Renovação

Postado em Atualizado em

É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto./Tomar nas mãos o leme desse barco. /Sair da tempestade, pôr ordem no tempo,/sair de contra o vento e cheio de vontade,/sair desses porões e cantar ao céu de novo;/A voz já não aguenta e o peito já não cabe mais./É hora de tomar nas mãos de novo a nossa geografia,/pintar de liberdade o verde desse mapa./Contar de novo a história como há muito tempo/Já não se ouve mais nem se contou verdade./Bater na mesma nota e na mesma canção,/cantar de braços dados, levantar a mão./Canta, coração,/por essa voz que canta em mim,/esse desejo sem medida e paciência,/quase já desesperado de esperar/todo esse tempo e, esse grito,/sufocando a garganta sem parar./Canta, coração,/Por essa voz que canta em mim,/e esse desejo sem medida e paciência,/quase já desesperado de esperar/Todo esse tempo e esse grito/sufocado na garganta sem sair…

Ah, como nos ancoramos no passado. Somos como o personagem de Woddy Allen em “Meia-noite em Paris”.  Sempre querendo viver no tempo que já passou. Aí, deixamos crescer à nossa volta o mato da mesmice, quando sabemos no fundo que deveríamos aparar essa grama da existência. Ela nada acrescenta à paisagem de nossa vida. Mas o mato vai tomando conta, tomando conta, tomando conta…

E as tralhas? Quantas vezes acordamos dizendo: hoje eu vou jogar tanta coisa fora. Objetos, gentes, memórias, afetos. E a hora da limpeza não chega, sempre adiada pelo medo de saber que junto daquilo vão partes importantes da gente, partes que um dia já foram absolutamente fundamentais. Mas e daí?

Pois bem! Chegou a hora. É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto. Respire fundo e não pense duas vezes. Faz anos que você guarda aquela cópia xerox daquele texto que você nunca usou de novo. Faz meses que você teima em guardar lembranças de alguém que te machucou. Por que resistem na sua caixa postal e-mails que lhe entristecem? Coragem! Tome nas mãos o leme do seu barco! Sem isso você não sai dessa tempestade que assusta, mas que não é imbatível. Segure forte o timão! Enfrente as ondas! Se molhe por uma boa causa. Não morra na cabine. Não espere fazer água. Corte seu capim do jardim! Deixe as rosas… As flores da memória devem ser guardadas na antologia universal do amor. Já as ervas daninhas? Mande-as para a puta que os pariu! Desculpe a falta de estilo, mas é o nome do lugar para onde devem ir. É para não errar o endereço.

Cuide! Se mexa! Ponha ordem no tempo! Arrume sua vida, suas prioridades. Ei! Prioridade é como braço: só dá para ter dois. Convoque o tempo para uma conversa, mas saiba que o tempo é um negociador duro… Beba um pouquinho para ter argumento. Lembre-se: ela vai zombar de você porque ele sabe passar e você não consegue passar de onde estar. Diga a ele, como dona da situação, que você está ali para libertar as paixões que ele aprisionou. Que você quer despertar a paixão por si que ele adormeceu. Acue o tempo. Acuar o tempo é sintoma de retomada das rédeas. Mostre quem manda.

Saia de encontro ao vento. Sinta o ar bater na sua cara e resista. Dê a outra face e siga, cheia de vontade. Para duelar com o vento, que já se achava dono do pedaço, no entanto, é preciso ranger a porta, deixar entrar a luz e sair desses porões fétidos onde você se enfiou. É preciso cantar ao céu de novo a pleno pulmões, que, a propósito, precisam do ar novo para se livrar dos ácaros afetivos que você arrumou por escolha. Jogue as coisas velhas fora desse quarto… tome nas mãos o leme desse barco… enquadre o tempo… domine o vento… cante, porque a voz já não aguenta tanto silêncio eloquente e o peito já não cabe mais de tanto querer novo!

É hora de tomar nas mãos de novo a sua geografia. Definir seus caminhos, seus rumos, sair da inércia vegetativa. É hora de pintar de liberdade o verde do seu mapa. É a sua vida, criatura! A sua! Desperte para isso! Ninguém pode direcionar seus caminhos… Conte a história! Desafie o seu Bentinho e faça-se Capitu escrevendo a sua versão. Conte a sua verdade. Para isso, bata na mesma nota, na mesma canção até ultrapassar o saber de cor. Disciplina é liberdade. É preciso, além de saber de cor, aprender. Levante as mãos e cante!

Deixe o coração cantar por essa voz que canta em você. Deixe arder o desejo sem medida e sem paciência de esperar desesperado todo esse tempo com um grito na garganta sem sair. Ponha para fora! Cuspa a bola de pelo dos fatos da vida! Renove-se!

Sabe… Um passo que você dá e você já não está mais no mesmo lugar. É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto… tomar na mão o leme desse barco… Cortar a grama que oblitera sua janela para o mundo. Vá e resolva logo essa coisa doida que é viver… Renovação é a palavra de ordem.

Anúncios

5 comentários em “Renovação

    Marcela Ortolan disse:
    07/08/2011 às 10:12

    “Hoje joguei tanta coisa fora/ eu vi o meu passado passar por mim/ cartas e fotografias gente que foi embora/ a casa fica bem melhor assim…” Hebert Vianna

    Falcão Júnior disse:
    07/08/2011 às 12:23

    Me identifiquei com cada palavra desse texto, muito bom,

    Leda Barata Sousa disse:
    07/08/2011 às 16:59

    Vc nao sabe como esse seu texto deu um pouco de ânimo ao meu coração!!!!Obrigada por tão belas palavras…..

    Ana kely disse:
    16/08/2011 às 21:34

    Nossa!….esse texto é lindo mesmo…..ta na hora….ainda é hora….porque da tempo de arrumar essa vida….vida doida….arrumar o quarto….quarto arruma a vida que …..vida!

    Selma Maia disse:
    03/06/2012 às 16:52

    Lendo o texto, e com um nó na garganta para não chorar……em pleno salão de beleza. Parabéns pela sensibilidade nas palavras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s