Jura secreta

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Só uma coisa me entristece:/o beijo de amor que não roubei,/a jura secreta que não fiz,/a briga de amor que não causei./Nada do que posso me alucina/tanto quanto o que não fiz./Nada do que eu quero me suprime/de que por não saber ainda não quis./Só uma palavra me devora:/aquela que meu coração não diz./Só o que me cega, o que me faz infeliz,/é o brilho do olhar que não sofri…

Na vida da gente há os amores. Eles são cantados e decantados em poesias, músicas, textos. Quanta tinta se usou para falar no amor realizado, do encontro marcado e cumprido ou mesmo do não marcado, mas magicamente acontecido por diagramação do sr. Destino! Como são ternos os amores que dão certo! Como eles nos motivam a continuar a acreditar, a ter esperança de que o mundo tem esperança e que sua salvação passa pelos encontros afetivos desse planeta complexo chamado Terra. É um todo harmonioso em sua desarmonia.

Mas e os quase-amores? Desses ninguém quase fala, apesar da sua onipresença na vida de cada um de nós. Os quase-amores são patinhos feios dos contos de fadas. Os quase-amores são os amores que tinham tudo para ser e nunca foram? Os amores que bateram na trave do jogo da vida. Os amores que poderiam ter sido se não fosse apenas um capricho da sincronia do tempo, de um esbarrão que não aconteceu por pouco, de um encontro naquele dia em que todos foram para aquele bar, menos eu. Como diz Raul: “Ah, os amores que a vida me trouxe e eu não pude viver”…

Os quase-amores são quase por uma infinidade de razões. Porque não tivemos aquela coragem, porque tivemos aquela ousadia ou porque, ainda que tudo conspirasse a favor, não dava mesmo por aquele pequeno detalhe. O diabo mora no detalhe. E a gente sabe porque que não dava. A gente individualmente sabe. “Um lado carente dizendo que sim e a vida da gente gritando que não…” Impossibilidades de todas as ordens das impossibilidades. Se não fosse aquele detalhe, que grande amor poderia ter sido. Mas há o limite. E o limite é uma linha tímida que se encosta em outra sem ter a coragem de tocá-la.

Se começamos a pensar nesse quase-amor, nesse universo do futuro do pretérito, às vezes até entristecemos. Porque nunca roubamos aquele beijo de amor e com ele a chave do borboletário de nosso estômago. Sim, borboletas voam em nós quando amamos e as borboletas do quase-amor nunca bateram suas asas. Ficaram presas, como naqueles vidros de colecionadores. Para quem ama, borboletas são para voar e não para ficar inertes, quase-mortas. A inércia não combina com a paixão. A paixão bate asas e é colorida.

Ficamos tristes também porque não tivemos a chance de fazer aquela jura secreta que só nós dois saberíamos. E  mais ninguém. O nosso segredo que não houve. Nada mais triste do que um segredo a dois que não houve. Que desperdício de afeto num mundo carente de gostar! Uma história não escrita, no entanto, ainda é uma história. Os quase-amores são protagonistas de nossa história não escrita. O segredo que não houve entre quase-amores é uma falha irrecuperável, incompensável. Nada compensa. Quando não houve, não teve. Simples assim. E complexo e doloroso assim. Por que não? Porque quase.

E as brigas de amor que não causamos com os nossos quase-amores? O ciúme não alimentado, o zelo excessivo, o cuidado extremado. A posse é um elo entre o desejo e o amor. Mas essa ponte nunca terminou de ser construída. Sequer começou. E a briga não veio porque você não veio. Porque não houve o terceiro, feito do encontro de nós dois, para cuidar. Não tendo havido a briga de amor, como usufruir do fazer as pazes do amor? A delícia dos consertos dos passos em falsos que culminam em concertos amorosos que formam a trilha sonora dos recomeços? Como pensar em recomeço se não houve começo? E não houve por quê? Porque foi um quase-amor. Quase.

Fizemos tanto. A nossa vida que não foi quase pode até ser um filme premiado. Nada a retocar. Mas isso não suprime a dúvida sobre o como teria sido o que foi quase. Ou que quase foi. Nada do que podemos nos alucina tanto quanto o que não fizemos. Como teria sido se? Quem de nós nunca se fez essa pergunta? Como uma conjunção de duas letras é capaz de disparar na mente a vontade de seguir em hiperlinks por caminhos que nunca percorremos, por estradas em que nunca pisamos, por corpos em que nunca tocamos, por quartos que nunca visitamos? A imaginação desembainha a espada na ilharga do seu Ipiranga particular e grita sua independência do tempo, do espaço, do real. Mas é um quase.

Há coisa que ainda não quisemos. Porque nunca as soubemos. Como querer o que não se sabe ainda? Um quase-querer ou um querer inteiro? No quase-amor, há coisas que teriam de ser inventadas, produtos do quase-encontro. Quase-desejos, quase-canções, quase-histórias, quase-sorrisos, quase-prazeres, quase-você. Meios caminhos para meios lugares, para meia lembrança. Se não fosse o quase, quase.

No universo paralelo dos quase-amores, só uma palavra nos devora: aquela que nosso coração não diz. É o sentido do silêncio. O silêncio espesso, viscoso, denso. Quem disse que silêncio não significa? O silêncio é o estado primeiro da linguagem. Por isso dizemos “quebrar o silêncio” e  “ficar em silêncio”. As palavras não ditas pelo coração para um quase-amor ficam lá nos consumindo, ruminando seu significado represado, borbulhando como num pântano do Scooby Doo. Elas nos devoram. Cardiofagia semântica.

No mundo dos quase-amores, tudo se paradoxaliza. O que cega é o brilho do olhar que nunca sofremos. Um quase-brilho. O que corta é a faca do amor que nunca foi amolada pela paixão. Uma quase-lâmina. O que mata é a vida a dois que nunca pode nascer. Uma quase-vida. Um quase-amor é o inverso de um parto. O quase-amor é um aborto de uma vida a dois. Com todas as dores e vazios inerentes à interrupção de uma vida. De uma quase-vida.

Pense, querido leitor e querida leitora, nos seus quase-amores. Rascunhem seus roteiros a dois. Escolham as suas músicas que nunca tocaram, os versos em guardanapos que nunca foram escritos, as marcas de amor nunca deixadas nos lençóis. Pensem na sobremesa nunca dividida na mesma colher, no calorzinho de corpos nunca misturados sob a coberta, nos colos nunca visitados. Quase-amores fazem parte de nossa memória afetiva. Em seu silêncio. Em sua dimensão. Em seu quase-mundo. É parte do nosso quase-eu, o eu que não pode ou não pôde ou não pode existir.

É como dizia Paulo Leminski: “Não fosse isso e era menos. Não fosse tanto e era quase”. Foi tanto. Foi quase. Ah, o quase como motor da vida! Quem quase ganhou ainda joga. Quem quase passou ainda estuda. Quem quase morreu ainda vive. Nem que seja morrer de amor. Ou de quase-amor. Qual é a sua jura secreta?

 

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10 comentários em “Jura secreta

    Raquel Cabral disse:
    23/06/2011 às 15:52

    Perfeito.

    Fabiana Sarges disse:
    23/06/2011 às 17:48

    Muito bom! Enquanto lia, lembranças apareciam.

    Marcela Ortolan disse:
    23/06/2011 às 19:22

    Só quem aprende a passar resiliente pelos quase-amores da vida é capaz de viver um amor real. Quem tem fixação por quase amores acaba levando uma quase vida.
    Parabéns pelo texto!

    Morgana Medeiros disse:
    23/06/2011 às 20:41

    Esses quase-amores são as marcas, que quase machucou, mas se sente.A alegria do quase trás consigo um pouco de paz e serenidade!

    Adorei seu texto…Parabéns!!

    http://mmedeiross.blogspot.com/

    raposoluana disse:
    24/06/2011 às 02:24

    lindo.

    Liliane Canto disse:
    24/06/2011 às 09:04

    Vixe, minha lista de quase-amores é muito maior que a lista de amores!!!!!!! Melhor não pensar a respeito,,,

    Parabéns, Sérgio !!!! Como sempre teus textos falam ao coração… pungentes muitas vezes. Forte abraço.

    Renata Nascimento disse:
    27/07/2011 às 01:50

    Sim, borboletas voam em nós quando amamos e as borboletas do quase-amor nunca bateram suas asas. Ficaram presas, como naqueles vidros de colecionadores. Para quem ama, borboletas são para voar e não para ficar inertes, quase-mortas. A inércia não combina com a paixão. A paixão bate asas e é colorida.

    Sérgio Freire

    Berenice Corrêa disse:
    10/10/2011 às 00:50

    O pior de tudo é o “se” que esse “quase” traz… reconhecer que certos quase-amores, só não o foram por causa de uma quase coragem…
    Serginho, incrível como muitos dos seus textos me caem no momento certo…tenho refletido bastante sobre esse tema nos últimos dias. Um “quase” que, até pouco tempo, teve tudo pra “ser” um real, mas que de repente eu descobri que vai ficar como “quase” mesmo…A jura? Bem, continuará secreta…pelo menos até qua a vida me dê outra chance de fazê-la a alguém!
    Grande abraço, querido amigo!

    Jackline disse:
    01/12/2011 às 23:20

    Amei o texto! Estou com um quase-amor… inacabado!

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