Gentileza

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Apagaram tudo/Pintaram tudo de cinza/A palavra no muro/Ficou coberta de tinta/Apagaram tudo/Pintaram tudo de cinza/Só ficou no muro/Tristeza e tinta fresca/Nós que passamos apressados/Pelas ruas da cidade/Merecemos ler as letras/E as palavras de Gentileza/Por isso eu pergunto/A você no mundo/Se é mais inteligente/O livro ou a sabedoria/O mundo é uma escola/A vida é o circo/Amor: palavra que liberta/Já dizia o Profeta…

Estava num bar familiar com meus cunhados. A mania de olhar o Twitter de cinco em cinco minutos me mudou o rumo da noite. Li o tweet do Marcos Varella dizendo que a Ana Luiza tinha ido. Um embargo subiu a garganta. Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza. A noite ficou mais triste. Ato contínuo, levantei da mesa e fui abraçar minhas meninas, que brincavam no hall. Sem entender muito o porquê daquele abraço tão apertado, ambas me abraçaram forte, retribuindo com um abraço quente que a Carol e o Marcos não mais poderão dar nem receber da Aninha. O que machuca sem fim não é a ausência. É a impossibilidade da presença de novo.

Quem tem filho não tem como não sentir o calafrio da ideia que, de tão doída, expulsamos imediatamente da cabeça quando se avizinha pela porta da solidariedade. Não há como nos pensarmos no lugar dos pais de Aninha. Porque esse é um não lugar. Por isso inquieta, por isso mexe, por isso dói. Porque é uma dor sem nome. Perdemos os pais, ficamos órfãos. Perdemos o companheiro, ficamos viúvos. Mas perder um filho é uma dor sem nome. E não ter nome significa que a dimensão da coisa não cabe na linguagem, logo ela que, pretensiosa, quer-se como a dona dos sentidos do mundo. Mas esse sentido lhe escapa. Escapa a qualquer um de nós. Essa inversão da ordem das coisas é um puzzle, um nó indesfazível.

Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza. Só ficou no muro tristeza e tinta fresca. Era isso que a moça do violão cantava na hora que eu segurava um choro que não é só meu. É de tanta gente. Tanta gente que essa menina tocou com sua história. Tanta gente que teve seus problemas redimensionados e apequenados pela grandeza de sua força, pela beleza de sua luta. Tanta gente que se reaproximou de Deus e reaprendeu a juntar as mãos para rezar e orar. Tanta gente que sentiu pela primeira vez o toque da solidariedade a lhe passar as mãos pelos cabelos. Por isso a primeira reação é de tristeza. Porque a gente queria a Ana Luiza viva. Porque vibramos com cada notícia boa. Porque empurramos os leucócitos com nossos pensamentos positivos e bem querências. Tristeza porque nada consola o reverso de um parto que é a morte de um filho. Tristeza porque todo amor jogado na direção dessa família é ínfimo para estancar sua dor da ausência do beijo, da ausência do sorriso, de uma história que não terão mais para contar no futuro. Só Deus. Só Deus sabe o porquê. Só Deus sabe como acalentar. Mesmo que a gente queira fazer a nossa parte, como um beija-flor que voa até o rio e traz água no bico para apagar um incêndio na floresta.

Não vou mais ficar me perguntando: “Por quê?”. Não vou falar de tristeza. Ela fala por si. Precisamos é de outra coisa. Precisamos é entender o que a história da Ana Luiza nos ensina, nos muda, nos modifica. Nós que passamos apressados pelas ruas da cidade merecemos ler as letras e as palavras de gentileza que essa menina, adotada por milhares de corações Brasil afora, escreveu em nossos muros particulares. Ana Luiza ensinou muita gente a querer bem. Ensinou muita gente a minimizar coisas miúdas que se querem grandes no nosso dia-a-dia. O que pode ser maior do que esse trajeto? O que pode ser mais difícil do que esse caminho? Ana Luiza reparametrizou a vida de muita gente. Esse é seu legado. Foi para isso que veio ao mundo. Racionalizo o que é irracional para a Carol e para o Marcos. Talvez eles também achem isso. Talvez seja esse o recado de Deus para eles. Eu apenas rezo em meu silêncio para Deus por eles. Não peço nada, pois não sei o que pedir. Só olho para Deus de olhos fechados e Ele já sabe o que fazer. Ele sempre sabe…

Por isso eu pergunto a você no mundo se é mais inteligente o livro ou a sabedoria. O mundo é uma escola. A vida é o circo. A moça continuava a cantar a música enquanto eu não mais prestava atenção na gentil conversa do meu cunhado à mesa. Vou envelhecendo e vou percebendo que a sabedoria é mais inteligente que o livro. E sabedoria requer estar aberto ao tamanho de nossas pequenezas, ao desconhecimento de nossas histórias. Olhai os lírios do campo. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Viver na plenitude com os seus, sorvendo cada momento. Porque amanhã pode não ser. O mundo é uma escola. Para onde olhamos, há o que aprender, basta olhar com o olhar sedento de sabedoria da criança. Basta olhar os fatos e seus recados. A vida é o circo. Alegrias, mágicas, fim de show. Mas não acabou, não. Porque o amor é palavra que liberta. Já dizia o profeta.

Quando demos um beijinho no rosto de Ana Luiza ao nos despedir da visita que fizemos quatro dias antes de sua ida, demos tchau e vimos a mãozinha de um corpo fragilizado acenar de um lado para outro. Corpo frágil. Alma imensa. Alma que hoje se espalha pelos corações por ela tocados. Que hoje se apresenta ao lado dessa lua sorridente, que está feliz porque uma estrela nova brilha e brilha forte no céu. Aninha disse à mãe que estava com medo de morrer. Porque não queria que a mãe sentisse saudade. Era uma criança especial, sem dúvida. Sua última gentileza com o mundo foi torná-lo um lugar mais bonito com sua luta. Com sua força, Ana Luiza.

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31 comentários em “Gentileza

    Enir Barroso disse:
    09/07/2011 às 00:10

    Parabéns pelo texto, muito bonito e emocionante. Penso que o legado mais importante q a Ana luisa deixou foi: faça o q tem q fazer hoje, talvez amanhã vc não tenha essa oportunidade.
    Façamos as nossas orações pela familia da Ana Luisa…
    um abraço

    moncamelo disse:
    09/07/2011 às 00:11

    Louvo a Deus por tua vida, por tua sabedoria e por tua familia!
    Louvo a Deus por conseguires transcrever nossos sentimentos de forma tão bela.
    A tristeza é enorme mas a certeza de paz e descanso são maiores.
    Continuo em oração por vocês familia Freire e o casal Marcos e Carol, e em gratidão pela vida e história da Ana Luiza pra nossas vidas e de muitos.

    kelly Beatriz disse:
    09/07/2011 às 00:39

    Lágrimas, muitas lágrimas:”…O que machuca sem fim não é a ausência. É a impossibilidade da presença de novo.” Aninha, Giulia, anjos que fizeram a diferença na minha vida,na vida de muita gente…

    Marcelo V Dias disse:
    09/07/2011 às 00:55

    O que mais dizer? Tudo já foi dito de forma cantada.
    Apagaram tudo/Pintaram tudo de cinza.

    Apagou uma luz…. para nós, acendeu uma estrela no céu.

    Dellavechia disse:
    09/07/2011 às 00:56

    O que devo falar sobre suas palavras: tocante e verdadeiro.

    Dina Tavares disse:
    09/07/2011 às 01:10

    Parabéns pela força que você tem em fazer esse relato tãocomovente fazendo com que eu, e creio outras pessoas verão a vida de uma outra forma.Ana Luiza muito nos ensinou.Deus dará conforto a seus pais

    RENATA FERRARA disse:
    09/07/2011 às 01:14

    Que texto maravilhoso. Sensível, para dizer o indizível. Obrigada. Estamos juntos. Abraços!

    Viviane Mesquita disse:
    09/07/2011 às 01:18

    Lindo e emocionante demais o seu texto! Fiz a mesma coisa que você ao saber do falecimento de nossa pequena Ana Luiza, peguei meus filhos e os abracei fortemente, agradecendo a Deus pela saúde deles. Aninha, pequena do sorriso encantador, deixou sua marca em nossos corações.
    Um abraço!

    Telma disse:
    09/07/2011 às 01:58

    Sérgio, sua reação ao saber da viagem da Aninha, deve ter sido a mesma de muita gente, beijar e abraçar nossas crias, numa tentativa de segurar, proteger, impedir que aconteça o mesmo. Que medo que dá! Que mistura de sentimentos, de alívio em ver nossos pequenos brincando e vergonha por pensar nisso. Escrevo ao mesmo tempo que choro… Aninha foi guerreira, Carol e Marcos continuam sendo… Só Deus pra explicar… Só Deus pra acalmar…
    Telma

    Ju Ramalho disse:
    09/07/2011 às 06:21

    Penso que criaças não morrem, elas apenas recolocam as asinhas e voltam a brincar novamente de onde vieram ,no Céu….

    Texto maravilhoso… como todos…. consola o coração.

    Debora Fernandes disse:
    09/07/2011 às 06:52

    Parabéns pelo texto.. Não há com conter as lágrimas..

    Celeste disse:
    09/07/2011 às 07:16

    Sérgio, esa dor não dá para ser definida nem explicada. Ela se chama saudade! Mas Deus não permitiria que isso acontecesse sem nos deixar algo positivo. Esse processo mexeu, para melhor, com a vida de muitas pessoas! Quando vc diz”Tanta gente que essa menina tocou com sua história. Tanta gente que teve seus problemas redimensionados e apequenados pela grandeza de sua força, pela beleza de sua luta. Tanta gente que se reaproximou de Deus e reaprendeu a juntar as mãos para rezar e orar. Tanta gente que sentiu pela primeira vez o toque da solidariedade a lhe passar as mãos pelos cabelos…”Talvez essa fosse a missão da pequena Ana Luisa. Com certeza essas pessoas não serão mais as mesmas! Ana Luisa,esse anjinho tão pequeno, deixou uma lição de vida para todos nós! Que ela, ao lado Pai, ore por todos nós aqui na Terra! Amém!

    Vanessa Mota disse:
    09/07/2011 às 09:42

    Lindo o texto Sergio e traduz exatamente meu sentimento nesse momento. Ana Luiza mudou a minha maneira de encarar a vida e de muitas pessoas. Que Aninha descanse em Paz e que Deus console, conforte o coração do Marcos e Carol

    Jane Rocha disse:
    09/07/2011 às 10:05

    Denso, primorosamente denso!

    Maiara Motta disse:
    09/07/2011 às 10:45

    Lindas palavras, profundas e sinceras! Como mãe que sou, sinto uma enorme dor por essa Mãe e Pai! É difícil mesmo entender e aceitar os desígnios de Deus quando estamos falando de AMOR, de uma filha que não mais poderá abraçar seus Pais…

    Carol Sakkinen disse:
    09/07/2011 às 10:55

    Simplesmente Perfeito!!!!

    Ludmilla Vieira disse:
    09/07/2011 às 10:59

    Lindo texto. Momento inexplicável. Perda inestimável. VIVA ANA LUIZA!!!!!!! VIVA!!!!!

    Sandra Abreu disse:
    09/07/2011 às 11:33

    Sergio, obrigado pelo seu texto, isso nos consola muito. Eu perdi a minha menina a 3 meses atras, exatamente com a mesma doença e a idade da Ana Luiza, por isso revivo todo esse sofrimento. O sofrimento de vcs com certeza nos consola muito e vemos o quanto esse mundo tem pessoas maravilhosas que sofrem junto com a gente, nos dão forças, porque a luta é cruel, vemos nossos pequenos amados morrendo um pouco a cada dia. Quando minha filha faleceu, todos os meus amigos fizeram o mesmo que vc, abraçaram seus filhos, é natural, a dor é muito grande, a sensação é que 80% de nossa alma foi junto com eles e temos que viver apenas com 20%, o mundo perde a cor, a beleza e vemos exatamente tudo cinza. Vivemos com um nó na garganta e um aperto no peito todos os dias, sem aquele sorriso, sem o carinho dos nossos amores,so mesmo vivendo um dia de cada vez, sem pensar no futuro, porque perdemos o nosso futuro. Mas vamos caminhando devagar e sempre, na certeza do reencontro e tentando ludibriar a saudade, os amigos são muito importantes nessa hora.
    Um beijo no coração maravilhoso de todos vcs, que Deus nos abençõe!

    Cláudia Gomes disse:
    09/07/2011 às 11:35

    que lindas palavras…

    Rosalba Machado disse:
    09/07/2011 às 11:59

    Vc disse tudo o que queríamos dizer e tudo o que sentimos no momento que soubemos da partida da Ana Luiza.

    Ana Cristina Araujo disse:
    09/07/2011 às 12:42

    O seu texto disse tudo q sentimos nesse momento.Só Deus. Só Deus sabe o porquê. Só Deus sabe como acalentar.DEUS nos proteja*-*

    Gláucia Chair disse:
    09/07/2011 às 14:00

    Dor sem nome. Nunca tinha pensado nisso. Mas é exatamente isso. Vocè difiniu muito bem.. Essa pequena conseguiu unir a todos nós no mesmo sentimento. Parabéns pelo texto.

    Pedro Rogerio disse:
    09/07/2011 às 16:32

    passei a acompanhar a história de Ana Luiza de uns tempos pra cá, fiquei completamento obcecado.
    assim como voce, eu entrava de 5 em 5 minutos no twitter, só pra ver se tinham boas noticias de aninha, ontem lembro que, estava chegando em casa, abri a pagina pelo cel, nao vi nada recente, entrei em casa, sentei e liguei o computador e resolvi entrar no twitter do @mv_mao novamente e tinha um atualização de 1 minuto antes, dando a noticia que ninguem queria ouvir.
    fiquei estatico, em choque, chorei, não sabia explicar para as pessoas que aqui estavam o motivo de eu ficar daquele jeito, a impressão que eu tive e tenho é que alguem muito, mais muito intimo tinha me deixado, mas não, era uma menina que eu não conhecia, que nunca vi, mas que com toda sua vontade de viver conseguiu fazer isso comigo e com milhares de pessoas por esse país afora.

    vi alguem falar ontem pelo twitter a seguinte frase: “Ana luiza com seus sete anos deixou exemplos para um século”

    Mikaelly disse:
    09/07/2011 às 17:31

    parabéns pelo lindo texto, é bem assim, essa pequena guerreira nos mostrou muito com sua forca, com sua fé e coragem… que Deus conforte o coracao da Carol e do Marcos, só Ele pode… Aninha brilha no ceu e irradia seu lindo sorriso… “que nao seja apenas saudade + uma recordacao eterna…”

    Luana. disse:
    09/07/2011 às 19:06

    Chorei.

    Soraya Sampaio disse:
    09/07/2011 às 21:47

    Muito obrigado por traduzir tão bem o que eu sinto. Que Deus te abençoe sempre.

    Mônica Teixeira disse:
    09/07/2011 às 22:12

    sem palavras, apenas lágrimas…

    Vanusa Firmo disse:
    09/07/2011 às 22:45

    Estava tentando me imaginar no lugar da Carol ao ouvir o medo da Ana Luiza. Simplesmente não consegui. É impossível mensurar o que essa mãe sentiu ao ouvir isso da filha e ainda ter forças de consolá-la, acalmá-la. Mãe é realmente um pedaço de Deus na Terra. Seu texto me deixou com o pensamento embargado, como tem sido cada vez que leio algo sobre essa pequena desde ontem. Eu não saberia colocar melhor em palavras o que Ana Luiza causou. :~

    Rosi disse:
    10/07/2011 às 16:34

    Hoje meu sentimento é transitório, minha filha faz aniversário…feliz por mais um ano de vida…por outro lado, uma partida…sem palavras!!

    jeduardodantas disse:
    10/07/2011 às 19:50

    Sérgio, parabéns pelo texto. Aninha foi uma transformadora: de relações, de processos, de concepções de vida, de mundo… o que podemos guardar dela é que, enquanto estamos aqui reclamando de coisas não tão importantes, há uma série de pequenos guerreiros e guerreiras lutando pela mais válida de todas as batalhas. Acho se que lembrarmos disso e tentarmos ajudar esses combatentes, mesmo que de forma tímida e de longe, estaremos fazendo um tributo honesto e fiel àquilo que Ana Luiza representou para nós. Que os pais dela encontrem logo o conforto e alento merecidos.

    Marcia Brazão disse:
    11/07/2011 às 12:21

    Sérgio , emocionante seu texto, todos queríamos a vitória. Que deus console a dor no coração da família. Como disse a carol: Nunca chegou em casa sem a Ana luiza.

    O Céu está em festa desde a partida da Aninha, concordo com um comentário dito mais cima: Mais uma estrela brilha no céu..

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