Deixar ir…

Postado em Atualizado em

Não sou chegado a dizer adeus. Costumo evitar essa palavra porque dizer adeus às coisas ou a alguém é dizer adeus a mim mesmo presente naquilo que se está indo. Acontece que dizer adeus faz parte da existência tanto quanto dar início a algo novo. Aliás, para que o novo surja, o velho tem de ir. O que pega nessa história é o fato de que decidir sempre é um momento difícil e doloroso. Decidi escrever sobre decisões, escolhas e renovações.

Uma boa metáfora para a renovação é a ovelha. Ela sintetiza vulnerabilidade e entrega. A ovelha perde aquela cobertura de lã, mas ao longo de sua existência outras crescerão para ser tosadas de novo. Um ciclo, portanto. Saber abrir mão de nossas lãs para que outras surjam requer desapego. Existem momentos assim na vida. Momentos de corte, de conclusão. A perda pode vir de fora (uma demissão, uma separação, uma perda de alguém querido) ou de dentro, quando a decisão final depende de nós. Em ambos os casos, ela arde feito álcool na ferida aberta. Por isso, todo ser humano tem dificuldade em colocar um ponto final e fica pondo vírgulas paliativas. Por isso teimamos em insistir numa situação conhecida, ainda que insatisfatória. Por isso a dificuldade de aceitar que aquele ciclo terminou, se esgotou e precisa ser finalizado. Mas por que tanto sofrimento?

O sofrimento vem de uma carga negativa associada à impermanência. Talvez uma forma de sofrer menos seja encarar a porta de saída de uma situação como porta de entrada em outra. Saber que a porta que se fecha atrás da gente foi a que permitiu que um novo ciclo começasse. Tirar a ideia de que se despedir é necessariamente algo ruim. É preciso a despedida para o abraço de um reencontro. É mais ou menos como a ecdise, a mudança periódica na casca dos antrópodes, como os caranguejos e centopeias. De tempos em tempos, é necessário que o bichinho deixe a casca velha para formar uma nova, mais folgada, e possa se desenvolver. Assim é conosco: crescemos com as experiências da vida e precisamos, vez por outra, da renovação das cascas. Ainda que não mudemos de emprego, de afetos ou de carreira, vemos a necessidade de mudarmos os paradigmas, os modos de viver, as regras estabelecidas para poder continuar respirando.

Mas como é que a gente descobre o momento certo da mudança? Li uma frase em algum lugar que dizia: “o ego grita; a alma sussurra”. Creio que seja por aí a descoberta do momento. Vivemos num mundo dos gritos onde o som do sussurro da alma desaparece. O mundo de hoje nos exige treinar o ouvido para ouvir a alma, que tem muito a nos dizer sobre a tal da hora certa. Porque a alma vai dizer quando estamos prontos para o adeus. O verdadeiro adeus só surge quando a pessoa já compreendeu qual é o seu destino. Ele só se apresenta quando a pessoa já refletiu sobre o que precisa para se desemaranhar e seguir adiante em seu caminho. Perceber e aceitar o fim de um ciclo é um claro sinal de maturidade. Agarrar-se a trapos de coisas que já foram não nos permite ir adiante: nos congela no tempo, na vida. Ruminar sobre o passado que dói é masoquismo.

É preciso reconhecer as razões das mudanças. Mudamos para fugir da vida ou para enriquecê-la. Muitas pessoas resolvem sair de uma situação porque a situação, de repente, exige que elas dialoguem com seus fantasmas. Outras saem em busca de situações que venham substituir as velhas para enriquecer sua existência. Quando nos deparamos com a necessidade de mudança é preciso perguntar: fuga ou enriquecimento? A fuga só muda o problema de lugar e a mudança não ocorre de fato. No enriquecimento, algo novo surge. Mas abandonar faz parte de decidir mudar.

O que dói nas mudanças e ter de admitir que um plano que foi feito – e no qual foi investido grana, sonhos e afetos –  não faz mais sentido. Por isso a necessidade de exercitar o desapego.  Atribuímos nossos próprios significados às pessoas e às coisas e isso nos liga a elas de tal forma que fica difícil desapegar.  Mas por que agarrar certos momentos se a vida está puxando você para outro lado? Talvez isso se dê pela necessidade que temos hoje não de viver as coisas, mas de retê-las, segurá-las, o que é um equívoco existencial.

O budismo nos dá a dica a respeito do desapego. Diz um de seus ensinamentos que se segurarmos um objeto firmemente com a mão, alongarmos o braço com a palma para baixo e relaxarmos os dedos, perderemos o objeto, que cairá. No entanto, se mantivermos a palma da mão virada para cima, mesmo afrouxando os dedos, o objeto ainda estará ali. O segredo então é conservar com desapego ou largar de vez.

Mas, convenhamos, mudar não é fácil. “Às vezes corre sangue”, dizia Clarice. Tem pessoas que sequer cogitam. Mas cada vez mais o tempo vem me mostrando que devemos seguir nossos anseios sem medos ou culpas. A psicanálise nos diz que fazer ouvidos de mercador às necessidades da alma pode aumentar conflitos internos e desembocar em depressão, desânimo e cansaço. Represa-se a energia da alma, que explode de alguma forma no corpo. Ouvir o corpo é receber as mensagens da alma. Mas e as perdas? Escolher traz perdas…

Sim, mudar na vida requer saber que é preciso viver o luto da escolha, com todas as fases. Numa mudança, há o choque inicial, a negação ou dúvida, o momento da mistura de sentimentos (insegurança e solidão se intercalando com confiança e contentamento). Depois, há a hora em que cai a ficha de que o fato é real e, por fim, há a aceitação. Saber viver cada uma dessa etapas é fundamental. Especialistas em luto dizem que é preciso externalizar essa perda em algum momento do dia: antes de dormir, no fim da tarde, no café da manhã… chorar, ir ao fundo do poço, gastar. Mas é preciso em contrapartida viver o resto do dia no presente, porque a vida segue. Despedidas são graduais. Por isso, às vezes, muito tempo depois a gente ainda se pega perguntando se aquela terá sido mesmo a melhor decisão.

Ainda tem o medo do desconhecido que vem com as mudanças. Mudar é necessariamente refazer sua zona de conforto. Deixar uma relação com alguém que nos entendia por olhar e refazer uma relação nova do zero com alguém que não me conhece nada assusta. Deixar um emprego em que os movimentos eram automatizados e  refazer um emprego em que terei de aprender novas circunstâncias e onde ninguém sabe do que sou capaz inquieta… O recomeçar traz uma sensação de caos, mas é, na verdade, uma reorganização, um freio de arrumação. O grande medo da despedida é o medo do novo eu que vai surgir. Para ir adiante, é preciso desapegar-se. Para exercitar o desapego é preciso o primeiro passo, a primeira reza ou o último beijo. É preciso desocupar lugares.

Eu me pergunto agora o porquê de estar falando sobre isso. Na linguagem, eu sei, não existe escolhas gratuitas. Falar sobre mudanças aponta para algo. Eu tenho minhas desconfianças do que seja. Deixa eu cuidar de ouvir meus sussurros. Adeus.

Anúncios

4 comentários em “Deixar ir…

    Berenice Corrêa disse:
    21/09/2011 às 20:38

    Oi, caro amigo! Os sussuros sempre são ótimos conselheiros e, certamente, apontarão para o que for melhor para você…
    Como a linguagem realmente não dá “ponto sem nó”, algo me diz que devo desejar que a luz da sabedoria o envolva com muito mais intensidade.nesse momento.
    Grande abraço! 😉

    Zayra disse:
    21/09/2011 às 21:04

    Mudar dói… machuca, às vezes pouco, às vezes muito. Sara sim, mas a cicatriz de vez em quando lateja, nos dias que a alma sente frio… mesmo assim, mudar é necessário… as novas experiências tratam de aquecê-la novamente…

    luziane figueiredo disse:
    15/10/2011 às 20:58

    caramba!! têm alguns textos que se encaixam perfeitamente nos diferentes momentos de vida q enfrentamos. Este foi dificil chegar ao final sem se emocionar. Parabéns!!

    Joyce Vieira disse:
    26/01/2012 às 09:30

    Muito a ver com o meu momento atual. Vou deixar minha alma sussurar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s