesa. Entretanto, no setor educacional ainda vivemos um capitalismo muito primitivo.

Esse discurso zanza convenientemente de um lado para o outro: na hora do trabalho, o professor é diferente, na hora da remuneração é igual. Isso é capitalismo de conveniência. Entre o professor intelectual retoricamente reconhecido e concretamente mal pago e o peão da engrenagem educacional pago pelo trabalho efetivamente produzido, eu prefiro ser peão. Um peão intelectual. E a luta continua, companheiros.

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2 comentários em “O peão intelectual

    Sandra Toda disse:
    04/06/2011 às 23:39

    E o pior, se vc trabalhar numa instituição privada, o aluno ainda é capaz de nos dizer “eu to pagaaaano”””””, melhor ser peão mesmo… concordo plenamente.

    Laila disse:
    07/03/2012 às 11:44

    A falta de união dos profissionais desse ramo também facilita a manipulação do governo sobre nós.

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