Canção pra você viver mais

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Nunca pensei um dia chegar/ E te ouvir dizer: “Não é por mal, mas vou te fazer chorar/Hoje vou te fazer chorar… Não tenho muito tempo. Tenho medo de ser um só/Tenho medo de ser só um alguém pra se lembrar,/alguém pra se lembrar/alguém pra se lembrar…”/Faz um tempo eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais/Faz um tempo que eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais/Deixei que tudo desaparecesse/E perto do fim/não pude mais encontrar/O amor ainda estava lá/O amor ainda estava lá!/Faz um tempo eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais…

A única certeza que temos sobre o que nos vai acontecer no futuro é a morte. Ela vem, infalível. Vem para mim, vem para você, vem para todos.

Elizabeth Kubler-Ross, psiquiatra suíça, ficou famosa por seus escritos sobre a morte. Em 1969, ela escreveu “On Death and Dying”. Nesse livro, a autora apresenta os estágios pelos quais as pessoas passam quando estão na fase final de vida: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

O primeiro estágio, a negação, ocorre porque o Ego não aceita a notícia. Surge uma dor psíquica pela incompatibilidade do destino anunciado e os planos para a vida. Como o Ego não dá conta da coisa, vem a raiva. “Por que logo comigo? O que fiz para merecer?” Perguntas retóricas brotam férteis. O mundo todo recebe a culpa da proximidade do derradeiro destino. A pessoa fica amarga e revoltada. Sem forças para agredir o mundo, que é maior, passa-se a negociar com Deus uma sobrevida em troca de promessas de uma vida de fé, dedicada a outras pessoas, à caridade ou algo assim. Como Deus não fala mais diretamente com a gente, como fazia no Antigo Testamento, a impressão é a de que fica tudo na mesma. Daí vem a depressão, a tristeza, o fundo do poço. Sem forças para reverter o destino fatal, se aceita a morte como inevitável.

Kubler-Ross falava desses estágios vividos a partir de alguém destinado a fechar os olhos e perder seus 21 gramas de alma. Mas eu acho que os estágios servem para qualquer tipo de morte, não somente àquela que nos leva aos sete palmos do laborum meta. Servem para as mortes simbólicas também.

Quando a morte de um amor é anunciada, por exemplo, ocorre a mesma coisa: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Quando perdemos um emprego, idem. Um amigo que nos trai a amizade? Mesma coisa. Um relacionamento? Uma fé que falha? A gente nega, fica chateado, tenta negociar, se desespera e, por fim, aceita. Ou não, ficando estagnado em uma dessas etapas, com a vida congelada. Isso é importante: não estagnar. É necessário fechar ciclos. Faz parte de nossa constituição simbólica. A vida nos exige o clique no cadeado na saída.

Se tomarmos os estágios de Kibler-Ross como parâmetros da morte, real ou simbólica, talvez tenhamos mais margem de manobra de nossas dores, pois saberemos o caminho a ser percorrido. Talvez. Receitas não funcionam na dor. Certo é que a nossa morte real ou a morte simbólica daquilo que nos compõe a vida não é uma decisão nossa e elas vêm, infalíveis. Vêm para mim, vêm para você, vêm para todos.

Não queremos pensar no dia em que isso vai chegar. Mas tudo o que a gente gosta vai morrer. Não é por mal que quem vai vai nos fazer chorar. Vai porque tem de ir. Se é tão certo que a morte vem, é certo também que o amor sempre vai estar lá. Não deixemos, pois, que tudo desapareça antes do fim para que, arrependidos, perto do fim, não possamos mais encontrá-lo. Se ajeite, respire fundo e faça as pazes com quem você gosta e de quem você anda afastado. Seja você a dar o primeiro passo. É triste cantar a linda música do Pato Fu para alguém real, alguém que gostaríamos que tivesse vivido um pouquinho mais a ponto de receber um abraço reparador. Esse, amigo leitor, é um arrependimento irremediável.

Faz um tempo eu digo às pessoas que gosto o quanto gosto delas. Faço isso desavergonhadamente. Antes que elas se vão. Porque elas vão. Receber o calor do abraço amoroso de alguém é muito bom. Sabe, leitor, faz um tempo eu quis fazer uma canção pra você viver mais. Mais tempo, mais intensamente.

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