Discurso de Formatura

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[Os alunos de Letras/UEA se formaram hoje. Eles escolheram meu nome para dar à turma. Fico muito envaidecido pela escolha. Estive lá e fiz esse discurso].

 

Um discurso de formatura tem de ter algumas características. Tem de ser breve para não ser chato, tem de ser claro para ser compreendido e tem de ser leve para não ser ignorado. Ao receber o convite da turma, assumi o desafio de escrever um texto com essas características. Fiquei pensando em que escrever…

A brevidade, eu buscarei prometendo não me alongar, como prometem todos os que discursam. Para a clareza e em busca da leveza farei uma analogia da formatura de vocês com o casamento, assunto do qual entendo muito bem, tendo passado por três deles até agora.

Percebo nos dois processos muitas semelhanças. Senão vejamos:

Antes de subir a um altar com alguém, tomamos os primeiros contatos. São momentos de descoberta, de mapeamento do outro, de decisões constantes entre parar ou ir adiante numa relação que por algum motivo nos chamou a atenção. Pare, pense um pouco e se pergunte: em que momento me defrontei com essa profissão de professor e em que momento me vi seduzido por ela? Em que momento eu senti o frio na barriga ao achar que poderia ser ela, dentre as várias que se ofereciam faceiras? Será que embarco ou não nessa relação? Ela terá futuro? Serei feliz com ela para o resto de minha vida?

Tornado público o namoro, começam as cobranças: como é que você vai namorar justamente com ela? Que futuro lhe aguarda, meu filho? Case com a advocacia, a medicina, a engenharia… Namoro sem futuro… A pressão é grande. Dos amigos e às vezes da própria família. Mas a decisão está tomada: “quando o coração da gente se apaixona, fica frágil, fácil de se entregar”, já diz o sertanejo Daniel. E a gente segue em frente. As coisas vão ficando sérias e de repente: pum! Noivado!

Perguntas pipocam com uma fertilidade nordestina: “tem certeza? Olha, menino, isso é muito sério!” Mas você tem a certeza e fica noivo. O noivado é o pré-casamento. É o momento da escolha e do inicio do curso, da formação. Primeiro período. Segundo período. Sofrimento. A relação fica mais intensa, mais exigente, mais íntima. Quando brigamos ou encontramos dificuldades pensamos em desistir, buscar uma outra paixão, começar tudo de novo. Alguns desistem. Alguns correm para outros braços e abandonam o que de gostoso tiveram e os encantos que o seduziram no início. A vida é assim. Se não é para ser feliz é melhor mesmo partir para outra. Mas muitos de nós sabemos, por outro lado, que não há relação sem desgaste, sem brigas, sem vontade de jogar a tolha de quando em vez. E muitos de nós, como vocês, insistiram.

Decidido o casório, vem o curso de noivos. Nas licenciaturas é o estágio. Num curso de noivos, um padre me disse uma vez que quanto maior o índice de desistência mais eficaz é o curso. O objetivo, disse ele, é fazer as pessoas entenderem que o casamento é algo muito sério e que não dá para brincar com ele. Se os noivos concluírem que é melhor terminar por ali, melhor. O estágio mostra ao aluno que nem sempre aquilo que o amigo ou a amiga disse sobre relacionamento a dois é verdade. Que o mar de rosas só existe na teoria. Na prática, faltam muitas coisas. “Na prática, a teoria é outra”, ecoa o ditado. Muitos se assustam e dizem: “estou fora!”. Muitos dizem “eu sei que é difícil, mas acho que dá pra ser feliz”. Quem sobrevive a isso, manda preparar os papéis para o casamento. E casar custa caro. Além disso, tem que definir algumas coisas: comunhão total ou parcial de bens? Cadê a certidão de batismo? Por onde a certidão de nascimento? Cadê os certificados das  horas de atividades complementares? Meu Deus! Descobriram que o Departamento Acadêmico não tem meu diploma do ensino médio. Corre-corre danado. Casar é preciso e se formar é preciso. De repente, tudo pronto.

Hoje vocês estão aqui para a cerimônia oficial. Casam-se com a profissão que conheceram, que namoraram, com a qual noivaram. De hoje em diante, vão viver oficialmente o cotidiano de uma relação que vai até o resto da vida, porque o que Deus uniu o homem não separa. O diploma conquistado, ninguém tira. E para isso tiveram o seu dia de noiva. Foram ao cabeleireiro, usaram creme, pintaram unha, se empetecaram todos.

Saibam que aqui começa um grande desafio. Saibam que qualquer relação a dois envolve tantas coisas boas e más, sonhos e pesadelos, alegrias e tristezas, saúde e doença. Saibam que o casamento sofre com a rotina, como sofre também a profissão. Saibam que há momentos em que pensamos em desistir, porque o outro lado parece não nos compreender. Saibam que vocês, no curso da profissão, serão seduzidos por outras profissões. Poderão até ter um casinho ou outro fora do casamento com o magistério, quando esse abrir lacunas, como acontece na vida a dois, apesar de não ser esse o desejado nos relacionamentos em nossa sociedade. Mas se houver amor mesmo, depois da crise, a gente sempre volta. De coração aberto, com carinho e com paixão. E saibam que a maior responsabilidade serão os filhos. Na vida a dois, seus próprios. Na profissão, os dos outros, o que aumenta a responsabilidade. Educar é formar mentes e corpos para uma sociedade mais justa e mais fraterna. Essa é a missão do professor.

O professor não pode, por fim, esquecer que seu casamento não irá nunca prosperar se ele não compreender que ele, o casamento, se dá em uma dada conjuntura política e social. Que não há como viver uma vida a dois sem esquecer do resto, do ambiente que nos circunda. Que a vida fora da sala de aula é o objetivo da vida dentro da sala de aula. Que uma educação sem significação social é fadada ao insucesso. A educação é um ato fundamentalmente político, como nos dizia Paulo Freire já no fim da década de 60. E por político entenda-se aqui não só o político-partidário. Também. Mas o político no sentido etimológico da polis, da cidade. Do envolvimento com a cidade, do compromisso da cidadania.

Termino dizendo que é neste tripé que a vida, seja afetiva ou profissional, se sustenta. Na ética, no compromisso e no respeito ao próximo. Ética que funda uma sociedade mais equânime, compromisso com o fazer educacional significativo e respeito à diversidade das identidades dos outros. Com isso, a relação de vocês com a profissão que nessa cerimônia é abençoada pela presença dos seus entes queridos será uma relação feliz. Como feliz é também uma relação de casamento que considera o compromisso e o respeito ao próximo, sustentada por uma ética humana. Que Deus abençoe cada um de vocês. E que vocês sejam felizes para sempre. Amém.

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Um comentário em “Discurso de Formatura

    will. disse:
    03/02/2012 às 03:22

    adorei! a melhor! do que use filtro solar! rsss

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