P-46

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Há um planeta distante da Terra. Como todos os planetas distantes da Terra, ele é identificado por uma sigla em vez de um nome. É o planeta P-46.

Os habitantes do P-46 são diferentes dos da Terra. Não em sua forma física. Os P-46 e os terráqueos possuem a mesma forma. Tanto é que habitantes do P-46 vêm à Terra e habitantes da Terra são mandados à P-46, sem que ninguém perceba que não são nativos dos planetas para os quais são enviados. O intercâmbio existe para equilibrar o plano cósmico.

Os P-46 são poetas por natureza. Alguns raros não fazem poesias e são homens de negócio. Esses fazem parte da Academia P-46 de Homens Comuns. Mas a maioria dos P-46 vê nas seis luas do planeta motivos e razões para compor músicas e poemas, para cantar canções e decantar belezas. Não só são artistas na música, mas suas vidas são levadas dentro de uma estética muito particular. Podem até fazer outras coisas eventualmente, mas são um povo das artes.

Os P-46 possuem outra característica: eles vivem a política da nave despressurizada. Quando uma nave, como um avião, por exemplo, para usarmos exemplos da Terra, é despressurizada, máscaras de oxigênio caem automaticamente em frente aos passageiros. Passageiros adultos devem colocar a máscara primeiro em si e só depois, já seguros, devem colocar a máscara nas crianças. Caso contrário, corre-se o risco de desmaiar e não poder ajudar ninguém. Os P-46, portanto, sabem que se amar e cuidar de si é fundamental e prioritário sobre tudo. Seguram sua máscara com força na mão.

No amor, os P-46 são serial lovers. Amam muito e com muita intensidade. Não guardam rastros de antigos amores, o que não significa que não gostem nem desvalorizem quem passou antes pelo seu coração. Não. Mas são seres intensamente focados no presente. Quando amam, amam 100% e sua atenção em mostrar à pessoa que amam o quanto amam faz o resto do mundo se tornar secundário.

Embora queiram se mostrar independentes, os P-46 nunca cortam o cordão com sua família imediata. São umbilicalmente ligados e dependentes do amor fraternal, maternal e paternal. Quando têm filhos, sempre muitos, distribuem seu amor paterno de uma forma toda peculiar, mas que sempre deixa nos filhos a certeza de que ele é pra valer. Para os P-46, paternidade não é presença física – é até impossível para eles, de tão filhentos que são. Paternidade é algo que se inventa de forma diferente que só eles e os filhos sabem, de uma forma verdadeira.

Por serem seres da arte, os P-46 são inquietos. Não gostam de planos. Gostam do impulso. O impulso os move. Quando querem algo, dane-se o resto do planeta. O desejo tem de ser preenchido sob risco de explosão da cabeça ou do coração. Às vezes, eles não se entendem e vão buscar ajuda nas ciências da alma da cosmologia P-46. Nem sempre conseguem. Porque, no fundo, nem precisam. São assim. Ponto.

Poesia, amor por si, amor para dar sempre e muito, dependência afetiva e impulso. Na Terra, alguns leem isso como porralouquice, egoísmo, inconstância, imaturidade e irresponsabilidade. Mas são efeitos da leitura dos olhos acostumados dos terráqueos. Sabe-se que os P-46 têm os olhos desacostumados de poeta. Todas as crianças do P-46 são mandadas para passar a infância na Terra. Por isso crianças são poéticas. Por isso se gostam, por isso abraçam e beijam sem pedir nada em troca. Crianças são seres que precisam de afeto, de amor. E sempre agem por impulso do prazer imediato. Quando entram na idade adulta, os P-46 regressam para o seu planeta, poético, artístico, leve, para continuar sendo o que são em essência e a viver lá sua poesia. Por isso, P-46 é o planeta mais poético e de alma leve do universo inteiro.

Sabe-se que alguns P-46 acabam ficando por aqui. Eles se misturam e se passam por seres desse planeta, não sem sofrer a rotulação dos terráqueos comuns e adultizados. Mas os que ficam na Terra continuam na essência um P-46. Sabe Pablo Picasso? Sabe Vinícius de Moraes? E um tal de Elvis Presley? Mick Jagger? Tom Jobim? Fábio Junior? John Lennon? Albert Einstein? Gretchen? Ah, tem aquela Elizabeth Taylor também… Pois é. Todos P-46 que ficaram.

Meu irmão Paulo faz 46 anos de Terra. Parabéns, mano. Não volta para lá tão cedo, não, tá? Caetaneando, com a ironia dos 32 canais, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”. Eu te amo, meu irmão. Do teu irmão terráqueo que tenta, em vão, imitar os P-46 autênticos.

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Um comentário em “P-46

    blogdokokay disse:
    09/10/2011 às 06:06

    Uma das declarações mais lindas que recebi em toda a minha vida. Eu te amo, meu irmão.

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