Fluxo

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Estava folheando na livraria o livro de Gertudre Stein, “Paris é uma festa”, e descobri que ela escreve usando fluxo de consciência. Trata-se de escrever colocando no papel as ideias que vêm à cabeça sem muita preocupação com filtros ou ordem lógica dos parágrafos. Eu não sei até que ponto esse tipo de escrita tem valor estético, já que a escrita, diz-se, tem de agradar quem lê. Minha mulher está fazendo pipoca para as meninas. Cheiro de pipoca me lembra o Domingos Sávio, colégio salesiano em que estudei. A formação salesiana foi muito importante para mim, eu sei. Eu queria estar 24 horas por dia no colégio. Estudava de manhã e à tarde queria ir pra lá jogar bola ou simplesmente estar lá. Esse sentimento de pertencimento é que se perdeu na escola de hoje. As escolas são feias, têm cara de prisão e não de escola. Ninguém gosta de prisão. Já basta a prisão do mundo e das coisas que a gente não pode fazer por imposição social. Que, aliás, só servem pra algumas pessoas. Nossa democracia é fuleira. Ela é furada, no sentido de ser cheia de furos mesmos, por onde passam quem tem mais grana, quem conhece o gerente, quem chega de carro importado. Eu sou um cara otimista, que acredita sempre na hipótese mais feliz. Mas confesso que essa sequência de fatos dessa democracia furada e essa recorrência cada vez maior de coisas ruins têm me tirado o brilho da esperança que carrego comigo. Gosto de fazer as coisas e sei que fazendo as críticas vêm e elas fazem parte. Mas sinceramente não entendo uma pessoa desejar que a outra morra e expressar isso publicamente e de forma gratuita numa rede social. O que é? Cocô na cabeça? Porque só pode ser dodói uma pessoa dessa. Mas por que estou falando isso? Não vou ficar batendo palma pra maluco dançar. Tenho duas filhas pra criar, uma mulher pra amar, alunos pra ensinar, um mundo pra pesquisar e um gato pra cuidar. Aprendi a gostar de gatos. Sempre fui mais cachorro do que gato. Sem metáforas. No dicionário mesmo. Eu gostava de ler dicionários, aprender palavras novas. Soteropolitano é legal. Descalcificação é legal também. Aprendi com uns nove anos, numa época em que não tinha de me preocupar em fechar o mês e fazer com que o salário dê conta dos 30 dias. Dívida é ruim. Odeio dever. Odeio parcelar. Mas ultimamente tenho parcelado tudo. Contingências. Tenho feito mil coisas que me dão mais trabalho do que dinheiro. E ainda tenho de aguentar aqueles que torcem pelo jacaré jogando contra. Os caras acham que tenho dinheiro e não sabem que meu edredom aqui está rasgado e o gesso do teto tá puído em três cômodos do meu apartamento. E ainda tenho uma paciência com essas insinuações de que me locupleto financeiramente com as coisas que faço. Dou palestras de graça onde me pedem, participo de evento sem cobrar, traduzo coisas para amigos… Danem-se os amargos! Faço o que gosto. Mas preciso ganhar dinheiro. Isso é fato. Se alguém me contratasse pelo que ganho na universidade, eu juro que dava um tempo. Pensei mesmo em dar um tempo da universidade e mochilar pelo mundo. Rá! Passei da idade. 43 anos. Não me vejo com 43 anos. Fico invocado quando me chamam de “senhor” por causa da idade e não por causa de uma fórmula comercial. Não tenho medo de morrer, mas sofro de uma nostalgia excessiva. Por isso gostei demais do último filme do Woody Allen, “Meia-noite em Paris” (que tal um pós-doutorado em Paris para dar um tempo das coisas mesquinhas de Manaus?). Mas não assistiu ainda o filme do Woody Allen? Putz! Tá perdendo. Nele aparece a Gertrude Stein, que escreve usando fluxo de consciência. Mas não sei se isso funciona…

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3 comentários em “Fluxo

    darleteixeira disse:
    10/09/2011 às 10:44

    Hummm. Bom para os psicoterapeutas desvendarem o que nós não sabemos de nós mesmos… como as teses de doutorado que desvendam um autor sobre o que nem ele sabia sobre si mesmo. ; )

    Ana Kely Mendes disse:
    10/09/2011 às 22:55

    Querido Não sabe se funciona?!
    VOCÊ É BOM….TÔ COMEÇANDO A GOSTAR…
    Você pode ir a qualquer lugar…. já vai néh….
    vai e leva nao somente eu , como muitas outras pessoas que gosta
    de seus escritos …e esse fluxo que fluir e faz a gente ler tudo…até o fim ….fim só deste escrito….e faz a gente esperar os próximos….
    PARABÉNS……T

    Lourdes disse:
    14/09/2011 às 11:24

    De longe o texto teu que mais gostei, na boa. Devo me identificar com esse tal “fluxo de conscência”, que, do alto da minha ignorância, não conhecia. Beijão.

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