Caçador de mim

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Por tanto amor/Por tanta emoção/A vida me fez assim/Doce ou atroz/Manso ou feroz/Eu caçador de mim/Preso a canções/Entregue a paixões/Que nunca tiveram fim/Vou me encontrar/Longe do meu lugar/Eu, caçador de mim/Nada a temer senão o correr da luta/Nada a fazer senão esquecer o medo/Abrir o peito à força, numa procura/Fugir às armadilhas da mata escura/Longe se vai/Sonhando demais/Mas onde se chega assim?/Vou descobrir/O que me faz sentir/Eu, caçador de mim…

Há dias em que nos pegamos avaliando a vida. O que foi, quem foi, porque foi. As decisões que tomamos são revividas e pesadas na balança do tempo. Por que fui por aqui e não por ali? Por que com aquela pessoa ou por que não com ela? Seja qual for a avaliação, a conclusão é sempre a mesma: vivemos tantos amores – bons e ruins. Sentimos tantas emoções – memoráveis ou esquecíveis. A vida é assim. O que somos, a vida nos fez assim.

Pensamos nos momentos que tratamos com doçura. Nos gostos amargos que às vezes  restaram nos noves fora da coisa. Ou quando fomos atrozes quando nos queriam doces e pusemos a perder apostas belas e certas, magoando quem só nos quis bem. Caçadores de nós mesmos, nunca nos achamos na selva de nossas escolhas… Queremo-nos uns e achamo-nos outros.

Quantas vezes, nessa estrada de tijolos amarelos, ficamos presos? A pessoas, a promessas, a canções… Em quantas entregas nos pusemos? Em projetos, em apostas, em paixões. Algumas que pareciam que iam ter fim, mas que ainda ecoam, perdurando em cores, cheiros, músicas, saudades com destinatários certos.  As paixões nunca têm fim. Dormem, catalépticas, à espera de uma do beijo da memória para despertá-las dos seus sonos de Branca-de-Neve.

Manoel de Barros diz: “Do lugar onde estou já fui embora”. Porque a gente sempre está onde já esteve e não onde se está. Quando chegamos onde estamos, o rastro de vida nos leva a querer a máquina do tempo para viver o protagonismo daqueles tempos – sem anular o tempo presente, deixe-se claro! – e para, inclusive, tropeçar nas mesmas pedras do caminho… Vamos sempre nos encontrar longe dos nossos lugares. Nós, eternos caçadores de nós mesmos…

Só conhecemos o passado. Por isso ele nos encanta e nos convoca. O futuro é o desejo de ter um passado. Há uma luta diária para viver a vida. A única maneira para podermos sobreviver a isso é se não temermos nada: as pessoas que atravessarão nossos caminhos, os baixos que se alternarão com nossos altos, as marés que secarão e nos deixarão down. Nada a temer, a não ser o correr da luta, que, espera-se, sempre se apresente. Enquanto houver luta, há vida. Enquanto houver vida, nada a fazer senão esquecer o medo. Precisamos nos encontrar. Como nos encontrar sem nos jogarmos de peito aberto numa procura? Seremos capazes de fugir às armadilhas da mata escura do nosso lado desconhecido? A caça segue…

Por vezes, parados, sonhamos. Sonhamos, vez por outra, demais. E longe vamos. Mas o ceticismo da vida nos indaga, sarcástico: aonde se chega assim? Itinerários desconhecidos, caminhos abertos à foice, trilhas desbravadas do zero. Nos perdemos. Choramos sem rumo. Caímos no fosso. Mas respiramos de novo, sacodimos o pó da queda e seguimos singrando as águas da vida. Somos nós, virando o mundo, cruzando mares, numa caça incessante ao nosso eu. Caçando a nós próprios. Para descobrir, no fim da vida, que essa busca era possível, sim. Mas nos caminhos internos… Eu, caçador de mim, não posso esquecer: a presa está aqui dentro. E é arisca demais para se render… Por isso inapreensível.

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Um comentário em “Caçador de mim

    Nubia Souza disse:
    02/01/2013 às 13:29

    Parabens Serginho! Vc como sempre….Fantastico! beijao…

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