Tristes Tropiques: a sociedade das pequenas autoridades

Postado em Atualizado em

[Escrito em 2001, em Campinas]

Já há algum tempo que venho pensando em escrever sobre isso. Uma situação que presenciei foi um ótimo motivo para eu sentar, ligar o laptop e elaborar essas mal traçadas, ou melhor, mal digitadas linhas (as novas tecnologias alteram definitivamente a linguagem).

Estava eu em meu ritual semanal de fuça literária na FNAC do Parque Dom Pedro, quando percebi um burburinho. Parei de folhear Tristes Tropiques de Lévi-Strauss, versão bolso, que decidi comprar para exercitar meu francês, e me encaminhei em direção a turba para saciar minha curiosidade básica de ser humano. Quem, ao ver um burburinho, não estica o pescoço para saber do que se trata o troço? Eu, curioso e filho de Dona Helena, fui lá. Era um encontro no espaço cultural da livraria. Um sarau com Rubem Alves, para o lançamento de seu livro: “Transparências da eternidade”.

Não é do Rubem Alves que quero falar. Não dessa vez. O Rubem eu tive o prazer de conhecer e ouvir em um convescote na casa do Carlos Brandão, cuja filha, Luciana, é amiga minha. Desnecessário dizer, Rubem é um poeta na acepção mais poética que a palavra pode ter. Uma coletânea de crônicas, seu livro é mais um daqueles que devem estar em nossa cabeceira, pois é cheio de boas ideias para alimentar o moinho dos sonhos noturnos. Trata de Deus e espiritualidade. Mas, como disse, não é do Rubem Alves que quero falar. É da Mônica. Explico.

A Mônica era a moça da FNAC que ficou responsável de apresentar o Rubem Alves para a plateia. Era a mestre-de-cerimônias da coisa lá. Vocês precisavam ver: a Mônica pegou o microfone e, usando todos os “podem estar apreciando e podem estar voltando” da vida, esse infinitivo gerúndio que virou moda, apresentou o convidado como se fosse a dona da livraria. Não! Como se fosse a dona do convidado. Ela era, naquele momento, a maior autoridade literária do mundo. O mundo era dela. Desfrutava ela de seus quinze minutos de fama, como previsto por Andy Warrol. A Mônica era Deus, talvez inspirada pelo próprio livro do Rubem.

Em determinado momento de sua fala, o Rubem Alves citou o filósofo Gaston Bachelard. Virou e perguntou: “Quem daqui é da livraria?” A Mônica, qual um pavão ansiando por olhares admirados e ciosos, disse, com a boca cheia de orgulho e de empáfia, escorrendo babinha: “Eu sou!” Aí disse o Rubem: “Então, compre os livros do Bachelard. Vocês, queridos, podem saber se uma livraria presta quando ela tem os livros do Bachelard”. Em seguida, veio a pergunta fulminante: “Vocês tem os livros do Bachelard aqui?”.A Mônica, cujo único autor que ela tinha certeza que tinha livros à venda ali era Rubem Alves, riu com um sorriso desmontado. E murmurou “é…claro…que…tem…deve…ter…acho que…”. E apagou. Acabou-se o que era doce. Seu momento de fama foi-se.

Uso esse episódio para falar de um fenômeno dos nossos tempos: a pequena autoridade. Mônica era um exemplo da pequena autoridade. A pequena autoridade é aquela pessoa que ao assumir uma função passa a ser dona do mundo. Sua tarefa é desempenhar um papel de forma exemplar, não importando o interlocutor envolvido na história, nem seus pormenores. Dura lex sed lex, meu filho. E vá reclamar pro bispo Macedo!

Exemplos de pequenas autoridades há vários. O seu Raimundo, por exemplo. Seu Raimundo era o guardador de carros de uma escola onde dei aulas. Não importava quão milimetricamente eu estacionasse o carro na vaga. Seu Raimundo sempre dizia que dava para eu estacionar melhor. Fazia, na sua autoridade legitimada para aquela função (e só aquela), o boçal do professor aqui ligar o carro de novo e reestacionar, segundo suas orientações, lógico. Aí sim, com seu aval de pequena autoridade, eu podia seguir para a sala de aula, atrasado mas instruído. Com o tempo aprendi. Já chegava pedindo a orientação dele que, cioso de seu papel, fazia-me estacionar em um paralelo perfeito com as linhas demarcatórias. Cheguei a sentir falta do seu Raimundo em um dia que ele estava doente.

Outra pequena autoridade: Bozó, o zelador do prédio onde moro. O nome dele é Zé Alberto, mas como ele se parece com o Bozó, do Chico Anysio, passei a chamá-lo assim. Só para consumo interno, claro. O Bozó é implacável. Um carro em cima da lista demarcadora da garagem, uma coisinha estendida na janela, um lixo mal amarrado e o Bozó interfona, do alto de sua bozolância, para humilhar esse pobre condômino que vos fala. As coisas só melhoraram quando, ao pintar o bloco do meu apartamento, um pintor quebrou o vidro de minha janela. Ahhhhhhhhhhhhhhhh. Que delícia…Cobrar do Bozó uma posição por aquela negligência… Nada no mundo paga a cara que ele fez naquele momento. Ele sumiu, que nem a Mônica, a dona do Rubem Alves. O meu vidro foi para o Bozó o que o Bachelard foi para Mônica. Ele derreteu como afta no bicarbonato.

Um último exemplo: a menina dos Correios da Unicamp. Aquela mocinha dos Correios é o meu maior temor, me deixando na maior caguira. Quando vou lá, ela sempre acha uma coisinha errada. Já barrou uma encomenda minha porque a caixa estava um cm cúbico acima do permitido, já vetou uma carta porque tinha um CD-ROM dentro (que ela reconheceu pelo tato!), quando em uma carta só pode “deixar ir” disquete, já me fez esperar trinta minutos para dar o envelope do Sedex e do AR para eu preencher só na minha vez, quando podia ter dado antes para eu já chegar com eles preenchidos. Enfim, uma pequena autoridade padrão. Lembra daquele título de “Operário Padrão”, que a Globo dava? Pois é. Se tivesse o prêmio Pequena Autoridade Padrão, eu a indicaria sem titubear. Ela bate todos. O Bozó, coitado, é fichinha. A Mônica, pobrezinha, café pequeno. Assim é a Gil. Gilcicleide, na verdade. Até o nome dela é de pequena autoridade.

Depois de muita humilhação, eu resolvi agir com a razão, afinal sou um homem das ciências. Como fazer para melhor viver em um mundo cheio de pequenas autoridades? Primeiramente tentei entender o fato. As pequenas autoridades surgem, creio eu, de uma situação-limite. Elas são pessoas que provavelmente não apitam absolutamente nada fora de sua função de pequena autoridade. Quando elas têm, então, um poder de decidir sobre a vida de um indivíduo, especialmente se esse indivíduo é socialmente construído em seu imaginário como sendo de alguma forma supostamente superior a elas, agem com mão de ferro, mandam o jeitinho brasileiro para o espaço cósmico dos besteiróis academicistas e detonam com as relações cordiais. São nazistas, fascistas, cossacos russos implacáveis, perpetrando vinditas de fatos imaginários, porém com consequências reais.

Percebi também, por outro lado, que cada um de nós tem seus momentos de pequena autoridade. Quantas vezes, por afirmação psico, emperramos algo que, para nós tem somente uma função sadolúdica, mas que para a outra pessoa, que depende de nós naquele breve momento, é algo crucial e determinante? Quantas vezes somos tomados pelo complexo de Deus ou de Felipe Barreto, o dono do mundo, comportamento que uma simples análise fria dos fatos nos revelaria ser extremamente dispensável? Quantas e quantas vezes não mandamos as pessoas reestacionar carros que não precisavam ser reestacionados, reembalar caixas por causa de uma polegada a mais (caixas-Marta Rocha?), reamarrar seu lixos, já bem amarrados, muito mais que nossos próprios valores e concepções até?

Assim, hoje já achei um modus vivendi em relação às pequenas autoridades. Resolvi não me estressar com elas. Rio da situação e faço disso uma terapia para minha paciência. Nem sempre consigo, confesso. Às vezes fracasso e vou pra casa, apoplético e cianótico. Faço então uma baita reclamação por escrito para o chefe da pequena autoridade, ou seja, para a média autoridade. Quase sempre funciona.

Querer ser Deus é muito, venhamos e convenhamos. O último que teve essa pretensão foi chutado para fora do esquema e fundou a concorrência que dizem, inclusive, que presta assessoria para as pequenas autoridades em seus atos e omissões.

   Eu, como disse, prefiro desestressar com um bom livro e um bom filme. Aliás, recomendo Tristes Trópicos, para quem não leu ainda. Afinal, é preciso viver e conviver, pois ninguém está sozinho no universo: “Pas plus que l’individu n’est seul dans le groupe et que chaque société n’est seul parmi les autres, l’homme n’est seul dans l’univers”. Recomendo igualmente o filme Uma Lição de Amor, com o Sean Penn, dando um show, e Michelle Pfeiffer, cada vez mais linda. Um belo drama que me fez chorar como nunca mais tinha chorado no cinema. Minha mulher teve foi pena. Só parei, humilhado, quando levei o maior esporro do lanterninha, cheio de autoridade, que me mandou tirar o pé da cadeira e calar a boca porque estava chorando muito alto.

4 comentários em “Tristes Tropiques: a sociedade das pequenas autoridades

    Ana Luiza disse:
    05/01/2012 às 23:02

    Que gostoso de ler!

    “Querer ser Deus é muito, venhamos e convenhamos. O último que teve essa pretensão foi chutado para fora do esquema e fundou a concorrência que dizem, inclusive, que presta assessoria para as pequenas autoridades em seus atos e omissões.”

    Pensei primeiro em Jesus, depois em Hitler… Acertei algum? haha

    Paradigma disse:
    03/02/2012 às 22:26

    Muiiiiiito bom.
    Amei o texto e a maneira de escrever.
    BJS

    Adrienne Nascimento disse:
    17/06/2012 às 16:59

    Que texto legal!

    adnnascimento disse:
    21/01/2014 às 12:05

    Esse texto é legal demais!

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