Canção Pra Quando Você Voltar

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Quando o sol de cada dia entrar,/chamando por você,/querendo te acordar…/Vai ter sempre alguém pra receber,/fazer o seu jantar/dormir no seu sofá./Alguém pra olhar a casa/e alguém que regue o seu jardim/até você voltar./E como é normal acontecer,/se num entardecer a dor te visitar/vai ter sempre alguém pra socorrer,/fazer o seu jantar/dormir no seu sofá./Enquanto a noite passa por mim,/eu rego o seu jardim/Você já vai voltar…/Om mani padme hum…

Para quem ainda espera.

Uma das sensações mais lancinantes do ser humano é ir deitar à noite de um dia em que a pessoa amada se foi. Até perceber que a outra chave de si foi deixada em cima do criado-mudo demora. Por um tempo, quem foi deixado apenas com seu amor já destinado e personalizado sem ter mais a quem destiná-lo engana a si próprio, esperando a volta de alguém que é protagonista do enredo a dois de uma peça que já não está mais em cartaz. Que isso não aconteça comigo. Dei para ter pena dessa gente porque estou com tempo para pensar. Você me deixou tempo ao precisar ir por uns tempos, o que eu compreendo, claro.

Todo dia há o sol de cada dia entra rasgando a janela, chamando por você, querendo lhe acordar. O seu rasgo de luz dilacera o vácuo do quarto e o meu peito esperançoso e o seu chamado ecoa um meu pretenso grito abafado que, dizem os que desistem fácil, não quer se entregar, dar o braço a torcer. Na sua tarefa de despertar, a luz do sol em vão se esgueira entre as frestas da persiana em busca dos seus olhos, olhos de quem sempre ocupou aquela metade da cama que hoje queda arrumada. Olhos de quem sempre ocupou aquele todo de mim e que, puxa, deu uma saída, precisou de um tempo, claro. Todo mundo precisa, lógico. Mas que vai voltar, óbvio.

A certeza da sua volta preenche a misericórdia penosa da inaceitável probabilidade de uma ida sem retorno, que é um não-sentido, uma não-possibilidade. Imagina… Eu recebo o sol, sempre estarei lá para recebê-lo por você. Você deu uma saída, mas retorna, eu digo. Peço para aguardar. Como eu aguardo. Eu faço o jantar que serve dois e ponho a mesa. Guardo parte para esquentar depois, dobro a toalha, recolho talheres. Porque algo aconteceu e você não chegou. Um imprevisto, lógico. Caio no sono no sofá estrategicamente posto em frente à porta que, cedo ou tarde, óbvio, vai se abrir e me fazer entrar a pessoa que já está dentro de mim: você.

Os dias passam e não arredo o pé da casa. Alguém tem de olhar a casa. O resto do mundo pode esperar. Rego a duas mãos o jardim plantado a quatro. As rosas, estranho, tentam me dizer algo. Mas que bobagem, as rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de você. Cartola canta o seu jardim e a minha espera. Eu olho para o céu e, veja você, o arco-íris já mudou de cor. Uma rosa nunca mais desabrochou. Todas as músicas me ninam a espera. Mas rego, cuido, trato do seu jardim. Vou ficar aqui até você chegar…

Eu apenas me preocupo com a demora. E se tiver acontecido algo? E se você se perdeu no caminho de casa? E se estiver sentindo a mesma dor causada pela presença ostensiva da nossa ausência? Estou a postos. Para cuidar, dar beijinho, fazer carinho para passar. Depois fazer o jantar com a comida favorita e dormir com a cabeça no seu colo no sofá. Já já você estará de volta, por certo.

A noite vem e o sol vai. Continuo regando o jardim. É inconcebível descuidar das flores coloridas e cheirosas, que aromatizaram cada dia e cada noite, soprando seus aromas por sobre nossos corpos, exaustos de tanto se amar. É até você voltar. Você já vai voltar.

O tempo em silêncio me leva à meditação. Canto, enquanto rego o jardim, faço seu jantar ou deito no seu sofá, um mantra dos monges: Om mani padme hum… Om fecha a porta para o sofrimento do orgulho. Imagina… Ma fecha a porta para o sofrimento que vem da inveja. Inveja de quê? Eu que lhe tenho. Ninguém mais, né? Ni fecha a porta para o sofrimento dos humanos, que é o nascimento, a doença, a velhice e a morte, um sofrimento que vem do desejo. E eu lhe desejo. Mas, confesso, a palavra morte me incomoda. Não sei a razão. Pad fecha a porta para o sofrimento que vem da ignorância. E como tem gente que não quer ver as coisas… Me fecha a porta para o sofrimento da fome e o da sede, um sofrimento vem da ganância. Eu não tenho ganas, a não ser de você. Assim como a fome de te comer e a sede de tomar em mim. E Hum fecha a porta para o sofrimento que vem da raiva ou do ódio. Mas eu amo você. Nunca vou odiar você…

Amanheceu. O sol entrou pela fresta, querendo lhe acordar, chamando por você… Eu vou recebê-lo. Eu sempre vou estar aqui. Até você voltar. Você já vai voltar…

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2 comentários em “Canção Pra Quando Você Voltar

    Amarene Filgueras disse:
    03/10/2011 às 09:18

    “E se estiver sentindo a mesma dor causada pela presença ostensiva da nossa ausência?”

    E eu que pensava já ter bem resolvidas questões passadas, ao ler seus iluminados escritos sinto ferroadas na alma. E lágrimas latentes e silenciosas escorrem pelo meu rosto mostrando-me o quão tola posso ser às nessa minha pseudo fortaleza de barro.
    Não sei se paro de ler-te ou de enganar-me.
    Om mani padme hum…

    Amarene Filgueiras disse:
    03/10/2011 às 09:32

    correção: faltou a palavra ” vezes”

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