Mouse pintado não basta

Postado em Atualizado em

O Grupo de Pesquisa Discurso e Práticas Sociais (UFAM/CNPq), que coordeno, tem analisado na Universidade questões sobre contemporaneidade e redes digitais. Uma das áreas em que tenho orientando pesquisando é a da democracia na interface com o mundo digital. O que temos percebido é que as redes digitais estão sugando a indignação das pessoas quanto às questões  políticas dando a impressão de que aumentou o controle social e, portanto, a pressão política. Por que “dando a impressão”? Porque essa indignação manifesta nas redes não tem tido força para sair do mundo dos bits & bytes. Vide no Brasil casos como o “Fora, Sarney!” e toda pressão sobre Belo Monte.

Com o advento das tecnologias de informação e comunicação (TIC), a mobilização que tem efeito político real para políticos da era pré-internet [a maioria que ainda decide o jogo] perdeu força. Por mais que a tese seja controversa para alguns, a Internet não gera revolução via hashtags ou botão de curtir. E a Primavera Árabe? O que aconteceu na Primavera Árabe, vejam só, foi o resultado de um acúmulo de situações históricas que levaram a indignação às ruas, em efeito dominó. As TIC desempenham um papel importante não como disparadoras, mas como propagadoras. Aí sim.

Isso tudo para dizer que vimos todos os dias nas redes indignação de toda sorte. É com a segurança que assusta, com a educação de má qualidade, com o transporte que não serve, com a cidade tomada pelo lixo, com os aluguéis estranhos de casa de amigos, com shows caríssimos mal explicados, mas tudo segue do mesmo jeito. O poder público parece nem se importar com o vulcão revolto das redes porque percebeu que ele está circunscrito às telas de computadores, como a vela digital que fizeram para Steve Jobs. Vivemos com o vulcão digital em permanente erupção. Na tela do computador.

Papo de acadêmico? Pode ser. Divisão social do trabalho é assim. A saída parece não ser gritar mais alto nas redes. Nâo somente isso. Isso também. Mas mudar efetivamente a matriz política que está aí, lembrando de todas essas indignações na hora de votar. O que precisamos é fazer as indignações se materializar num quadro político que entenda que a internet não é uma coisa à parte da sociedade, mas parte integrante dessa nova sociedade. Políticos e agentes públicos em geral que vivenciam a internet têm mais condição de transformar as lavas do vulcão digital em combustível propulsor de mudanças. Os outros estão velhos demais para isso, não se importam e continuam a não se incomodar com o que rola nas redes digitais. E como eles estão numa rede de poder real, dão as cartas com a Poker Face de sempre. Vendem as ilusões de uma cidade e de um estado lindos nas propagandas, de um judiciário não corporativista e de um legislativo que vem fazendo a sua parte sem advogar administrativamente – coisas contra as quais muita gente se indigna tanto [na internet] – E seguem as estripulias.

No fundo, mudou o cenário, mas o enredo é o mesmo. No entanto, não é o cenário que temos de mudar: é a história e os protagonistas. Isso a Primavera Árabe nos mostrou lá fora. Mas temos exemplos aqui mesmo em casa, como o movimento das Diretas Já. É preciso mais do que pintar o mouse de verde e amarelo. É necessário mesmo é pintar as caras, como alguns fizeram um dia nesse país.


//

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s