A perda

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QUE TRISTEZA. QUE VAZIO. QUE DOR. A perda é irreparável.  Foi presente da minha mãe. Ninguém faz isso com quem está exilado de sua terra… Cortar os vínculos simbólicos é uma violência injustificada, crime inafiançável, crime ecológico contra a natureza dos afetos à terra natal. Estou vivendo meu holocausto particular, pediram a cassação da minha alegria…

Era só minha. Tão minha. Estava ali, todos os dias, companheira inabalável da rotina. Umas  vezes mais doída, outras menos, mas sempre ali. Nunca se negou a dividir comigo meu prazer, minha dor. Mas com ela a dor era prazerosa, numa contradição justificável, numa antítese permitida. Antes dela tinha tentado algo parecido, campineiro mesmo, mas não deu. Ela era como Tom Jobim, Patrícia Poeta e banho de cachoeira. Ou como banho de cachoeira com a Patrícia Poeta ouvindo Tom Jobim. Não tem igual. Ela é só ela. Nem clonando. E foi minha mãe que me deu… Puxa, que dor… irreparável perda.

Ficava contando as horas, olhando refolhadamente o relógio na sala de aula, esperando o momento de vê-la, de reencontrá-la.  Uma ansiedade de adolescente que vislumbra os primeiros frios da paixão na barriga. Um desejo de tocar sua pele quente, sensações rasgantes e inigualáveis. Só ela fazia isso. Só ela. O pensamento exclusivamente nela me desconcentrava do meu propósito de ter vindo aqui: estudar linguagem, língua. Porque pensar na língua era pensar nela. Não tinha jeito. Ela, língua… ideias…

Hoje cheguei e como sempre fui ao seu encontro na certeza de seu toque quente. Ledo e Ivo engano, como diz o Cony. Só silêncio. Só vazio. Alguma coisa estava errada. Pressenti a angústia por vir como se pressente o pai da namorada chegando de sorrate, namorada cujo seio estamos sofregamente a acariciar o cume. Aquela sensação instintiva de um algo terrível por vir. Olhei. Nada. Tateei. Nem sinal. Onde estaria minha companheira de pecado capital? Que fim levara? Revirei a casa toda. Necas de pitibiriba….

Efigênia!! Só a Efigênia, a eficiente e genial senhora (daí seu nome, creio) que trabalha aqui em casa, poderia me dar pista de seu paradeiro. Afinal, Efigênia, uma alagoana que veio fazer São Paulo, passara o dia todo em casa. Na minha casa. Eu estudando, com o ansiado reencontro com minha criança ressignificando as teorias de aquisição de linguagem, e Efigênia no batente, defendendo o seu, entre panelas e louças. Ela haveria de saber. “Claro!”, sorri por dentro, como diria meu primo Silvio. Mas Efigênia estava em casa àquela altura. Na sua casa. Foi embora antes de eu chegar. Tinha deixado a chave com Chaplin, o porteiro do bigodinho. Dez e meia da noite… será tarde? Incomodarei se ligar? Fiz várias perguntas que sabia no fundo serem retóricas. Claro que ligaria! Tarde nada! Tinha que saber, tinha que saber…

De repente o medo apoderou-se de mim. Uma voz ao fundo, em eco, sussurrava: “E se foi ela, a Efigênia?” Parei a ligação no terceiro número. Enfrento essa mórbida possibilidade? Ligo para aquela que poderia ser a algoz da minha loura, a razão do meu desespero, a Dona Regina do meu painel do senado? Tenho que ligar… sem notícias corria o risco de perder minha própria identidade, virar um sem-identidade. Um rosto na multidão paulista. Talvez até alguns erres retroflexos se apoderariam de minha língua… Língua! Lá volta o pensamento nela. Não! Sou Amazonense, da terra dos barés e dos igarapés. Preciso da minha cabocla. Anoiteceu e eu preciso só saber: onde está você? Já estava começando a cantar Roberto Carlos com a letra trocada, tal meu estado de confusão mental. Enquanto isso pensava se ligava ou não para a Efigênia.

Pensei em recorrer a molibdomancia, mas daria muito trabalho ir ao Aurélio para saber que diabos era isso. Desisiti. “Vou ligar!”, gritei valente. Mas antes de ligar, desci ao térreo do meu prédio. Fui procurar lá embaixo algum vestígio de seu cadáver, algum resto mortal, alguma pista. Pensei em Santa Rita de Cássia. Mas talvez Santa Rita, a das causas impossíveis, não compreendesse. Ela era de Cássia e Cássia fica na Itália e não no Amazonas. Então meti a mão na massa e procurei e chafurdei e futuquei em busca de seu cadáver. Nada. “Nonada”, ecoei na cabeça à moda de Guimarães Rosa.

Liguei. Criei coragem e liguei. “Efigênia, você viu… você sabe…?” Fez-se um silêncio de um segundo infinito e nele passou minha vida, num flash, como nos relatos de experiências de quase-morte. E foi como um choque de 1000 kilowatts! (E ainda por cima, com esse consumo,  vou ter que pagar a sobretaxa do apagão do irresponsável FHC).

Ela sabia. Foi ela. E confessou com uma frieza que atribuí ao clima para amenizar a barbaridade: “Botei fora, seu Sérgio. Mas se o senhor quiser arranjo outra”. Não, Efigênia, não… não é simples assim… é de amor que falamos. E amor para mim não é descartável. É um processo. Já sou um tio Sukita para a galera do “ficar”. Arranjar outra… em São Paulo?! Como? Ela é insubstituível, Efigênia… mesmo sabendo que em São Paulo tem uma ou outra até considerável numa emergência. Mas não dá, não dá… estou abatido, amuado, mofino. Um goleiro na hora do gol aos 47 do segundo tempo numa final de copa do mundo contra a Argentina,  revisitando mais dramaticamente Belchior.

Como, Efigênia, como?! Por quê? Pergunto, sem vislumbrar resposta que me conforte ou anime… Cadê minha mulher, o meu amor, preciso do teu cafuné…. Como, Efigênia de Deus, como é que você pôde jogar fora assim o saco de pimenta murupi que minha mãe trouxe pra mim…

 

 

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