Cinco anos: mochilinha de porquês

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Vem, Ana, vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/Vem, tanta gente vem/Mochilinha de porquês/Que eu não sei responder/se eu tivesse a língua doce/Te cobria de poesia/Ai, eu ressuscitaria/Aquele sol que nos queimou um dia.

“Ana Clara, o papai vai comprar remédio pros olhinhos da Nina. Quer ir comigo?” “ÊBA! QUERO!”. No carro, a caminho, do nada: “Pai, quem criou o ladrão?” “Filha, às vezes as pessoas não têm trabalho e precisam trazer comida pros filhos. Não é certo, mas aí ele pega as coisas dos outros. E o que não é nosso, a gente não pode pegar, né?”  “Só se emprestar, né? E por que ele não tem trabalho, pai?” “Porque ele não estudou.” “…porque não tinha escola? Por isso, pai?”. “Às vezes é por isso. Às vezes é porque não deu pra estudar ou não quis”. “E por que alguém não quer estudar? Estudar não é importante, pai?” “Muito importante. Mas algumas pessoas não entendem que é importante. E aí faz falta depois.” “Como não entendem, pai? Eu tenho quatro anos e entendo.” “Pois é, Clara. Mas é porque o papai e a mamãe da pessoa não conseguiriam mostrar para ele que é importante.” “Quer dizer que tem ladrão por causa do pai e da mãe do ladrão, pai?” [Pausa.] “Mas não é culpa deles, filha”. “De quem é a culpa, pai?”. “Da desigualdade social, filha”. [Não fui didático…] “O que é desigualdade social?” “Na sociedade, uns têm muito dinheiro, mas outros não têm nada”. “Nós temos muito ou nada, pai?”. “Nem muito, nem nada. Nós somos classe média. Classe média é quem está no meio”. “Mas por que uns tem muito e outros não tem nada? Quem escolhe, pai? Tem muito quem estuda mais? Mas você não estudou muito, pai? Porque que a gente não tem muito?” [Pensei nas minhas escolhas…] “Estudar é importante não só para ter dinheiro. Para isso também, mas não é só para isso.” “Mas quem escolhe quem vai ter mais e quem vai ter menos? O Deus?”. “Não, filha. Todo mundo é filho de Deus. Ele ama todo mundo igual. Foi ele criou tudo.” “Até o ladrão?” “Até o ladrão. O ladrão também é filho de Deus e Deus ama o ladrão também”. “E ele ama até o pai e a mãe do ladrão que não ensinaram que a escola é importante?” “Até eles.” “E quem criou o Deus, pai?” [Pausa grande. Essa foi profunda.] “Hein, pai?”. “Filha, você é muito pequena… um dia você vai entender…”  “Explica agora, pai!” “Tá. Ninguém criou Deus. Deus existe desde sempre.” “Ele não morre, pai?” “Não, ele não morre. Só o  homem que morre”. “E a mulher não, pai?” “O homem e a mulher. A vida é assim: a gente nasce, cresce, casa, tem filhinhos e quando está bem velhinho morre”. “E a Giulia, pai. Lembra? A gente rezou por ela. Por que ela morreu, pai? Ela não estava bem velhinha…” “Pois é, mas ela estava dodói.” “Por que as pessoas ficam dodóis, pai?” “Acontece, filha. Ninguém quer ficar doente, mas a sua irmã, por exemplo. Os olhinhos dela não estão dodói, com conjuntivite?” “Mas eu não quero que a Nina morra!” “Não, ela não vai morrer, não, filha. Fica tranquila! Tem doença mais fácil e tem doença mais difícil de curar”. “E quem decide qual doença a gente vai ter, pai?” “Ninguém decide,  filha, acontece”. “E quando a gente morre? Pra onde a gente vai, pai?” “Antes de você nascer, você era um anjinho que morava com Deus no céu. Quando a gente morrer, a gente vira anjinho de novo e volta pra lá.” “E depois?” “A gente fica lá.” “Pra sempre, pai?!” “Tem gente que acredita que é pra sempre. Tem gente que acredita que a gente volta de novo. Um outro bebezinho”. “Em outra família, pai?” “É.” “Eu não quero morrer, nem voltar em outra família!” “Filha, você tem quatro anos. Amanhã vai fazer cinco. Você não vai morrer agora. Ainda vai demorar muito, muito, muito tempo”. “Você tem quantos anos, pai?” [Medo da relação…] “Papai tem 42”. “Você já vai morrer?” “Filha, ninguém vai morrer. Estamos chegando na drograria. Eu vou comprar o remédio da Nina e você escolhe o sorvete, combinado?” “Combinado!”.

“Pai, o moço fechou a porta e trancou a gente dentro”. “Calma, é porque a drogaria vai fechar. Vamos pagar. Escolheu o sorvete?” “Escolhi, esse picolé da vaquinha. Um pra mim e um pra Nina. Mamãe prefere Cornetto, pai”. “Vamos pro carro.” “Pai, e quem não tem dinheiro pra comprar remédio?” “Clara, quem não tem dinheiro para remédio tem de ir ao Posto de Saúde”. “Tem todos os remédios lá, pai?” “Às vezes tem e às vezes não”. “E quando não tem, como é que faz, pai?” “Aí é complicado. Às vezes o pai ou a mãe pede dinheiro pras pessoas.” “Ou vira ladrão, pai?” “Ou vira ladrão. Mas não é assim também, filha.” “Como é, pai? Se você não tivesse dinheiro pra comprar o remédio da Nina, você ia ser ladrão, pai?” “Não, filha. O papai estudou e trabalha. Por isso o papai tem dinheiro pra comprar o remédio”. “Mas se não tivesse estudado, pai? Só se não tivesse estudado?” “Clara, você está muito perguntadora hoje, minha filha…” “Pai, a tia da escola disse que homem com homem dá lobisomem e mulher com mulher dá jacaré. Como assim, pai, jacaré? [Preciso conversar com a tia da escola sobre ecologia contemporânea]. “Quando ela disse isso, Clara?” “Ela estava conversando com a outra tia e eu ouvi”. “Você prefere mais esse do chocolate da vaquinha ou aquele quadradinho da caixinha azul que o papai sempre compra?” “Chicabonzinho? Não, eu prefiro o da vaquinha. É mais gostoso”. [Esqueceu]. “Chegamos, filha! Vamos subir!” “Olha, pai! O céu tá cheio de estrelas! Quem criou o céu, pai?” “Foi Deus, filha. Lindo, né?” “É. E grande. Pai, eu te amo do tamanho do céu”. [Meu coração se encheu de ternura com a declaração, apagando tudo de pesado de uma semana complicada.] “Eu também, filha. Eu também…”. “Deixa que eu aperto o botão do elevador, pai.” Minha menina faz cinco anos no dia 12 de junho. E já alcança o botão do elevador…

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13 comentários em “Cinco anos: mochilinha de porquês

    moncamelo disse:
    11/06/2011 às 08:50

    Ao final da leitura agradeci a Deus mais uma vez por conhecê-los mesmo que virtualmente. Os valores de familia de vocês são semelhantes aos que recebi de meus pais. Quem dera que todos tivessem esses valores, teríamos a garantia de dias melhores nessa sociedade doente…
    Deus continue abençoando ricamente a vida de vocês! Reforçando a sabedoria na criação da Clara e da Mariana! E te prepara que perguntas bem mais difíceis virão. A minha já cpmpleta 11 anos em julho e cada fase tem suas pérolas…
    Beijos na Bia, nas meninas e pra você que me enriquece espiritualmente e culturalmente a cada postagem.

    Elciano disse:
    11/06/2011 às 09:45

    Eu tenho duas princesas, a Giovanna de 5 anos e a Julianna de 3 anos. Lendo o seu artigo, senti-me na sua “pele” em relação às inúmeras perguntas sobre tudo e sobre todos, as quais temos que responde-las de forma simples, didática e que não agrida a inocência de nossas filhas. Somente quem é PAI sabe o quanto é delicioso e gratificante uma declaração de amor realmente sincera, feita de forma inesperada, espontânea e com o sorriso lindo de nossas filhas. E que serão pra sempre as nossas meninas. Um abraço. E parabéns pelo artigo.

      Ângela Cristina Jorge Pacheco disse:
      25/06/2012 às 10:02

      Tenho um filho com 6 anos desde os 3 ele me pergunta o “porque”, ele é bastante curioso e inteligente, sempre procuro responder suas perguntas, mas tem hora que depois de responder inúmeros “porques”, finalizo com um porque sim, se não as perguntas não finalizam nunca e eu tenho que fazer outras coisas, mas no fundo adoro esta curiosidade dele.

    Eulecsandra Lacerda disse:
    11/06/2011 às 10:46

    Clara é uma menina muitissímo inteligente que vê no pai as respostas para as suas indagações. O pai uma espécie de horáculo capaz de aplacar todas as aflições envolvidas em suas perguntas necessárias para o seu aprendizado acerca desse mundo que cada vez mais está se tornando injusto.

    Jesua Maia disse:
    11/06/2011 às 11:03

    Já ouviu? http://www.youtube.com/watch?v=Obi46ywCf6I

    A música é linda e acho que se encaixa bem com o texto pra Clara.

    Feliz Aniversário pra ela e parabéns pra você por ter uma família abençoada.

    Sandra Toda disse:
    11/06/2011 às 11:48

    Que Deus conserve esse pai maravilhoso, para que ele continue orientando suas crias… Parabéns para a sua princesinha.

    Gretta Sicsú disse:
    11/06/2011 às 15:00

    Awwwwww. Coisa linda, por isso que amo ser mãe pra ouvir essa “pérolas”… 🙂

    Gretta Sicsú disse:
    11/06/2011 às 15:01

    Só podia ser geminiana mesmo… 😀

    Nelgia disse:
    11/06/2011 às 16:18

    OMG, como ela é inteligente! tem um senso de questionamento super avançado! 😀
    E o bom é que vc consegue responder super bem a cada questionamento, eu já teria me “embananado” nas duas primeiras, e só de pensar já fico até meio nervosa pq sei que ainda vou passar por essa fase e tenho medo de não conseguir dar conta do recado ¬¬
    Parabéns pelo texto Sérgio, e parabéns pra vc como pai tb! Acho linda a relação que vc tem com sua família, a forma carinhosa q vc trata a Bia, a forma espetacular que estão educando as pequenas..com certeza elas serão pessoas que farão a diferença nesse mundo tão mal educado q vivemos hj em dia.

    Vanusa Firmo disse:
    12/06/2011 às 08:26

    Cai na gargalhada com o “você está muito perguntadora hoje”. Meu Deus, como a gente tem sede de saber tudo quando é criança. Lindo isso. Queria ter 5 anos de novo, ser de alma livre assim. Tá certo que nem todas as crianças de 5 anos tem esse privilégio. Mas eu tive e sua filha também. Tivemos a sorte de pais e mães transparentes. Que ela continue assim, sem pular etapas, vivendo o mundo infantil, construindo os alicerces pra encarar esse mundo cada vez mais complexo. Felicidades, saúde e todas as perguntas do mundo pra Ana Clara!

    Elizabeth disse:
    12/06/2011 às 14:54

    Que bom seria se os pais entendessem que as perguntas fazem parte do início da construção do conhecimento de um ser e que tivessem paciência e tempo para respondê-las.

    Suelen de Andrade Viana disse:
    03/10/2011 às 22:35

    Vim aqui ver os posts sobre as músicas de que falaste no face e me deparo com isso. Demais!! Li sorrindo do início ao fim e terminei com ar de: QUE LINDO! Parabéns pela filhota.

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